O trem estava parado nos arredores de um depósito em Memphis quando os ladrões agiram.
Saindo de um Kia Soul preto sob a cobertura da escuridão, os três homens subiram nos vagões de carga da CSX Corp.
Eles arrombaram os lacres dos contêineres e levaram mais de US$ 20 mil em mercadorias, incluindo roupas femininas destinadas a uma loja de departamentos Belk, brinquedos Lazer Blocks e duas caixas de chardonnay sem álcool Fre.
Ajuda: Governo destina R$ 13,5 bilhões a empresas afetadas por tarifaço dos EUA e conflitos internacionais
Foz do Amazonas: Poço pode ter mais de um reservatório; entenda em gráficos como será a exploração
Os ladrões encheram o veículo e esconderam o restante em uma área arborizada próxima, planejando voltar mais tarde para buscar os produtos.
O furto, ocorrido em novembro, era do tipo que os pátios ferroviários haviam sofrido dezenas de vezes nos últimos anos, mas, desta vez, câmeras equipadas com inteligência artificial estavam sendo usadas para monitorar o roubo.
Uma força-tarefa dedicada ao combate a crimes ferroviários entrou em ação.
A equipe — liderada pelo Tennessee Bureau of Investigation, com o apoio de órgãos federais, estaduais e locais, além da Guarda Nacional do Tennessee e da própria polícia da CSX — lançou uma aeronave que acompanhou o veículo por 18 quilômetros.
Algumas horas depois, policiais chegaram ao local quando um dos criminosos descarregava caixas com os produtos roubados, e os outros dois homens foram presos separadamente nos dias seguintes, de acordo com registros policiais analisados pela Bloomberg News.
Furtos quadruplicaram pós-pandemia
Roubo de trens é um clichê dos faroestes, associado a foras da lei do século XIX, como Jesse James, Butch Cassidy e a Gangue Reno.
Mas a versão moderna desse crime é, em grande parte, um produto da pandemia, com os furtos quadruplicando em relação aos níveis registrados antes de 2020.
Infraestrutura: Guerras e eleição no Brasil elevam cautela para investimentos no setor; país precisa de mais de R$ 500 bilhões anuais para o setor
Quando começaram os lockdowns, as gangues criminosas que dependiam do tráfico de drogas viram suas cadeias de abastecimento ser interrompidas, justamente quando as medidas de permanência em casa aumentaram a demanda por bens físicos.
Assim, as gangues migraram para os furtos, concentrando-se nos centros ferroviários localizados em gargalos urbanos, incluindo Chicago, Los Angeles e Memphis.
Criminosos roubaram mais de US$ 200 milhões em mercadorias em 75 mil furtos nas redes ferroviárias de carga dos EUA em 2025, segundo uma associação do setor que representa, entre outras empresas, a CSX, a BNSF Railway e a Union Pacific Corp.
Em janeiro do ano passado, um trem da BNSF foi roubado, com os ladrões levando cerca de 1.985 pares de tênis Nike ainda não lançados, avaliados em mais de US$ 440 mil, segundo um processo apresentado em um tribunal federal em Phoenix.
E policiais de Los Angeles encontraram US$ 1,5 milhão em carga roubada, incluindo produtos da Milwaukee Tool, durante uma operação.
Um porta-voz da CSX afirmou que, desde o início de 2023, mais de US$ 900 mil em pneus, sozinhos, foram roubados de trens em toda a sua rede.
Capital: Americana Paramount vende rede de cinema UCI no Brasil para grupo nacional
Em resposta, as principais empresas de transporte ferroviário de carga estão se unindo às polícias locais, ao Federal Bureau of Investigation (FBI) e às equipes de segurança corporativa, investindo milhões de dólares em tecnologias de monitoramento, drones, cercas de arame farpado e outras melhorias.
Tudo isso tem como objetivo combater as quadrilhas criminosas que muitas vezes estão armadas apenas com cortadores hidráulicos de parafusos e que veem as ferrovias como uma fonte confiável de mercadorias fáceis de roubar.
— Essas gangues conseguem roubar mercadorias no valor de dezenas de milhares de dólares em questão de minutos, sem contar os danos que podem ser causados aos trens — disse Sean Douris, chefe de polícia da CSX.
