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Contra o 'Ozempic face': canetas emagrecedoras abrem novo mercado para a indústria de cosméticos

Fonte: Bandeira da fonte

A popularização das canetas emagrecedoras abre uma nova frente de negócios para a indústria da beleza: o desenvolvimento de produtos voltados a consumidores que celebram os resultados na balança, mas se incomodam com as mudanças diante do espelho.
Flacidez, perda de volume facial — fenômeno conhecido como “Ozempic face” —, queda de cabelo e enfraquecimento das unhas estão entre os efeitos associados ao emagrecimento acelerado que agora movimentam o mercado de cosméticos.
Vichy, O Boticário e Mantecorp Skincare estão incorporando esse público às suas estratégias por meio de produtos voltados à firmeza da pele, ao fortalecimento capilar e à suplementação nutricional.
O movimento combina ingredientes como peptídeos, vitaminas e minerais com inteligência artificial, testes laboratoriais e pesquisas sobre os efeitos da perda rápida de peso no organismo.

O interesse da indústria de cosméticos acompanha o crescimento acelerado das vendas de canetas emagrecedoras no Brasil.
Entre maio de 2025 e abril de 2026, esses medicamentos movimentaram R$ 14,6 bilhões no mercado formal, mais que o dobro do registrado nos 12 meses anteriores.
Quando incluídas as vendas não monitoradas, o valor estimado chega a R$ 27 bilhões.
Segundo projeções do Itaú BBA, esse mercado poderá alcançar R$ 61 bilhões até 2030.
No O Boticário, o planejamento de produtos voltados à firmeza facial começou no fim de 2024.
A empresa já investigava ativos para melhorar o contorno do rosto quando percebeu que a popularização das canetas emagrecedoras poderia ampliar o público interessado nessas formulações.

“Pesquisamos as vias de atuação das canetas emagrecedoras e identificamos como nossos ativos poderiam agir nesses mecanismos.
O objetivo era demonstrar os benefícios do produto para a firmeza da pele”, afirma Bettina Gruber, especialista de pesquisa e desenvolvimento (P&D) da emrpesa.
Bettina Gruber, especialista de pesquisa e desenvolvimento (P&D) do O Boticário
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Peptídeos ganham espaço
O resultado chegou ao mercado em junho de 2026, em duas versões: sérum facial e gel-creme para a região dos olhos.
As fórmulas contêm peptídeos, pequenas cadeias de aminoácidos que funcionam como mensageiros para as células da pele, estimulando processos associados à sua firmeza e sustentação.

A estratégia também envolve ativos relacionados à elastina, proteína responsável pela elasticidade e pela capacidade de a pele recuperar sua forma.“O colágeno é importante, assim como o ácido hialurônico, mas eles não são suficientes.
Também precisamos de elastina, porque é ela que promove a flexibilidade da pele”, explica Bettina.
Segundo a pesquisadora, testes realizados pela empresa apontaram um aumento de 300% na produção de elastina.
A companhia também desenvolveu uma metodologia para identificar como os ingredientes atuam sobre mecanismos associados ao uso das canetas emagrecedoras, o que motivou o depósito de um pedido de patente no ano passado.
Sérum com peptídeos do O Boticário
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Na Vichy, marca da L’Oreal, a aproximação com usuários de canetas emagrecedoras surgiu a partir de uma linha que já vinha sendo desenvolvida para estimular a firmeza da pele.
Lançada em agosto de 2025, a família de produtos inclui sérum facial, creme e tratamento para a região dos olhos.
Recentemente, a marca apresentou uma versão em gel voltada a peles mais jovens.
Segundo Nathalia Harnam, diretora de comunicação científica da L’Oréal Brasil, o desenvolvimento das formulações começou antes da popularização recente dos medicamentos para perda de peso.
A proposta original estava relacionada ao envelhecimento, à longevidade e à preservação do colágeno.
“Não foi uma linha desenvolvida especificamente para atender esse público.
O desenvolvimento de uma molécula ou de uma tecnologia pode levar de cinco a oito anos.
O que aconteceu foi uma convergência entre pesquisas que a marca já realizava e o avanço das canetas emagrecedoras”, conta a pesquisadora.
De acordo com Nathalia, o principal foco das formulações está nos peptídeos, sendo que os ingredientes foram escolhidos para estimular famílias de colágeno associadas à sustentação e à firmeza cutânea.
“O colágeno é uma molécula muito grande e não penetraria na pele.
Por isso, trabalhamos com peptídeos, que podem gerar uma comunicação entre as células e estimular a produção de colágeno”, explica a executiva.
A oportunidade de direcionar a comunicação para pessoas em processo de emagrecimento ganhou força no Brasil.
Segundo Belisa Avena, diretora de marketing e digital da L'Oreal Brasil, a iniciativa partiu da percepção de que usuários desses medicamentos apresentavam necessidades semelhantes às de outras pessoas que perderam peso de forma acelerada.
“É muito mais o emagrecimento rápido do que uma associação direta à caneta.
Pessoas que fizeram cirurgia bariátrica ou passaram por uma perda acelerada de peso também podem apresentar flacidez e queda capilar”, diz a diretora de marketing.
A marca iniciou avaliações clínicas com dermatologistas e pacientes em condições reais de uso, incluindo mulheres que utilizam canetas emagrecedoras.
Segundo Nathalia, também estão previstos testes com um grupo de 300 consumidores, contemplando cuidados com pele e cabelos.
Nathalia Harnam, diretora de comunicação científica do Grupo L’Oréal no Brasil
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Cabelo e unha fragilizados
Se a perda de volume facial impulsiona produtos destinados à firmeza da pele, a queda de cabelo abre outra frente de negócios para o setor.
De acordo com Carla Presti, dermatologista e gerente médica da Mantecorp Skincare, mudanças bruscas na alimentação e no peso também podem afetar e o ciclo de crescimento dos fios.
“O cabelo não é uma estrutura prioritária para o organismo.
Em situações de estresse metabólico, como uma perda de peso rápida ou uma ingestão insuficiente de nutrientes, os recursos disponíveis são direcionados para funções vitais.
Como consequência, o ciclo capilar é impactado e a queda ocorre com maior intensidade”, explica.
O fenômeno pode desencadear um quadro conhecido como eflúvio telógeno, caracterizado pelo aumento da quantidade de fios que entram precocemente na fase de repouso do ciclo capilar.
Na prática, isso pode resultar em uma queda mais intensa e perceptível.
As unhas também podem apresentar fragilidade, crescimento lento e maior tendência à quebra.
De olho isso, a Mantecorp passou a associar esse cenário a produtos já presentes em seu portfólio e relançou a uma linha que reúne shampoo e loção capilar para cuidados com o couro cabeludo, fortalecimento dos fios e melhora do volume e da densidade capilar.

