Crimes em alto-mar: Após 227 mortes no Caribe e no Pacífico, EUA ampliam ação antidrogas com aval de aliados - QTU Questões do Universo

Crimes em alto-mar: Após 227 mortes no Caribe e no Pacífico, EUA ampliam ação antidrogas com aval de aliados

Fonte: Bandeira da fonte

Eduardo Hidalgo acabara de voltar a trabalhar como pescador em Güiria, na Venezuela, após ser deportado dos EUA.
Seu xará Eduardo Jaime era um jogador de futebol muito querido na mesma localidade.
O motorista venezuelano Juan Carlos Fuentes partira para Trinidad e Tobago após ficar desempregado.
Em mensagem à esposa, afirmou que “faria o errado para resolver a vida”.
O colombiano Alejandro Medina vivia da pesca do atum em La Guajira, na Colômbia, onde sua família agora recebe ameaças.
Peixeiro de Manta, no Equador, Pedro Holguín teve o corpo identificado após ajuda da embaixada equatoriana na Costa Rica, onde seus restos mortais foram parar.
Homens que tinham pouco em comum além de viver em cidades à beira-mar, no Caribe ou no Pacífico, todos foram mortos em ataques das Forças Armadas americanas a embarcações que, a Casa Branca afirma, sem apresentar provas, levavam drogas ilícitas para os EUA.
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Em outubro, o Alto Comissariado de Direitos Humanos da ONU denunciou a inexistência de justificativa no direito internacional para os ataques.
E exigiu que Washington tomasse “medidas para evitar a execução extrajudicial de pessoas, independentemente da conduta criminosa a elas imputada”.
Mesmo assim, a Operação Southern Spear (“Lança do sul”, em tradução livre) completa um ano esta semana celebrada pelos secretários de Defesa, Pete Hegseth, e de Estado, Marco Rubio.
E não só segue em curso como será ampliada, agora com iniciativas em terra.
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Ampliação em curso
Equador, Guatemala, Honduras, Jamaica e Colômbia concordaram com ações conjuntas em seus países — na sexta-feira, na primeira operação do tipo, o Exército americano anunciou ter interceptado e destruído uma suposta embarcação de tráfico de drogas no Pacífico oriental, com aval de Bogotá.
O país receberá ajuda militar dos EUA de US$ 1 bilhão (R$ 5,21 bilhões).
Ricky Jospeh, Chad Joseph, Luis Ramón, Robert Palmar, Juan Carlos Fuentes, Eduardo Jaime, Adrián Lubo, Rishi Samaroo
O GLOBO
Nenhum dos especialistas ouvidos pelo GLOBO crê, seja qual for o resultado das eleições brasileiras, na participação de Brasília nesta extensão.
— Aumentam os riscos de países que colaborarem com os EUA também serem investigados por crimes.
Não é mera coincidência Rubio ter afirmado, mês passado, que vai desmantelar, “tijolo por tijolo”, o Tribunal Penal Internacional (TPI), enquanto pressiona aliados a deixarem de reconhecer o órgão.
Testemunhamos uma escandalosa corrida pela impunidade — afirmou ao GLOBO John Walsh, diretor do Washington Office on Latin American (Wola).
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Referência na defesa dos direitos humanos na América Latina, o Wola, em parceria com o Centro Latino-Americano de Investigação Jornalística, coleta dados e identifica os mortos, incluindo os retratados nesta reportagem.
Alejandro Andrés, Andrés Fernando, Ronaldo Arregocés, Eduardo Hidalgo, "Navi"
O GLOBO
Custo de R$ 4,2 bilhões
O uso de força militarizada contra cidadãos pelo Trump 2.0, destaca Walsh, foi enfaticamente denunciado pela sociedade civil americana, especialmente após as mortes de americanos pela polícia migratória em Minneapolis.
No entanto, a indignação não é a mesma com a eliminação sumária em alto-mar de latinos moradores de cidades com índice de pobreza acima de 80%, apresentados por Washington como terroristas.
— Vergonhosamente, eles foram invisibilizados.
A pressão da opinião pública foi muito menor, mesmo com a ignorância sobre os critérios usados para eliminar embarcações e vidas — diz Walsh.
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Organização reconhecida por documentar a violência contra civis mundo afora, a Airwars registrou a morte de 227 pessoas na Lança do sul.
Dos mortos, 28 se afogaram ou pereceram após um segundo ataque, o que pode caracterizar crime de guerra.
Foram destruídas 69 embarcações.
E no que foi amplamente criticado como “pornografia de guerra”, 63 vídeos das ações foram disponibilizados e publicados nas redes sociais.
Em um ano, ninguém foi formalmente acusado de crime.
Números oficiais indicam aumento de 2% na entrada de cocaína em território americano, e não houve tentativa de abordagem dos suspeitos, praxe para as polícias costeiras.
Protegida por sigilo oficial, a campanha militar teve seu capítulo mais recente com duas mortes no Pacífico e outras quatro no Caribe na semana passada.
Entre novembro de 2025 e junho deste ano, já custou US$ 821 milhões (R$ 4,2 bilhões) ao contribuinte americano.
O projeto Cost of War, da Universidade de Brown, calcula mais US$ 4,7 bilhões (R$ 24,4 bilhões) em despesa com pessoal na região, excluída a captura de Nicolás Maduro, em janeiro.
Paralelo com o Vietnã
Em curso que inicia amanhã na Universidade de Yale, o advogado Eugene Fidell, expoente do direito militar no país que serviu na defesa costeira, destacará o uso da Lança do sul pela Casa Branca para dimensionar a reação internacional à eliminação de alvos à distância, como se viu depois com o aiatolá Ali Kamenei e próceres do regime islâmico.
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— A operação testou as reações legais internas, da comunidade internacional e nas próprias Forças Armadas.
Embora seja tentador traçar um paralelo com as prisões em Guantánamo após os ataques de 11/9, há aproximação ainda maior com o massacre de My Lai, no Vietnã [quando 504 civis foram executados em março de 1968], e foi o maior massacre de civis por militares americanos.
Desgraçadamente, agora, há novamente centenas de vítimas e em área mais extensa.
Um eventual processo de responsabilização, aponta o ex-diretor para o Hemisfério Ocidental no Conselho de Segurança Nacional Ricardo Zuñiga, passa pelas eleições de novembro nos EUA.
Se a oposição, como indicam as pesquisas, retomar o controle da Câmara, a expectativa é de se priorizar uma CPI sobre a operação, percebida no Partido Democrata como o exemplo mais crasso de crime cometido pelo Trump 2.0.
Do outro lado, cresce a ideia sobre perdão preventivo do presidente a nomes-chave da Lança do sul.
Rubio afirmou que “os EUA interceptaram barcos de drogas por anos, sem êxito.
O que resolve é explodi-los e se livrar deles”.
Para John Feeley, ex-embaixador dos EUA no Panamá, ele admitiu um crime:
— Seria como defender o envio de tropas a uma cidade dos EUA com permissão para abrir fogo contra suspeitos.
Essa operação é tão grave e inédita que militares da reserva também precisam se posicionar publicamente.
E, os envolvidos, ser responsabilizados.