Com o fim das barragens a montante, mineradoras inovam em meios de dispor material não aproveitado - QTU Questões do Universo

Com o fim das barragens a montante, mineradoras inovam em meios de dispor material não aproveitado

Fonte: Bandeira da fonte

Os rompimentos das barragens de Mariana (MG), em 2015, e Brumadinho (MG), em 2019, desencadearam uma profunda transformação na gestão de rejeitos da mineração brasileira.
Desde então, o número de barragens construídas pelo método a montante e enquadradas na Política Nacional de Segurança de Barragens (PNSB) caiu de 74 para 42, segundo a Agência Nacional de Mineração (ANM).
Empresas aceleram a descaracterização, ampliam o monitoramento e adotam soluções como as pilhas a seco.
Os avanços, porém, não encerram o debate sobre segurança: à medida que as barragens dão lugar a novas formas de disposição do material, surgem desafios relacionados à regulamentação, à fiscalização e ao planejamento territorial.
Das 42 barragens a montante, 16 estão em descaracterização e outras 14 já tiveram as obras finalizadas e passam por monitoramento pós-obras.
A previsão é concluir o processo até 2035.
A descaracterização vai além da desativação da barragem.
Ela elimina permanentemente as características que a classificam como construída pelo método a montante, reduzindo riscos.
Na Vale, esse processo já foi concluído em 19 das 30 barragens a montante, o equivalente a 63% do total, com R$ 13,3 bilhões investidos desde 2019.
Segundo Geraldo Paes, diretor de geotecnia da Vale, a descaracterização é uma prioridade estratégica.
“Cada estrutura exige soluções de engenharia customizadas e planejamento detalhado para garantir segurança em todas as etapas”, explica.
A substituição desse modelo impulsionou novas formas de disposição de rejeitos.
Filtragem, empilhamento a seco e reaproveitamento de materiais reduziram a necessidade de novas barragens, com menor consumo de água e maior aproveitamento dos rejeitos.
Segundo Julio Nery, diretor de assuntos minerários do Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram), esse movimento ganhou impulso com o endurecimento das exigências para o licenciamento de barragens após os rompimentos de Mariana e Brumadinho, com a revisão da PNSB e a criação da Política Estadual de Segurança de Barragens (PESB), em Minas Gerais.
“As pilhas apresentam grau de risco e potencial de dano menores do que as barragens”, diz.
Na operação de bauxita da Hydro, no Pará, o rejeito passou a ser devolvido à própria cava da mina após filtragem e secagem, dispensando a construção de novos depósitos de rejeitos.
“Essa área deixou de ser destinada ao armazenamento permanente de rejeitos e passou a integrar o processo de beneficiamento”, explica Carlos Eduardo Neves, vice-presidente sênior de operações da empresa.
Com R$ 30 milhões investidos, a solução já evitou que 25 milhões de metros cúbicos de rejeitos fossem destinados a novos depósitos.
A produtora de minério de ferro Morro do Ipê (MG) também adotou a filtragem e o empilhamento a seco.
Desde 2019, opera sem barragens de rejeitos e recupera mais de 85% da água usada no beneficiamento por recirculação.
“Esse sistema torna o gerenciamento dos rejeitos mais previsível e controlado”, diz Eduardo Orban, CEO da empresa.
Na Vale, cerca de 65% da produção ocorre a seco ou com umidade natural, sem geração de rejeitos no beneficiamento.
Nas operações com beneficiamento úmido, a maior parte dos rejeitos passa por filtragem, com reaproveitamento de 90% da água.
Embora mais seguras, as pilhas de rejeitos continuam a exigir monitoramento permanente.
Para Bráulio Magalhães Fonseca, professor de planejamento territorial da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), as pilhas são mais seguras porque dispensam o armazenamento de grandes volumes de rejeitos em meio líquido.
Hoje, tecnologias como receptores GNSS (posicionamento por satélite), radares terrestres, drones equipados com LiDAR e imagens de satélite permitem identificar deslocamentos milimétricos antes mesmo de qualquer sinal visível de instabilidade.
“As barragens remanescentes continuam armazenando volumes muito grandes de rejeitos.
O que mudou foi a capacidade de monitorá-las e identificar precocemente qualquer alteração”, diz.
Bráulio Magalhães Fonseca, da UFMG: uso da tecnologia permite identificar deslocamentos milimétricos
Divulgação/Glenio Campregher
A Vale mantém três centros de monitoramento geotécnico em operação ininterrupta, integrando dados de diferentes sistemas e inspeções de campo para decisões preventivas.
A companhia também desenvolveu um sistema de operação remota de tratores e caminhões, controlados a partir de um centro em Belo Horizonte (MG), reduzindo a exposição dos operadores às áreas das obras de descaracterização.
A Hydro mantém um sistema integrado de monitoramento com câmeras, drones, piezômetros, inteligência artificial e uma central para acompanhar continuamente as áreas de disposição de rejeitos.
“A combinação dessas tecnologias amplia o monitoramento e agiliza a tomada de decisões”, completa Neves.
Com o avanço do monitoramento, a regulamentação sobre segurança de barragens passou a exigir auditorias independentes.
Na Vale, elas incluem relatórios semestrais elaborados por empresas externas e um comitê técnico internacional de especialistas.
