Conheça a história de Gaspar, a onça que surpreendeu cientistas ao bater recorde da espécie percorrendo 2,1 mil km - QTU Questões do Universo

Conheça a história de Gaspar, a onça que surpreendeu cientistas ao bater recorde da espécie percorrendo 2,1 mil km

Fonte: Bandeira da fonte

Caminhando quase dez quilômetros por dia, 381 dias sem parar, uma onça-pintada chamada Gaspar fez uma jornada épica no pedaço de Brasil onde o Cerrado se encontra com a Amazônia.
Gaspar, que jamais soube ter sido batizado assim, tornou-se tema de estudo científico ao percorrer 2.122 quilômetros, distância equivalente à que separa o Rio de Janeiro de Fortaleza.
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É um recorde absoluto para as pintadas.
Até então, o maior deslocamento registrado era de cerca de 120 quilômetros.
O estudo foi publicado na revista científica Ecology e conduzido por pesquisadores brasileiros e estrangeiros, liderados pelo Instituto Onça-Pintada, em Goiás.
As informações, diz o coordenador da pesquisa, Leandro Silveira, diretor do instituto, serão importantes para a conservação da espécie.
Gaspar percorreu florestas, campos, fazendas de gado, plantações e estradas, ampliando o conhecimento sobre o comportamento das onças e os desafios que enfrentam.
Também revelou que esses animais podem ser ainda mais poderosos e misteriosos do que se imaginava.
Ele foi capturado em 11 de novembro de 2024 para receber um colar com GPS, como parte do projeto de monitoramento da espécie desenvolvido pelo Instituto Onça-Pintada desde os anos 1990 no chamado Corredor do Rio Araguaia.
O nome foi uma homenagem ao proprietário de uma pousada em São Félix do Araguaia que apoia a iniciativa.
As localizações exatas não foram divulgadas no estudo por serem consideradas informações sensíveis.
Apesar de a caça à onça-pintada ser proibida, o animal continua perseguido em seu habitat.
Os dados são compartilhados apenas, mediante solicitação, com outros pesquisadores.
O último sinal emitido pelo colar de Gaspar chegou aos cientistas em 27 de novembro de 2025.
Silveira explica que o corredor é uma região estratégica para a conservação da espécie no Brasil, por conectar Amazônia e Cerrado.
O objetivo é compreender como as onças utilizam a paisagem, tanto em áreas naturais quanto nas ocupadas pelo homem.
Estima-se que 70% do corredor estejam em áreas de reserva legal de propriedades rurais ou em unidades de conservação.
Ao todo, são 57 áreas protegidas, além de fazendas e plantações.
Quando foi capturado, os pesquisadores estimaram que Gaspar tinha cerca de 8 anos.
Era um macho de meia-idade, pesava 92 quilos — porte médio para uma onça-pintada — e permaneceu inicialmente na área onde foi capturado, em Goiás, ocupando um território de 697 km² às margens do Rio Araguaia.
Os cientistas não sabem onde ele nasceu.
Acreditam que a área da captura fosse seu território, embora não necessariamente seu local de origem.
— Mas alguma coisa o espantou dali.
Talvez a chegada de outro macho — diz Silveira.
Deslocamento excepcional
Foi então que começou a sua jornada que resultaria em um dado científico excepcional.
São os machos de onça-pintada que migram em busca de novos territórios e oportunidades de reprodução, isto é, de fêmeas disponíveis para acasalar.
A extensão desse deslocamento depende da paisagem, da disponibilidade de presas e de fêmeas, além da presença de outros machos.
A maior parte dos estudos monitora as onças dentro de seus territórios, e não durante esses deslocamentos, que costumam atingir cerca de 120 quilômetros.
Pesquisas realizadas no Brasil e na Argentina estimam que o território de uma onça-pintada varie entre 120 km² e 1.200 km².
— Demos sorte de capturar um animal que não apenas se deslocou, mas o fez por uma grande distância.
Antes do Gaspar, o que se sabia era de deslocamentos curtos.
E mais do que isso: não foi apenas a distância, mas o fato de ele ter mantido um caminho praticamente linear e consistente por vários meses — salienta Silveira.
O que levou Gaspar a percorrer tamanha distância continua sem resposta.
Ele se embrenhou por matas fechadas, campos abertos e ousou a atravessar estradas e fazendas de gado, onde poderia encontrar pessoas dispostas a abatê-lo.
Como o colar enviava informações a cada hora, os pesquisadores receberam 5.050 localizações de Gaspar, o incansável.
Com base nesses dados, calcularam que ele percorreu, em média, 9,76km por dia.
Algo o impulsionava a seguir em frente, mas o que exatamente buscava talvez nunca seja conhecido.
— Pudemos reconstituir seu percurso, saber os obstáculos que encontrou, quando teve que se desviar de uma rota e interpretar o motivo de isso ter acontecido — observa Silveira.
Segundo o pesquisador, esse conhecimento tem aplicação direta na conservação da espécie, pois ajuda a identificar onde há conectividade, regiões sob ameaça e locais prioritários para ações de preservação.
Coautor do estudo, Jon Morant, da University College Dublin, na Irlanda, afirmou à revista New Scientist que a descoberta de que onças-pintadas são capazes de percorrer distâncias tão grandes expõe os desafios para sua conservação.
Segundo ele, também intriga o fato de Gaspar não ter se estabelecido em novo território, após tanto tempo e atravessar áreas adequadas à espécie.
O que aconteceu com Gaspar após sua coleira ter se calado é mistério.
Pode ser sido caçado, baleado em retaliação ou atropelado.
Ou pode ainda estar em algum canto de floresta, um refúgio nos campos.
O que movia a onça peregrina e seu destino serão para sempre um mistério.