Creche para cães em Botafogo é denunciada por suspeita de maus-tratos; polícia investiga - QTU Questões do Universo

Creche para cães em Botafogo é denunciada por suspeita de maus-tratos; polícia investiga

Fonte: Bandeira da fonte

Uma creche e hospedagem para cães em Botafogo, na Zona Sul do Rio, é alvo de uma investigação por suspeita de maus-tratos contra animais.
O caso envolve a Pituchos da Lu, localizada na Rua Doutor Sousa Lopes, e reúne denúncias apresentadas por tutores e pelo ex-funcionário Genesis Sousa Cardoso Martins, que afirma ter registrado vídeos, áudios e mensagens mostrando o funcionamento do estabelecimento e provas das agressões.
O material foi encaminhado à 10ª DP (Botafogo), onde o caso é investigado.
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As denúncias ganharam repercussão após uma operação realizada pelo deputado estadual Marcelo Queiroz no local.
Desde então, tutores passaram a trocar informações entre si.
Alguns foram procurados pelo ex-cuidador, que afirma ter decidido reunir provas antes de deixar o emprego.
Martins afirma que trabalhou sozinho cuidando dos cães e diz ter sido orientado pelos proprietários a prender e agredir animais considerados agitados.
— Eles chegavam para mim e falavam: "O cachorro está latindo, aqui não é o hotel da felicidade".
Mandavam prender, bater, corrigir.
No começo eu usei uma folha de jornal porque morria de medo de ser demitido, mas depois eu parei.
Eu nunca consegui fazer isso — relata.

Segundo ele, as agressões eram praticadas pelos próprios responsáveis pelo estabelecimento.
— Eu já cansei de ver ele (o dono) arrebentando cachorro.
Teve uma hora em que eu segurei a mão dele.
Eu precisava reunir provas, então comecei a gravar tudo — explica.
Animais aparecem acorrentados em creche para cães em Botafogo
O ex-funcionário afirma ainda que havia cães presos por correntes ou guias em cômodos internos da casa e descreve o segundo andar do imóvel, que também funcionava como hospedagem de gatos, como um ambiente insalubre.
— Eu fui almoçar e filmei um cachorro preso no quartinho com uma guia.
Era o lugar onde também ficavam gatos — conta.
Tutores surpresos

A jornalista Bianca Feldmann afirma que seu cachorro, Thor, frequentou a creche entre novembro de 2025 e junho deste ano.
Ela conta que acreditava que o animal passava o dia na área externa da casa, onde havia piscina e brinquedos, mas diz que descobriu outra realidade depois de conversar com o ex-funcionário.
— Eu mandava meu cachorro para a creche justamente para ele gastar energia.
Só que eu não sabia que, em vez disso, ele era mantido preso —diz.— Todos estão muito chocados.

Outra tutora, Roberta Boscá, deixou seu golden retriever na Pituchos da Lu durante cerca de três anos.
Ela afirma que, ao procurar Martins, recebeu a informação de que seu cachorro não aparecia entre os animais agredidos, mas permanecia preso por ser agitado.
— Ele disse que não viu baterem no meu cachorro, mas que isso era um costume com os cães mais agitados.
Também afirmou que o meu vivia preso e só era solto junto com os outros para fazer as imagens que iam para o Instagram e as que me mandavam para mostrar que ele estava se divertindo —afirma.
Depois de confrontar a proprietária da creche sobre as denúncias, Roberta afirma ter recebido outra versão.
— Ela disse que tudo era invenção do ex-cuidador porque ele sabia que seria mandado embora e que a assediava — relata.
'Se morrer, morreu'
Além dos vídeos gravados, o ex-funcionário apresentou mensagens de um grupo de WhatsApp que mantinha com os proprietários da Pituchos da Lu, Pedro Ayres Torres e Luana Dames.
Numa delas, pede ajuda para lidar com um cão que está chorando muito e a resposta do proprietário é: "O cachorro vai morrer do coração.
Se morrer, morreu.
Não tenho como sair da reunião".