Segundo a ANM, as auditorias subsidiam a fiscalização, mas não substituem a atuação da agência.
As regras também passaram a prever o engenheiro de registro, responsável por acompanhar continuamente cada estrutura geotécnica e identificar com mais rapidez eventuais alterações.
A substituição das barragens pelas pilhas de rejeitos também muda a forma como a mineração ocupa o território.
Em vez de concentrar volumes de rejeitos em um único ponto, as pilhas se distribuem por diferentes áreas da mina.
Para Fonseca, da UFMG, essa maior “capilaridade” exige integrar engenharia, planejamento territorial e gestão urbana.
A localização das pilhas deve considerar a direção dos ventos, a proximidade de comunidades e a ocupação futura do solo, estreitando o diálogo entre mineradoras e municípios.
“É preciso fazer isso a várias mãos, sob pena de o empreendimento não ser bem-sucedido”, diz.
As pilhas também impulsionam mudanças na regulamentação.
Segundo Nery, do Ibram, elas exigem critérios específicos de projeto, construção e monitoramento.
O instituto participou da revisão da ABNT NBR 13028, que passou a incluir critérios para pilhas de rejeitos.
Ao mesmo tempo, a ANM prepara uma resolução específica, com consulta pública prevista para o segundo semestre e publicação esperada para março de 2027.
Embora a ANM tenha realizado 95 vistorias no primeiro semestre, a agência admite que restrições orçamentárias obrigaram a revisar o planejamento de fiscalização, o que pode comprometer inspeções presenciais em 43 barragens e 18 pilhas até o fim do ano.
O monitoramento remoto continua, e as vistorias priorizam estruturas em situação de alerta, emergência ou com maior potencial de risco.
O Ibram defende fortalecer a capacidade operacional da agência para consolidar os avanços na segurança.
Pela legislação da Compensação Financeira pela Exploração Mineral (Cfem), a ANM tem direito a 7% da arrecadação anual, o equivalente a cerca de R$ 490 milhões.
No ano passado, recebeu menos de R$ 100 milhões.
“A gente só vai ter um setor forte se tiver uma agência forte”, diz Nery.
Pilhas de rejeitos vêm se tornando mais comuns com o fim das barragens a montante
Divulgação
Waste management - Reenginering tailings
Collapses at the Mariana and Brumadinho dams in Minas Gerais in 2015 and 2019, respectively, triggered a profound shift in how mining tailings are managed in Brazil.
Since then, the number of upstream dams covered by the National Dam Safety Policy (PNSB) has fallen from 74 to 42, according to the National Mining Agency (ANM).
Companies have sped up dam decommissioning, expanded monitoring, and adopted alternatives such as dry stacking.
But progress hasn’t settled the safety debate: as dams give way to new methods of disposal, fresh challenges are emerging around regulation, oversight, and land-use planning.
Upstream dams have been banned in Brazil since 2019, yet 42 of them are still standing.
Of these, 16 are being decommissioned and another 14 have already completed the process, the ANM says.
The work as a whole is expected to wrap up by 2035.
Known locally as “de-characterization,” the process reconfigures a dam’s structure to reduce the risks tied to upstream construction methods.
At Vale, 19 of the company’s 30 dams have already been through the change, backed by R$13.3 billion in investment since 2019.
“Each structure calls for tailored engineering solutions and planning to ensure safety at every stage,” says Geraldo Paes, the company’s geotechnics director.
The retreat has spurred new approaches to tailings disposal.
Filtration, dry stacking, and reuse are cutting the need for new dams while lowering water use and boosting recovery rates.
According to Júlio Nery, mining affairs director at the Brazilian Mining Institute (Ibram), the shift gained traction as licensing rules for dams tightened after the Mariana and Brumadinho disasters—with the revised National Dam Safety Policy (PNSB) and the new State Dam Safety Policy (PESB) in Minas Gerais.
“Stacks carry less risk and less potential for damage than dams,” he says.
At Hydro’s bauxite operation in Pará, tailings are now filtered, dried, and returned to the mine pit.
“This area is no longer designated for permanent tailings storage—it’s become part of the ore processing operation itself,” says Carlos Eduardo Neves, senior vice president of operations.
With roughly R$30 million invested, the solution has already kept 25 million cubic meters of tailings out of new storage facilities.
In Minas Gerais, Morro do Ipê has run dam-free since 2019, using filtration and dry-stacking systems that recover more than 85% of the water used in ore processing.
Safer as they are, stacks don’t remove the need for monitoring.
Technology now makes it possible to catch small structural movements before they become visible.
“The risk is still there.
What’s changed is our ability to monitor these structures and catch shifts early.
We’re more alert and better prepared today,” says Bráulio Magalhães Fonseca, a professor at the Federal University of Minas Gerais (UFMG).
For Nery, at Ibram, locking in the shift to safer structures also hinges on a stronger ANM—one with adequate resources and enforcement power.
“The only way to we can have a strong sector is to have a strong regulator,” he says.