“Nós vamos mudar o Oriente Médio”, afirmou o premier de Israel, Benjamin Netanyahu, depois do maior ataque sofrido pelo país desde sua fundação, em outubro de 2023, em uma fala que tinha destinatários claros: o Irã e sua rede de milícias aliadas, conhecida como Eixo da Resistência.
A sequência de guerras e intervenções na região, protagonizadas por Netanyahu e pelo presidente americano, Donald Trump, enfraqueceu a aliança, mas também preparou o terreno para uma existencial mudança estratégica e para demonstrações de resiliência do regime em Teerã.
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Por muitos anos o Hezbollah no Líbano, o Hamas em Gaza, e o regime de Bashar al-Assad na Síria atuaram como uma primeira linha de defesa do Irã contra adversários regionais — especialmente Israel — e globais, como os Estados Unidos.
A invasão do Iraque em 2003 e o desmantelamento das Forças Armadas locais abriram caminho para o surgimento de uma rede de milícias armadas, apoiadas por Teerã, que lideraram uma insurgência contra os americanos.
A guerra civil no Iêmen, da qual os houthis eram protagonistas, permitiu a expansão do poderio iraniano para o Mar Vermelho.
Mas a resposta aos ataques do Hamas em 2023 mostraram os limites da aliança, incluindo do Irã, que foi bombardeado pela primeira vez pelos israelenses no ano seguinte, e que se viu em meio a à guerra total em fevereiro.
Lideranças foram mortas, arsenais eliminados, e poderes políticos fragilizados.
Para alguns políticos, analistas e estrategistas militares, o Eixo da Resistência havia chegado ao fim — para Bashar al-Assad, de fato, a história de fato terminou em 2024.
Outros preferiram a cautela antes de cravar sua extinção.
— O fato de a rede estar enfrentando uma ameaça existencial não significa necessariamente que ela irá se desintegrar — disse Ahmed Nagi, analista do International Crisis Group, à AFP.
— A rede opera em um nível que vai além do militar; seus laços políticos, sociais e religiosos permanecem profundamente enraizados entre seus grupos e dificilmente se desfarão apenas por conta de reveses no campo de batalha.
Mapa de milícias aliadas do Irã no Oriente Médio
Editoria de Arte
Como destacaram os pesquisadores Nadwa al-Dossari e Armen Mohammadin, do Middle East Institute, os ataques contra seus aliados e a guerra lançada por Trump em fevereiro aceleraram um reposicionamento crucial em Teerã: transformar o Eixo “em uma ‘frente de resistência unificada’ mais estreitamente coordenada, capaz de sincronizar pressões militares, políticas e estratégicas em múltiplos teatros de operações”.
Em resumo, usar as alianças regionais não mais apenas para proteger o Irã, mas para aumentar exponencialmente os custos de um ataque ao país, ao mesmo tempo em que a República Islâmica tentava sobreviver e se preparar para choques futuros.
“Enquanto negociava a implementação do Memorando de Entendimento com os EUA, o Irã trabalhava simultaneamente para fortalecer os laços que unem o Eixo da Resistência” escreveram al-Dossari e Mohammadin, em artigo para o site do Middle East Institute.
“Nessa estratégia em evolução, os houthis surgiram como um ator central, com o Iêmen servindo cada vez mais como o principal pólo para a próxima fase do Eixo.”
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Desde a década passada, os houthis ocupam uma parte do território iemenita, sendo alvo de uma intervenção liderada por sauditas e emiradenses em 2015.
Com a guerra em Gaza, o grupo lançou mísseis e drones contra Israel, a cerca de 2 mil km, e causou problemas à navegação no Estreito de Bab el-Mandeb, porta de entrada para o Mar Vermelho.
No mês passado, em meio à nova onda de ataques no Golfo, o grupo anunciou o bloqueio naval aos sauditas, atacando algumas embarcações.
A rota, crucial para o comércio global, é usada por Riad para evitar os bloqueios no Estreito de Ormuz.
— Bab el-Mandeb é uma das cartas vencedoras da Frente de Resistência e, se necessário, outras cartas também serão reveladas — disse Esmail Qaani, comandante das Forças Quds, o braço da Guarda Revolucionária responsável pela coordenação com as milícias, em junho.
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Dentro do “compartilhamento de custos” da guerra, os houthis e as Forças de Mobilização Popular (PMF), um agrupamento de milícias majoritariamente xiitas do Iraque, ampliaram nas últimas semanas os ataques contra posições dos EUA no Oriente Médio e contra outros países do Golfo, como a Arábia Saudita.
Ao menos uma instalação petrolífera de grande porte em Jizan, a algumas dezenas de quilômetros da divisa com o Iêmen, sofreu grandes danos, visíveis em imagens de satélite.
No Líbano e em Gaza, Hezbollah e Hamas foram debilitados por anos de bombardeios israelenses, mas tentam manter voz ativa nos processos políticos locais, ao mesmo tempo em que evitam (ou adiam) os processos de desarmamento total.
Mas a estratégia tem riscos, ainda mais em um ecossistema de grupos com objetivos próprios.
No Iêmen, os sauditas cogitam, de acordo com o jornal britânico Guardian, uma ofensiva aérea e terrestre de grande porte para manter o Mar Vermelho aberto.
No mês passado, os mesmos sauditas atacaram, com os EUA, posições das PMF no Iraque, matando mais de 20 pessoas.
— Cada um desses grupos possui sua própria identidade e seus próprios interesses, mas também está entrelaçado com o Irã devido a interesses profundamente compartilhados, tanto de natureza ideológica quanto geopolítica — disse à rede CNN Ali Ahmadi, pesquisador do Centro de Genebra para Política de Segurança.
Na semana passada, um ataque com drones provocou um incêndio em duas embarcações no porto egípcio de Damietta, levando a guerra a um país que, até agora, se limita a agir como mediador de crises.
Ninguém assumiu a autoria, e o governo no Cairo não anunciou como ou se vai responder.
“O ataque ao Porto de Damietta parece ser mais do que uma simples mensagem de segurança.
Trata-se de uma tentativa de atrair o Egito, ainda que gradualmente, para a órbita do conflito regional”, escreveu em artigo Amr Hamzawy, diretor do programa para o Oriente Médio do Fundo Carnegie para a Paz Internacional.
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Para Trump, a demonstração de força das milícias e do Irã — que atacou com drones uma base usada pelos americanos na Jordânia em julho — não é uma notícia agradável.
Após cinco meses de guerra, são poucos os aliados dispostos a apoiá-lo em um conflito que causou prejuízos políticos e econômicos difíceis de estimar.
Internamente, um novo capítulo da “Operação Fúria Épica” pode lhe render uma dura derrota nas eleições legislativas de novembro.
Nesta segunda-feira, Trump afirmou que as negociações com Teerã estão acontecendo, mas que não permitirá que os iranianos cobrem um pedágio em Ormuz, e que essa é a “última chance” que eles têm de conseguirem “um bom acordo” antes da retomada dos bombardeios.
Na véspera, o presidente disse em sua rede social, o Truth Social, que havia cancelado um ataque de grande porte para dar chance à diplomacia, um argumento usado em mais de uma ocasião desde abril, quando foi firmado o primeiro cessar-fogo.
Teerã nega qualquer tipo de diálogo direto com os americanos.
— O esforço [hoje] consiste em definir, o mais breve possível e em consulta com Omã, uma rota que seja inerentemente temporária e que permita garantir a segurança da navegação pelo Estreito de Ormuz — disse o porta-voz da Chancelaria iraniana, Esmail Baghaei, nesta segunda-feira.