“Quando falamos em crescimento e fortalecimento capilar, não existe uma solução isolada.
O resultado está diretamente relacionado ao equilíbrio do organismo como um todo.
Queixas comuns incluem queda na quantidade e no volume de cabelo, além de um aspecto mais envelhecido da pele.
Isso se associa principalmente à diminuição na ingestão de calorias e proteínas, algo que pode ocorrer entre pacientes que utilizam essas medicações”, diz Carla.
IA analisa moléculas
A disputa por esse novo público também está acelerando o uso de tecnologia na criação de formulações.
Na Vichy, Nathalia afirma que ferramentas de inteligência artificial ajudaram a analisar quase 9.000 moléculas durante a seleção dos ingredientes utilizados na linha de firmeza facial.
“Existem centenas de peptídeos, e nem todos são iguais.
A IA ajuda na escolha das moléculas e nas análises combinatórias para identificar quais têm maior conexão com os resultados que esperamos”, afirma.
No O Boticário, por sua vez, a tecnologia é utilizada na triagem inicial de matérias-primas.
Depois dessa seleção, ferramentas de bioinformática simulam a interação entre os ativos e estruturas biológicas relacionadas à pele.
“É como um sistema de chave e fechadura.
A modelagem computacional avalia se os nossos ativos têm potencial para interagir com determinados receptores ou enzimas”, explica Bettina.

Sérum da Vichy
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Ciência ainda impõe limites
Apesar do entusiasmo das empresas, especialistas alertam que a presença de peptídeos em um cosmético não significa, por si só, que o produto terá resultados clinicamente relevantes.
Segundo Reinaldo Falavigna Tovo, dermatologista do Hospital e Faculdades Sírio-Libanês, essas moléculas são promissoras porque podem participar de processos de sinalização celular e outras funções biológicas.
No entanto, a qualidade das evidências varia de acordo com o composto, a formulação e o tipo de estudo realizado.
“Os estudos são escassos e, em sua maioria, realizados in vitro ou ex vivo, em células ou tecidos específicos.
Existem poucos testes relevantes em humanos e poucas publicações em revistas científicas de alto impacto”, afirma.
O especialista também destaca que a rrelação entre as canetas e as alterações na pele, cabelo e unha não devem ser tratadas de maneira simplificada.
Na maior parte dos casos, os efeitos estão associados à velocidade da perda de peso, à redução do tecido adiposo e a possíveis deficiências nutricionais, e não necessariamente à ação direta do medicamento.
“Regiões do rosto onde a gordura era presente em maior quantidade tendem à flacidez e ao excesso de pele.
Essas situações são exacerbadas quando o emagrecimento acontece de forma muito rápida ou intensa”, indica o dermatologista.
Reinaldo Falavigna Tovo, dermatologista do Hospital e Faculdades Sírio-Libanês
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Clayton Rodrigues
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