A escolha do publicitário Duda Lima para assumir a coordenação da campanha presidencial de Flávio Bolsonaro (PL) marca uma tentativa do senador de se aproximar do modelo adotado por seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, na eleição de 2022.
Com o aval do presidente do PL, Valdemar Costa Neto, a avaliação é que o marqueteiro pode ajudar a reorganizar uma campanha que, na visão de dirigentes, perdeu capacidade de pautar o debate público e passou as últimas semanas reagindo a crises sucessivas.
A mudança ocorre num momento em que o próprio Flávio já vinha incorporando elementos que marcaram a última disputa presidencial do pai.
Nas últimas semanas, o senador anunciou que passaria a fazer transmissões ao vivo todas as quintas-feiras, repetindo o formato utilizado por Jair Bolsonaro durante a Presidência.
Também voltou a levantar dúvidas sobre o sistema eleitoral e defendeu mudanças nas urnas eletrônicas, tema que esteve no centro da campanha bolsonarista de 2022 e que acabou contribuindo para a inelegibilidade do ex-presidente.
Apesar disso, dirigentes do PL avaliam que faltava à campanha uma estratégia capaz de organizar essas iniciativas dentro de uma narrativa mais ampla.
A leitura é que Flávio passou a alternar agendas positivas com crises políticas sem conseguir definir um eixo claro de comunicação, permitindo que episódios como o embate com Michelle Bolsonaro e as revelações envolvendo o banqueiro Daniel Vorcaro dominassem o noticiário.
Comunicação em eixos
Responsável pelas propagandas de televisão e rádio de Jair Bolsonaro em 2022, Duda Lima defende uma comunicação concentrada em poucos eixos temáticos, articulada entre televisão, rádio, redes sociais e imprensa.
Na última campanha presidencial, a estratégia priorizou a divulgação de realizações do governo, programas sociais como o Auxílio Brasil, obras de infraestrutura e uma ofensiva permanente contra o PT.
Na avaliação de aliados, independentemente do resultado da eleição, a campanha conseguiu manter uma identidade de comunicação e pautar o debate público durante boa parte da disputa.
Nos bastidores, dirigentes afirmam que a intenção não é reproduzir integralmente a campanha de quatro anos atrás, mas adaptar sua lógica ao cenário atual.
A avaliação é que Flávio passou as últimas semanas alternando temas e reagindo a crises, sem conseguir consolidar uma narrativa própria.
Com Duda, a expectativa é construir uma comunicação mais disciplinada, integrada entre os diferentes meios e baseada em poucos assuntos de maior apelo popular.
Entre as prioridades definidas pelo partido estão inflação dos alimentos, segurança pública, geração de empregos, desenvolvimento econômico e inteligência artificial, temas que pesquisas internas apontam como mais capazes de dialogar com eleitores para além da base bolsonarista.
A orientação é que esses assuntos passem a organizar a comunicação do candidato, sem abandonar bandeiras conservadoras que mobilizam seu eleitorado mais fiel.
Outro objetivo é reduzir o caráter reativo da campanha.
Integrantes da executiva afirmam que a equipe anterior passou tempo demais respondendo a crises, como o embate com Michelle Bolsonaro e os episódios envolvendo o banqueiro Daniel Vorcaro, e deixou de aproveitar agendas consideradas positivas.
A expectativa é que Duda estabeleça uma rotina de comunicação mais coordenada, definindo previamente os temas prioritários de cada semana e sincronizando a atuação do candidato na propaganda eleitoral, nas entrevistas, nas redes sociais e nas aparições públicas.
A escolha de Duda também teve forte influência de Valdemar Costa Neto.
Os dois mantêm uma relação de mais de duas décadas, desde as primeiras campanhas do publicitário em São Paulo, e ele é tratado por dirigentes como um dos profissionais de marketing em quem o presidente do PL mais confia.
Além disso, interlocutores afirmam que o nome recebeu o aval de Marcello Lopes, ex-coordenador da equipe de Flávio, que o indicou como o profissional mais preparado para assumir a função.
Também pesou a escassez de alternativas.
A poucas semanas do início oficial da campanha eleitoral, boa parte dos principais marqueteiros do país já estava comprometida com candidaturas presidenciais e estaduais.
Na avaliação de dirigentes do PL, Duda reunia uma combinação rara: experiência em disputas nacionais, conhecimento do funcionamento interno do bolsonarismo, trânsito junto à direção do partido e disponibilidade para assumir imediatamente uma campanha em pleno processo de reorganização.
