Aos 43 anos, Cleo Pires encontrou na Serra da Mantiqueira uma rotina bem diferente daquela que costuma acompanhar a vida nos grandes centros.
A atriz vive com o marido, Leandro D’Lucca, em um sítio em Passa Quatro, em Minas Gerais, onde divide os dias entre os cuidados com plantas, animais, horta e agrofloresta.
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A mudança de Cleo acontece em meio a uma discussão que ganhou espaço nas redes: a vontade de desacelerar e ter uma rotina mais próxima da natureza.
Para algumas pessoas, deixar os grandes centros significa buscar mais tranquilidade, reduzir o tempo no trânsito e criar uma relação diferente com telas e trabalho.
Cleo Pires vive em meio à natureza: o que leva algumas pessoas a buscar uma vida mais tranquila
Reprodução Instagram
Para a psicóloga Leticia de Oliveira, a decisão de deixar um grande centro pode representar uma tentativa de reorganizar prioridades.
"Quando uma pessoa decide sair de um ambiente extremamente acelerado, muitas vezes não está simplesmente mudando de endereço.
Ela está buscando uma mudança na experiência de vida.
O contato com a natureza, a possibilidade de ter mais silêncio e uma rotina menos fragmentada podem favorecer uma percepção maior de presença e de controle sobre o próprio tempo", explica.
Por que tanta gente busca uma rotina mais tranquila?
Grandes cidades concentram oportunidades profissionais, serviços, opções de lazer e uma ampla rede de relações.
Ao mesmo tempo, o cotidiano pode ser marcado por trânsito, barulho, deslocamentos demorados, excesso de informação e uma conexão quase permanente com o trabalho e as redes sociais.
A sensação de estar sempre disponível pode continuar mesmo depois que o expediente termina.
Mensagens, notificações e novas demandas chegam a qualquer hora, tornando mais difícil estabelecer uma separação entre os diferentes momentos do dia.
O psiquiatra Ciro Jorge pondera, no entanto, que não é possível associar automaticamente a mudança para o interior a uma busca por saúde mental.
"Precisamos ter cuidado para não transformar a vida no interior em uma espécie de tratamento para os problemas da cidade.
O que podemos observar é que ambientes com menos estímulos podem facilitar momentos de descanso e recuperação para algumas pessoas.
Mas saúde mental depende de um conjunto muito maior de fatores, incluindo relações, trabalho, sono, hábitos e condições individuais."
Viver no interior significa desacelerar?
Para algumas pessoas, trocar um grande centro por uma cidade menor ou por uma área rural está relacionado menos à distância física e mais à possibilidade de ter maior controle sobre a própria rotina.
A mudança pode envolver novas atividades, mais contato com a natureza e uma relação diferente com o tempo.
No caso de Cleo, a decisão também foi possível a partir de uma organização financeira que permitiu conciliar esse estilo de vida com a carreira.
A atriz continua trabalhando e não rompeu os vínculos profissionais construídos ao longo dos anos.
Para Leticia, esse planejamento faz diferença.
"Existe uma diferença entre fugir de uma rotina e escolher conscientemente outra forma de viver.
Quando a mudança é planejada e está alinhada aos valores da pessoa, ela pode representar uma reorganização saudável de prioridades.
O problema seria acreditar que trocar o endereço, sozinho, resolverá conflitos internos ou dificuldades emocionais", pondera.
E a vida social?
Escolher uma rotina mais reservada não significa necessariamente abrir mão da convivência.
A tecnologia também permite que algumas pessoas mantenham o trabalho e os contatos profissionais mesmo vivendo longe dos grandes centros.
Ao mesmo tempo, preservar relações e atividades que façam sentido continua sendo importante, independentemente do lugar escolhido para morar.
"Para algumas pessoas, estar longe do excesso de estímulos permite recuperar uma relação mais saudável com o próprio tempo.
Mas é importante preservar vínculos, atividades que proporcionem prazer e uma rotina que tenha significado.
O isolamento social é diferente de escolher viver em um lugar mais tranquilo", observa Ciro.
A mudança de endereço, portanto, não é uma fórmula para uma vida melhor.
Para algumas pessoas, a proximidade com a natureza e uma rotina menos intensa podem fazer sentido; para outras, a cidade continua sendo o lugar onde encontram trabalho, relações e atividades importantes.
A questão está menos em escolher entre campo e cidade e mais em entender se o cotidiano construído corresponde ao que cada pessoa considera importante.
"Talvez a grande mudança esteja menos no lugar onde escolhemos morar e mais na forma como escolhemos viver.
Algumas pessoas vão encontrar isso no campo, outras em uma cidade menor e outras continuarão nos grandes centros, mas criando limites.
O ponto central é perceber se a rotina que construímos está de acordo com aquilo que realmente valorizamos", conclui.
