Daniella Marques, responsável pelo pleno econômico de Flávio Bolsonaro
Luciana Witaker/Valor
O ajuste das contas públicas é apontado como uma das principais preocupações por coordenadores econômicos de candidatos à Presidência, embora as campanhas divirjam sobre o tamanho e a forma de executar medidas nesse sentido.
O tema foi um dos pontos mais citados por assessores ouvidos pela CBN na última semana.
Leia mais
Entre os pontos citados estão mudanças nas regras de crescimento das despesas, revisão de gastos obrigatórios, combate a fraudes, privilégios e supersalários e maior controle sobre as emendas parlamentares.
As propostas também incluem reforma da Previdência, revisão de benefícios tributários, redução da estrutura do governo, privatizações e utilização de ativos da União.
As principais diferenças estão na intensidade do ajuste e nas áreas priorizadas.
O ministro da Fazenda, Dario Durigan, representou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), candidato à reeleição.
Ele defendeu a manutenção do arcabouço fiscal, com ajustes principalmente sobre as despesas obrigatórias.
Segundo Durigan, um eventual novo governo Lula deverá manter as regras atuais e continuar desacelerando o crescimento dos gastos.
“O que nós precisamos é de estabilidade para que as pessoas entendam quais são as regras no país”, afirmou.
Entre as medidas já adotadas, citou mudanças em fundos e no cálculo do piso constitucional da saúde, que deverão reduzir, segundo ele, mais de R$ 10 bilhões das despesas obrigatórias em 2027.
Também mencionou a limitação do crescimento real do salário mínimo e a redução linear de 10% dos benefícios tributários.
“É isso que nós vamos seguir fazendo.”
Durigan defendeu ainda um diálogo mais amplo com o Congresso e os demais Poderes para melhorar a eficiência dos gastos.
No caso das emendas parlamentares, disse que o objetivo não precisa ser reduzir os recursos, mas garantir transparência e eficiência.
O ministro também relacionou a queda dos juros à recuperação da credibilidade fiscal e defendeu combinar responsabilidade fiscal com políticas sociais e investimentos.
Já Daniella Marques, que coordena o plano econômico de Flávio Bolsonaro, candidato ao Planalto pelo PL, propõe um ajuste de 1,5% do PIB, com foco na redução da estrutura do Estado e na utilização de ativos públicos.
Entre as medidas estão a redução de 10 a 15 ministérios, o combate a privilégios e supersalários e o fechamento de estatais dependentes.
A coordenadora também aposta na monetização de imóveis públicos, na securitização de contratos de petróleo e de créditos da dívida ativa.
Segundo ela, a reestruturação desses ativos poderia alcançar mais de R$ 1 trilhão de forma escalonada.
Marques defende ainda um “Conselho Superior da República” para ampliar o diálogo entre os Poderes e mais transparência nas emendas, com ferramentas digitais e inteligência artificial.
“Cada centavo do dinheiro público, cada centavo dessas emendas, a gente deveria estar acompanhando para onde está indo e o que entregou”, afirmou.
O economista Carlos da Costa, responsável pelo plano econômico de Romeu Zema (Novo), defende um ajuste fiscal de cerca de 2% do PIB, concentrado na redução de despesas.
“Nosso compromisso é com o resultado e não com o gasto”, afirmou.
A proposta inclui reforma permanente da Previdência, combate a fraudes e revisão de programas sociais considerados ineficientes.
Uma das principais diferenças do programa de Zema está na defesa da privatização de todas as estatais federais, incluindo Petrobras, Banco do Brasil, Caixa e Correios.
Os recursos seriam usados para reduzir a dívida e financiar investimentos.
“A gente só vai baixar os juros se a gente reduzir a dívida pública”, disse.
Na área social, Costa propõe manter os programas de transferência de renda, como o Bolsa Família, mas prega reformulações, com maior focalização e estímulo à entrada dos beneficiários no mercado de trabalho.
“O Bolsa Família precisa ser focalizado naquelas pessoas que temporariamente estão à margem da sociedade”, afirmou.
O plano também prevê um regime alternativo de contratação, além do modelo CLT, com maior flexibilidade.
Representando o presidenciável Ronaldo Caiado (PSD), Roberto Brant afirmou que um eventual governo Caiado fará um ajuste para levar o resultado primário de um déficit próximo de zero a um superávit de 1,5% do PIB.
A principal proposta é uma emenda constitucional temporária, de dois anos e meio a três anos, para limitar o crescimento das despesas primárias a um ritmo inferior ao do PIB.
O plano inclui revisão de subsídios e benefícios tributários, combate aos chamados supersalários do Judiciário e mudanças nas emendas parlamentares.
Brant também defende que o governo não amplie despesas nem o quadro de servidores até atingir o superávit.
Para ele, a contenção dos gastos abriria espaço para a queda dos juros.
Sobre benefícios vinculados ao salário mínimo, faz uma ressalva.
“Nenhum centavo do salário mínimo dos benefícios pode ser tocado sem antes se tocar nas emendas e nos supersalários”, afirmou.