Chuck Poe (à esquerda), agente especial da força policial da CSX, conversa por videochamada com Sean Douris, chefe de polícia da CSX
Andrea Morales/Bloomberg
Em sua maioria, esses crimes não são assaltos à mão armada, mas se parecem mais com invasões de depósitos.
Os esforços do setor nas últimas décadas para aumentar a eficiência e maximizar os lucros fizeram com que alguns trens chegassem a ter cerca de 4,8 quilômetros de extensão e, muitas vezes, operassem com apenas dois funcionários.
Os criminosos estudaram os longos e previsíveis períodos em que os trens ficam parados ao se aproximarem dos depósitos — um momento ideal para atacar.
As gangues que atuam na região de Memphis são principalmente os Gangster Disciples, além dos Crips e dos Almighty Vice Lords, segundo a CSX.
Uma denúncia criminal apresentada em um tribunal federal no Arizona alegou que redes criminosas transnacionais com sede em Sinaloa, no México, estavam por trás de uma onda recente de furtos no sudoeste dos EUA.
Em Chicago, os autores dos crimes são uma mistura de oportunistas e redes mais sofisticadas, frequentemente ligadas a gangues de rua.
No Rio: Empresários estariam encomendando o roubo de cargas no Rio com matérias-primas para abastecer suas indústrias
Ladrões tentam ocasionalmente furtar itens grandes, como carros, descobrindo que estão presos com tanta segurança que é impossível retirá-los.
O principal alvo são itens menores e de alto valor, que podem ser vendidos a pessoas físicas e pequenas empresas ou por meio de marketplaces on-line.
Investigadores afirmam que eletrônicos, roupas de luxo e bebidas alcoólicas estão entre os principais alvos.
Pneus de automóveis são um nicho lucrativo; os ladrões escoam as mercadorias roubadas por meio de revendedores independentes e oficinas mecânicas.
Investimento pesado em segurança
Os furtos, além de às vezes aterrorizarem os funcionários, prejudicam os resultados financeiros das operadoras ferroviárias.
Em geral, as transportadoras são responsáveis pelas mercadorias perdidas até determinado valor; o cliente normalmente contrata um seguro para qualquer valor que ultrapasse esse limite.
Para combater o problema, as empresas ferroviárias estão investindo pesadamente em segurança.
A Union Pacific gastou mais de US$ 30 milhões em projetos de segurança desde janeiro de 2023, incluindo drones com recursos de imagens térmicas e câmeras aprimoradas por inteligência artificial — além de cerca de 12,5 quilômetros de muros de concreto, arame farpado e cercas transversais ao longo das faixas de domínio e dos pátios ferroviários.
A BNSF, que também conta com sua própria força policial de 200 agentes e unidades de cães (K9), está investindo em cercas elétricas, muros de alvenaria e barreiras resistentes a cortes para ajudar a combater os furtos.
No pátio ferroviário Leewood Yard, da CSX, em Memphis, o que antes era um local em grande parte aberto agora se parece mais com uma base militar fortificada.
A empresa gastou mais de US$ 7,5 milhões na instalação de cerca de 4.300 metros de cercas da série Amiguard 7700, com arame farpado laminado, com mais de 4,5 metros de altura.
Camadas de cercas de arame farpado ao redor do pátio Leewood da CSX, em Memphis
Andrea Morales/Bloomberg
Há 30 câmeras de vigilância que utilizam software de inteligência artificial para auxiliar no monitoramento e nas investigações em tempo real, ajudando a identificar os carros usados pelos ladrões mesmo quando eles trocam as placas dos veículos.
— Os investimentos que fizemos em pessoas e tecnologia significam que finalmente estamos alcançando os criminosos.
As câmeras com inteligência artificial e nossas parcerias com outros órgãos nos permitiram prender pessoas que, no passado, não teríamos nenhuma esperança de capturar — disse Douris.
A CSX também alterou seus horários para manter os trens em movimento nas áreas de maior risco da cidade e reduzir os períodos em que os vagões ficam, na prática, como alvos fáceis.
Os esforços combinados fizeram com que os furtos de cargas ferroviárias na região de Memphis caíssem 80% em relação ao ano anterior, informou a empresa.
As gangues também adaptaram suas táticas.
Elas trocaram os celulares por rádios comunicadores e passaram a se concentrar em trens que param mais longe da cidade.
Em uma nova estratégia que vem causando problemas para a CSX, os ladrões saltam de pontes sobre os trens em movimento quando eles reduzem a velocidade para atravessar áreas onde há limites de velocidade mais baixos.
