Imagine uma caixa de vinho com uma bolsa plástica protegida por uma embalagem rígida.
Agora amplie essa estrutura até que ela seja capaz de transportar 24 mil litros de líquido dentro de um contêiner marítimo.
É assim que funcionam os tanques flexíveis, equipamentos que começam a ganhar espaço no transporte de insumos químicos entre a China e o Brasil.
Embora exista há mais de quatro décadas, a tecnologia voltou ao centro das decisões logísticas diante da alta dos fretes marítimos e da escassez de tanques de aço tradicionalmente utilizados no transporte de líquidos, os isotanques.
Como a China concentra a exportação de diversos insumos industriais, mas nem sempre recebe cargas líquidas em volume equivalente, os equipamentos enviados a outros países precisam ser devolvidos vazios ou reposicionados.
Os tanques flexíveis contornam parte desse gargalo ao transformar contêineres convencionais, cuja oferta é maior, em reservatórios para cargas líquidas.
Quando vazias, as bolsas podem ser dobradas e facilmente levadas até o local de embarque.
Depois da descarga, também não precisam retornar à origem, o que elimina despesas com locação prolongada, limpeza e reposicionamento do equipamento.
De acordo com Christopher Stockwell, diretor global da DHL Global Forwarding de tanques flexíveis, a mudança reduziu cerca de 40% o custo logístico total da operação.
Em uma operação entre a China e o Brasil, por exemplo, a carga pode levar cerca de 90 dias para percorrer todo o trajeto de porta a porta.
Tanque flexível da DHL
Divulgação
Em uma operação de 90 dias, a locação de um isotanque pode custar entre US$ 900 (R$ 4.565) e US$ 1.350 (R$ 6.849), considerando diárias de US$ 10 (R$ 50) a US$ 15 (R$ 76).
Um tanque flexível, por sua vez, custa cerca de US$ 250 (R$ 1.268), embora o valor varie de acordo com o produto transportado, a rota e as especificações da operação.
“A disponibilidade do equipamento é um fator decisivo, principalmente na China.
Muitos isotanques chegam ao país e depois são utilizados nas exportações, por isso nem sempre há unidades disponíveis para novas operações”, explica Stockwell.
A disputa por esses equipamentos ocorre em meio à expansão do fluxo comercial entre a China e a América Latina.
Segundo dados apresentados no Fórum China–Celac, as trocas entre as duas regiões passaram de aproximadamente US$ 12 bilhões, em 2000, para mais de US$ 515 bilhões em 2024.
O avanço foi impulsionado tanto pelas exportações latino-americanas de commodities quanto pela importação de bens industriais chineses e pelos investimentos do país asiático em setores como infraestrutura, energia, mineração, agronegócio e manufatura.
O avanço do comércio internacional também elevou a demanda por transporte marítimo, tornando a disponibilidade de contêineres e tanques cada vez mais decisiva para os custos e os prazos das operações.
Nesse cenário, os tanques flexíveis ganham espaço por aproveitar contêineres convencionais e transportar volumes maiores do que embalagens menores, como tambores e contêineres intermediários para granéis.
A alternativa, porém, não atende a qualquer tipo de carga.
Os tanques flexíveis só podem receber produtos compatíveis com o polietileno, como óleos vegetais, xaropes, glicerina, óleos básicos, lubrificantes e determinados insumos químicos.
Christopher Stockwell, diretor global da DHL Global Forwarding de tanques flexíveis
Divulgação
Combustíveis e outras substâncias inflamáveis não podem ser transportados nesse tipo de embalagem.
Produtos muito densos, difíceis de descarregar ou incompatíveis com o polietileno também podem inviabilizar a solução.
Por isso, cada operação exige uma avaliação que considere as características do líquido, o volume e o percurso.
“É o próprio produto que determina se o tanque flexível pode ser utilizado.
Depois entram fatores como a disponibilidade dos isotanques, as características da rota e o custo”, explica o executivo.
A tecnologia também passou por adaptações para reduzir riscos e ampliar o número de aplicações.
Os modelos atuais podem ter múltiplas camadas, barreiras contra oxidação ou entrada de umidade e sistemas de agitação para líquidos que precisam permanecer em movimento.
Há ainda versões instaladas em contêineres refrigerados para produtos sensíveis à temperatura.
Segundo Stockwell, um desafio que a DHL ainda precisa enfrentar é o de sustentabilidade.
Enquanto o isotanque pode ser reutilizado após a lavagem e descontaminação, o tanque flexível utiliza plástico e, na maioria das rotas internacionais, é descartado depois de uma única operação.
“Menos de 10% dos plásticos de uso único no mundo são reciclados e reinseridos na economia circular.
Por isso, estamos trabalhando na utilização de material reciclado pós-consumo nos tanques flexíveis”, conclui Stockwell
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Clayton Rodrigues
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