Em 5 de novembro de 2019, os dois primeiros volumes de "The Unselected Journals of Emma M.
Lion" ("Os diários não selecionados de Emma M.
Lion", em tradução literal) chegaram discretamente às livrarias.
Os livros representavam uma mudança de rumo em relação aos romances de fantasia que Beth Brower costumava escrever.
Em vez de mundos imaginários, os diários acompanhavam o cotidiano, as aventuras e as reflexões de Emma, uma órfã espirituosa e apaixonada por literatura às vésperas da vida adulta, em um bairro fictício de Londres, em 1883.
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Brower havia visitado Londres apenas uma vez, mas enxergava com nitidez o universo de Emma: vizinhos excêntricos, tradições extravagantes, bailes fantásticos, aconchegantes casas de chá e acontecimentos inexplicáveis envolvendo fantasmas.
Imagine "Gilmore Girls" ambientada na Inglaterra vitoriana.
Toda a estratégia de divulgação da autora resumiu-se a um anúncio no Instagram, que recebeu apenas alguns comentários de parabéns.
Ainda assim, ela confiava que os leitores certos acabariam encontrando os livros.
Sete anos e seis volumes depois, foi exatamente isso que aconteceu.
Os leitores encontraram Emma — e ficaram obcecados por ela.
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Inicialmente concebida como um projeto leve, um respiro enquanto Brower avançava em obras emocionalmente mais densas, "The Unselected Journals of Emma M.
Lion" acabou transformando a autora em um fenômeno da autopublicação.
Mais recentemente, também lhe rendeu contratos com a editora Bloomsbury, no Reino Unido, e com outras 17 editoras internacionais.
(Ela ainda não assinou com uma editora americana — chegou, inclusive, a recusar uma proposta promissora —, embora diga que continua aberta a essa possibilidade.)
O primeiro volume já acumula mais de 100 mil avaliações no Goodreads.
Grupos no Facebook e influenciadores literários produzem diariamente — quando não de hora em hora — novas teorias sobre a série.
Hoje, Brower também passou a ser reconhecida com frequência em Orem, no estado de Utah, onde mora.
Em uma saída recente, depois de ser abordada por um leitor, ela virou-se para o marido e, divertindo-se com a situação, pediu desculpas.
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— Acho que vamos passar o resto da vida falando sobre Emma — relembrou a autora, em uma conversa por Zoom.
Orem foi também a cidade onde Brower, hoje com 43 anos, cresceu.
Quinta entre 11 irmãos, ela foi criada em uma família de forte inclinação artística, cercada por música, esportes, livros e outras formas de expressão criativa.
Nesse ambiente, desenvolveu uma rica vida interior e a capacidade de escrever em qualquer circunstância.
Para ela, nunca houve dúvida de que publicaria seu primeiro romance — a única questão era quando isso aconteceria.
Durante muito tempo, idealizou o caminho tradicional das editoras, mas as sucessivas cartas de rejeição a obrigaram a refletir sobre o verdadeiro objetivo de seu sonho: queria ver seus livros em todas as livrarias ou encontrar leitores que realmente se conectassem com sua obra? Escolheu a segunda opção.
Em 2016, fundou sua própria editora, a Rhysdon Press.
Boa parte do sucesso de boca a boca dos livros de Emma Lion se deve à protagonista, uma personagem imediatamente cativante.
Emma talvez compartilhe com Anne Shirley o encantamento otimista diante do mundo, mas seu humor afiado e sua modernidade remetem diretamente a Elizabeth Bennet, a protagonista de "Orgulho e preconceito", de Jane Austen.
"Admito que costumo desafiar boa parte das convenções sociais.
Já fui acusada de arremessar um bule de chá, como certamente você ouvirá em breve", explica Emma no segundo volume.
Brower estrutura a série como uma longa produção televisiva: cada volume cobre dois meses da vida de Emma, e cada ano do calendário corresponde a uma "temporada".
O nono livro está previsto para este ano, enquanto os fãs acompanham cada movimento digital da autora em busca de pistas sobre a data de lançamento.
A série foi a primeira — e também a primeira obra autopublicada — adquirida por Alexis Kirschbaum, diretora da Bloomsbury Trade.
— Como editora, gosto de personagens femininas complexas — afirmou ela.