Em Chicago, os enormes pátios ferroviários nos lados sul e oeste da cidade são alvos prioritários.
Em agosto de 2024, ladrões atacaram um trem da Union Pacific parado no lado oeste de Chicago, levando televisores e outros eletrônicos e colocando-os em veículos que os aguardavam, mesmo depois que a polícia, sobrecarregada com a situação, chegou ao local.
Uma câmera de segurança da CSX no pátio Leewood, em Memphis
Andrea Morales/Bloomberg
Dois meses depois, a imprensa local informou que pelo menos uma dúzia de pessoas saqueou outro trem da empresa.
Um vídeo mostrou uma cena caótica, com homens carregando pacotes retirados dos vagões para vans de carga estacionadas nas proximidades.
Investigadores da Califórnia afirmam que os furtos em ferrovias no estado estão ligados a gangues transnacionais.
À medida que a repressão do governo Trump na fronteira sul sufocou as operações de contrabando de pessoas, os grupos criminosos aumentaram os roubos de trens, segundo Rich Daniel, subchefe de polícia da BNSF que supervisiona as operações no sul da Califórnia.
Os cartéis também às vezes obrigam vítimas de tráfico que já estão nos EUA a pagar suas dívidas ajudando nos assaltos, disse ele a profissionais do setor em uma conferência sobre roubo de cargas realizada em Monrovia, Califórnia, no ano passado.
Enquanto os ladrões de menor nível geralmente têm como alvo trens parados, gangues mais sofisticadas sabotam os trilhos ou cortam as linhas de freio na tentativa de deixar os trens imobilizados em locais remotos, onde podem ser roubados com facilidade, disse ele.
— A vantagem disso é que eles podem parar os trens onde quiserem — afirmou.
Uma das frustrações dos investigadores é que a punição por roubar trens tende a ser relativamente branda, a menos que os suspeitos sejam flagrados com uma arma ou tenham cometido algum ato de violência.
Muitos dos acusados de furto simples são soltos sob fiança.
Em cidades como Memphis, Los Angeles e Chicago — onde crimes violentos e homicídios são as principais prioridades dos escritórios dos promotores —, levar casos de invasão e furto a julgamento pode ser um processo demorado e difícil.
As ferrovias americanas têm feito forte lobby sobre a questão e, em maio, a Câmara dos Representantes aprovou, com apoio bipartidário, a Lei de Combate ao Crime Organizado no Varejo.
O projeto de lei é defendido por David Valadao, deputado republicano da Califórnia cujo distrito inclui uma linha ferroviária de propriedade da BNSF que é alvo frequente de ladrões.
Ele costuma ver as consequências dos crimes — dezenas de caixas rasgadas e espalhadas ao longo dos trilhos.
— As pessoas sobem no trem, arrombam as caixas e começam a jogar os pacotes para fora, enquanto seus comparsas vão recolhendo as mercadorias pelo caminho.
Quando converso com as autoridades policiais sobre isso, elas dizem que é algo normal —afirmou Valadao.
O deputado republicano foi um dos coautores do projeto de lei, que dá às autoridades policiais instrumentos jurídicos mais poderosos.
Entre outras medidas, a proposta permite o confisco criminal de bens roubados, amplia as leis relacionadas à lavagem de dinheiro e permite somar os valores dos furtos para justificar acusações mais graves.
O projeto também cria um grupo dentro do Departamento de Segurança Interna dos EUA (Department of Homeland Security) para coordenar os esforços das forças de segurança.
Valadao está otimista quanto às chances de aprovação no Senado, observando que conta, entre outros, com o apoio de Charles Grassley.
— Há apoio bipartidário e bicameral, e uma das nossas prioridades junto à liderança é nos concentrarmos em questões que tenham apoio dos dois partidos.
Portanto, esperamos que o projeto avance — acrescentou Valadao.
De volta a Memphis, os supostos autores daquele roubo de novembro foram acusados de invasão e furto qualificados.
Embora alguns ladrões de trens escapem com punições leves, pelo menos um dos réus neste caso pode enfrentar uma pena de até 15 anos de prisão, porque o valor das mercadorias roubadas ultrapassa US$ 10 mil.
O promotor público do condado de Shelby está se preparando para solicitar a abertura de processos por um grande júri contra cada um dos homens.
