A Europa vive uma temporada de incêndios florestais históricos, impulsionada por sucessivas ondas de calor e por uma seca prolongada que favorecem a propagação das chamas em diferentes regiões do continente.
Nos últimos dias, França e Espanha enfrentaram os maiores incêndios de sua história recente, enquanto Grécia e Turquia também precisaram mobilizar milhares de bombeiros para conter focos ativos.
No Reino Unido, autoridades estimam que quase 3 mil mortes estejam associadas às altas temperaturas registradas entre maio e junho.
Contexto: França enfrenta incêndio quatro vezes maior que Paris; Grécia e Turquia também combatem grandes focos
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Para especialistas, os episódios refletem a combinação entre o avanço das mudanças climáticas e a dificuldade de adaptação de uma região que historicamente não foi planejada para enfrentar longos períodos de calor extremo.
A Europa é hoje o continente que mais rapidamente aquece no planeta, em razão, entre outros fatores, da proximidade com o Ártico, onde o derretimento acelerado do gelo reduz a capacidade de reflexão da radiação solar.
À medida que neve e gelo dão lugar a superfícies escuras e ao oceano aberto, mais calor é absorvido, intensificando o aquecimento.
— [A cobertura de gelo] funcionava como uma enorme superfície branca que refletia a luz solar.
Essa brancura está desaparecendo gradualmente e dando lugar a superfícies mais escuras — disse ao New York Times Chico Harlan, correspondente global sobre o clima.
— É como uma camiseta em um dia quente.
Você veste uma camiseta branca e ela reflete parte do calor.
Você veste uma camiseta preta e sente muito mais calor.
Neste momento, o Ártico é essa camiseta preta.
Na França, junho foi o mês mais quente desde o início das medições meteorológicas, em 1884.
Naquele mês, partes do país registraram temperaturas superiores a 43°C, enquanto a Espanha também enfrentou calor extremo durante semanas.
Instituições espanholas estimam que houve mais de mil mortes relacionadas ao calor apenas em junho.
Algumas estimativas, porém, chegam a citar 20 mil mortes.
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O impacto é agravado pelas características das cidades europeias.
Grande parte das construções foi projetada para conservar calor durante o inverno, não para dissipá-lo em dias consecutivos de temperaturas elevadas.
Além disso, o uso de ar-condicionado continua sendo menos disseminado do que em outras regiões do mundo, especialmente nas residências.
Em cidades como Paris, muitos edifícios históricos possuem telhados de zinco, que absorvem calor e transformam apartamentos nos últimos andares em ambientes ainda mais quentes.
— Ainda hoje, a maioria dos europeus não tem ar-condicionado.
Durante as ondas de calor, quem pode tenta encontrar algum alívio durante o dia.
Vai a um shopping, entra em uma piscina.
Mas idosos e pessoas com problemas de saúde muitas vezes ficam presos em apartamentos que nunca esfriam e permanecem quentes durante toda a noite.
Depois de vários dias assim, seus organismos entram em colapso — disse Harlan.
Ao mesmo tempo, as mudanças climáticas potencializam o risco de incêndios ao alterar as condições da vegetação.
No sudoeste da França, uma das áreas mais atingidas pelas chamas, plantações de pinheiros feitas no século XIX passaram a representar um fator de risco, explicou Harlan, já que, em condições mais secas e quentes, florestas de monocultura tendem a queimar com mais facilidade do que áreas com vegetação diversificada.
Esse tipo de decisão, disse, não teria consequências significativas se a França mantivesse seu clima histórico.
— Acho que a conclusão a que se chega, tanto por causa disso quanto de muitas outras coisas que estamos vendo aqui, é que a Europa construiu suas cidades e organizou sua relação com o meio ambiente pensando em um clima que simplesmente não existe mais.
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Outra problemática, segundo especialistas, está no fato de que, embora os impactos do aquecimento global tenham se tornado mais evidentes nos últimos anos, eles ocorrem num momento de enfraquecimento do impulso político que levou a Europa a assumir protagonismo nas políticas climáticas na última década.
O crescimento econômico mais lento, preocupações com segurança energética após a guerra na Ucrânia e o aumento do custo da transição energética alimentaram resistências a metas ambientais mais ambiciosas em diferentes países.
— A política climática tornou-se um tema controverso, especialmente entre setores da direita política na França e em outros países — disse Mark Landler, diretor da sucursal do New York Times em Paris.
— Assim, ao mesmo tempo em que as evidências das mudanças climáticas e de seus impactos se tornam cada vez mais dramáticas, a disposição política para enfrentá-las diretamente acabou enfraquecendo um pouco.
Incêndios continuam
Na França, bombeiros demonstravam nesta quinta-feira otimismo de que o maior incêndio florestal registrado no país desde 1949 havia deixado de avançar.
O fogo consumiu cerca de 42 mil hectares na região de Bordeaux, destruiu 240 casas e levou à retirada de mais de 220 mil pessoas de suas casas, tornando-se a maior retirada em tempos de paz da história moderna da França.
Autoridades começaram a autorizar o retorno gradual de moradores, embora ainda existam focos ativos.
— Tenho 67 anos e nunca tinha visto algo assim.
No caminho para cá, comecei a chorar — disse à AFP Jean-Claude Bonnet, um voluntário de Bordeaux.
— O pior são os animais que vemos queimados à beira da estrada.
É uma catástrofe ecológica.
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Na Espanha, o governo retirou o estado de emergência decretado para os incêndios nos arredores de Madri depois que as chamas perderam força.
Ainda assim, um novo foco próximo à fronteira com Portugal obrigou o deslocamento de mais de 600 pessoas.
Outro incêndio, na província de Ávila, já queimou cerca de 50 mil hectares e é considerado o maior registrado no país desde o início das medições, em 1961.
Na ilha grega de Creta, cerca de 8 mil pessoas deixaram suas casas diante de incêndios alimentados por ventos fortes e variáveis.
Dois bombeiros morreram após ficarem presos durante o combate às chamas, que atingiram áreas agrícolas, residências e instalações rurais.
Já na Turquia, equipes atuavam em mais de uma centena de incêndios florestais, concentrados principalmente nas províncias de Antalya, Mugla, Balikesir e Canakkale.
Segundo autoridades, a maior parte dos focos foi controlada, mas ventos intensos favoreceram o ressurgimento de incêndios em algumas áreas.
Enquanto isso, o Reino Unido divulgou, também nesta quinta-feira, um balanço que reforça os efeitos das ondas de calor sobre a saúde pública.
A Agência de Segurança Sanitária britânica estimou que 2.877 mortes registradas em maio e junho estejam associadas às altas temperaturas — número que já se aproxima do recorde anual de 2022 e que ainda pode aumentar com a inclusão dos episódios de calor registrados em julho.
(Com AFP e New York Times)