O que diz a empresa
Procurada pelo GLOBO-Zona Sul, a empresa confirmou a veracidade da mensagem.
Afirmou, no entanto, que o trecho foi retirado de uma conversa mais longa.
Segundo a Pituchos, o cão estava agitado e latindo persistentemente, já havia sido levado para fora e uma pessoa estava retornando para tentar acalmá-lo.
A empresa afirma ainda que o responsável pela mensagem estava em um compromisso de trabalho e não conseguia se deslocar naquele momento.
Segundo a creche, a frase foi uma manifestação de frustração e preocupação diante da situação.
A Pituchos afirma que o cão não estava acorrentado nem trancado em um cômodo e que não foi machucado.
Reconhece que a frase, isoladamente, causa má impressão e diz lamentar a forma como foi escrita.
A creche negou as acusações de maus-tratos e afirmou que não instrui, autoriza ou tolera agressões físicas contra os animais sob seus cuidados, diferentemente do que afirmou o ex-funcionário.
Sobre os vídeos apresentados nas denúncias, a empresa afirma que eles possuem cortes e não mostram a sequência integral dos acontecimentos.
Segundo a Pituchos, não foi disponibilizado até agora arquivos originais que permitam verificar a integridade das imagens.
Ainda segundo a empresa, sua defesa prepara uma análise técnica do material e pretende colaborar com a investigação.
A empresa nega que cães permaneçam presos durante o período de creche e afirma que a rotina inclui recreação e socialização supervisionadas.
Afirma que, em situações pontuais, cães podem permanecer contidos por períodos curtos, e que isso ocorre principalmente durante a alimentação coletiva, quando um cão de maior porte pode se aproximar da comida de outro animal e provocar uma disputa por recurso.
De acordo com a Pituchos, a contenção dura cerca de dez minutos nesses casos e é uma medida de segurança, não uma forma de punição ou confinamento.
Polícia foi ao local
Segundo a Pituchos, policiais estiveram no estabelecimento na sexta-feira, 28 de agosto, pouco antes das 19h, acompanhados por integrantes de uma ONG de proteção animal.
A empresa afirma que não houve prisão, apreensão de animais ou interdição do estabelecimento e nenhum animal foi encontrado ferido durante a visita.

A Pituchos diz que continua funcionando normalmente e que mantém os protocolos de cuidado adotados antes das denúncias.
Versões sobre a demissão
Segundo o ex-funcionário, um vídeo contendo agressões foi divulgado na sexta-feira, 28 de agosto, quando ele ainda trabalhava na Pituchos da Lu.
Ele afirma que só tomou conhecimento de que o material havia sido publicado nas redes sociais quando chegou em casa.
Ainda segundo ele, os responsáveis pela creche, teriam registrado um boletim de ocorrência após a divulgação das imagens e, em seguida, ele foi demitido por justa causa.

A Pituchos, porém, diz que em 28 de agosto, antes da divulgação dos vídeos, já havia contratado outro profissional para ocupar a função de Martins, e que este ficou sabendo que seria demitido por ter visto, dias antes, pelo celular da empresa, um e-mail recebido em 22 de agosto com o currículo do profissional que o substituiria.
A empresa diz que o desligamento formal do ex-funcionário só ocorreu em 1º de setembro, após uma apuração interna sobre relatos de conduta inadequada do ex-funcionário em relação a Luana.
E salienta que Martins não compareceu ao trabalho nos dias 29 e 30 de agosto, quando, segundo a empresa, ainda não havia sido formalmente comunicado da demissão.
Após a repercussão do caso, o perfil da Pituchos da Lu no Instagram foi desativado.
A investigação está registrada na 10ª DP, e as denúncias apresentadas pelos tutores incluem vídeos, mensagens e outros indícios que serão ser analisados pelas autoridades.
A creche afirma que sua defesa reúne documentos e outros elementos para apresentar à investigação, entre eles um laudo de análise dos vídeos, registros policiais e depoimentos de funcionários e vizinhos.