Segundo Kirschbaum, a imaginação verdadeiramente original de Brower e a maneira precisa como ela captura o espírito de Londres tornaram a aposta praticamente inevitável.
Lady Smith, coproprietária da livraria independente Snail on the Wall, em Huntsville, no Alabama, encomendou os livros pela primeira vez em janeiro, depois de um pedido de uma cliente.
Hoje, precisa repor o estoque semanalmente e afirma já ter vendido quase 100 exemplares do primeiro volume, que se tornou um dos maiores sucessos da loja.
Ambientados em um bairro fictício de Londres chamado St.
Crispian's, os romances podem parecer, à primeira vista, apenas mais uma celebração do charme anglófilo.
Mas os leitores valorizam justamente o fato de Brower não hesitar em explorar os aspectos mais sombrios de seus personagens.
No quinto volume, Young Hawkes, um vigário pouco convencional — mais propenso a citar poesia do que as Escrituras do púlpito —, lança um desafio a Emma quando ela enfrenta o luto às vésperas de um novo ano: "É preciso uma enorme coragem para confiar no futuro depois que se conhece a perda".
Brower aprecia profundamente o entusiasmo de seus leitores, mas estabeleceu limites rigorosos em torno de St.
Crispian's e de seus segredos.
Ela não passa horas vasculhando discussões no Reddit em busca de sugestões para a trama.
A autora confirma que a série terá 25 livros, acompanhando a vida de Emma até 1887.
Lucas Page, morador de McDonough, no estado da Geórgia, conheceu a série por indicação de amigos da igreja.
— Sou um homem de 35 anos, casado, pai de dois filhos, e me identifico completamente com esses livros — disse.
Ele recomendou a coleção para a avó, de 86 anos, que leu todos os volumes em apenas três semanas e brinca que espera viver o suficiente para acompanhar a conclusão da saga.
Page e sua avó estão longe de ser uma exceção.
A série parece exercer um fascínio raro sobre públicos muito diferentes.
Tem densidade literária suficiente para agradar até os leitores mais exigentes; evita as cenas explícitas que impulsionam tantos sucessos do BookTok, sem deixar de oferecer aos fãs de romance material de sobra para especular sobre quais casais terminarão juntos; e aborda a espiritualidade com delicadeza e complexidade, sem afastar leitores não religiosos nem resvalar para um sentimentalismo açucarado.
Para os leitores que consideram as aventuras de Emma excessivamente modernas para o século XIX, Brower responde com simplicidade:
— Aconteciam muitas coisas interessantes na Inglaterra do século XIX.
Embora insista que Emma não seja uma personagem autobiográfica, Brower reconhece que o equilíbrio entre realismo e otimismo que conquista os leitores nasce de sua própria maneira de enxergar o mundo.
Na universidade, ela descobriu um talento inesperado para a jardinagem.
Gostou tanto da atividade que acabou transformando o hobby em profissão, passando sete anos como jardineira-chefe de Rivendell, uma propriedade inspirada em "O Senhor dos Anéis", nos arredores de Park City, em Utah.
Só deixou o cargo quando uma doença crônica a impediu de continuar.
— Precisamos ser corajosos o bastante para encarar as coisas sombrias da vida — disse.
— Ter esperança ou fé exige firmeza.
Exige honestidade diante das sombras que encontramos pelo caminho.
Hoje, com a saúde restabelecida, Brower mantém uma rotina de escrita mais regular e voltou a viajar para Londres.
Em 23 de julho, as edições britânicas publicadas pela Bloomsbury chegaram às livrarias, marcando também seu primeiro lançamento organizado por uma editora tradicional.
Ela diz estar encantada com as capas criadas por David Mann, que, segundo descreve, parecem "edições dos anos 1940 de um romance clássico do século XIX".
Nas últimas semanas, a autora tem se encontrado e compartilhado refeições com seus editores britânicos e franceses.
Em Paris, escapou por alguns instantes até uma loja da Fnac para comprar exemplares de seus próprios livros.
— Foi um momento de triunfo para mim e para meus personagens — disse por telefone.
— E eu queria compartilhar isso com eles.
No dia do lançamento, ela voltou a Londres.
— Pela manhã, passei por várias livrarias autografando livros.
Depois almocei em um café e fui visitar um dos meus museus favoritos — contou por mensagem de texto.
— Quanto ao resto do dia? O capricho decidirá.
