Emojis, usados nas redes sociais para reforçar ou transmitir mensagens, deixaram de ser apenas elementos inofensivos e divertidos.
Símbolos que parecem banais passaram a integrar códigos usados para tratar de crimes que vão da exploração sexual infantil à discriminação, além de fazer alusão a facções do tráfico e ajudar a construir a identidade de organizações criminosas.
No Rio, onde grupos armados exercem domínio sobre territórios, essa simbologia pode ultrapassar as telas e ter consequências na vida real.
Traficantes passaram a observar, nos celulares de moradores e entregadores, o uso dessas figurinhas como possível sinal de conexão ou simpatia por quadrilhas rivais.
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A linguagem dos emojis para crimes
Editoria de Arte
Promotor do Ministério Público do Estado do Rio, Fábio Corrêa ressalta que as investigações nunca utilizam símbolos e emojis como elementos isolados para incriminar um suspeito, mas que eles ajudam a contextualizar diálogos e a posição dos alvos dentro de uma organização criminosa.
Segundo ele, a cautela adotada pela polícia e pelo MPRJ ao analisar essa forma de comunicação não é observada pelos criminosos ao vasculharem a vida de um morador.
— Quando nos deparamos com essas utilizações por parte de um suspeito, temos cuidado para não analisar isso de forma isolada.
No entanto, não é o que acontece quando o criminoso faz o julgamento daquela situação em um contexto do tribunal do crime.
Isso faz parte desse cenário de violência estrutural que eles impõem, de estimular o medo e a intimidação.
O uso desses símbolos como possíveis indicativos de ligação com grupos rivais ganhou repercussão depois que o advogado criminalista Lucas Leão publicou um vídeo alertando para o conteúdo armazenado nos celulares.
Entre os itens que, segundo ele, podem ser observados por criminosos estão bandeiras, figurinhas, músicas, pesquisas no YouTube e até a maneira como os contatos são salvos na agenda.
A publicação levou outras pessoas a relatarem abordagens semelhantes.
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Um morador contou que foi parado na Favela da Malvina, em Anchieta, e teve o celular revistado.
Segundo ele, os criminosos checaram o histórico de pesquisas no YouTube para descobrir se ouvia músicas associadas a uma facção rival.
Também procuraram figurinhas no WhatsApp, grupos de conversa e stories, em busca de fotos nas quais ele aparecesse fazendo algum sinal.
“Por fim, não tinha nada; só fui humilhado e dispensado”, escreveu.
Chefes e venda de drogas
O delegado Moyses Santana, da Delegacia de Repressão a Entorpecentes (DRE), afirmou que emojis aparecem com frequência em investigações como referências a chefes do tráfico.
Um exemplo é o uso da figurinha de um urso, em alusão a Edgar Alves de Andrade, um dos principais cabeças do Comando Vermelho, conhecido como Doca ou Urso.
O desenho é encontrado em conversas entre criminosos e também usado para ocultar o rosto de integrantes da facção que publicam fotos nas redes sociais portando armas ou comercializando drogas.
Os emojis associados ao Comando Vermelho incluem a bandeira vermelha e a mão com dois dedos levantados — que antes era apenas o símbolo de paz e amor.
Esse mesmo sinal, referente ao número dois, também faz alusão à expressão “Tudo 2”, historicamente utilizada por integrantes da facção.
Já entre os símbolos associados ao Terceiro Comando Puro (TCP) estão a mão com três dedos levantados — em referência a “Tudo 3” — e a bandeira de Israel, adotada como marca por Álvaro Malaquias Santa Rosa, o Peixão, chefe do chamado Complexo de Israel, conjunto de cinco comunidades na Zona Norte sob influência da facção no Rio.
Emojis também podem ser empregados como códigos para a comercialização de drogas em redes sociais.
Na linguagem utilizada nesse contexto, uma planta pode fazer referência à maconha, e o emoji de cristal, à metanfetamina, conhecida como “tina”.
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— Temos investigações que apontam o uso de emojis para designar lideranças de facções em conversas por aplicativos de mensagens, tanto do Comando Vermelho quanto do Terceiro Comando Puro — afirmou Moyses.
Para o promotor Fábio Corrêa, a utilização de emojis pelo crime também pode ter como objetivo tornar essa associação mais palatável e aproximá-la do público jovem, a partir da criação de uma identidade.
— Faz parte do projeto de cooptação dos jovens para o crime, porque gera essa identidade e participação de uma forma lúdica, que disfarça uma coisa que é cruel, assim como os bailes com referências ao tráfico no Roblox (plataforma de jogos on-line).
Além disso, fomenta uma ideia muito forte de “nós contra eles” ou “nós contra o Estado”, que é muito prejudicial — explica ele.
Eduardo Dyna, pesquisador do Observatório de Segurança Pública da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e do Grupo de Estudos sobre Violência e Administração de Conflitos da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), explica que a própria lógica das redes sociais estimula sentimentos de coletividade, identidade e pertencimento.
— A gente vê isso no futebol, no carnaval, na política e até em reality shows, em situações nas quais se cria uma espécie de “jogo” entre o “eu” e o “outro”, formando identidades que se afirmam como parte de um coletivo contra quem pensa ou age de forma diferente.
Ao mesmo tempo, os criminosos usam esses símbolos para se enaltecer, alimentar uma espécie de vaidade e construir uma imagem de heroísmo nessas disputas violentas, sempre com o objetivo de derrotar o “outro”, isto é, os membros de facções rivais.
Dyna também concorda que essa dinâmica pode ter impacto sobre o público mais jovem:
— Muitos podem reproduzir esses códigos sem entender suas causas reais, havendo até uma admiração por essas dinâmicas.
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Mas não é só no mundo do tráfico que os emojis e símbolos podem ter outros significados.
A Childhood Brasil, organização voltada à proteção de crianças e adolescentes, alerta para o uso de determinados símbolos com significados diferentes dos originais em contextos relacionados à exploração sexual infantil.
Entre os exemplos estão o emoji de milho, associado à palavra “porn” pela semelhança sonora com “corn”, e o de macarrão instantâneo, “noodles”, usado como referência a “nudes”.
Também se apropriaram do desenho de pizza, que é identificado como cheese pizza, ou CP, fazendo paralelo com “Child Porn”.
MPRS cria Glossário
Para ajudar nessa decodificação, o Ministério Público do Rio Grande do Sul (MPRS) criou um site chamado Decodificando os Sin@!s, no qual é possível verificar o que está por trás de cada emoji.
A delegada Maria Luiza Machado, da Delegacia da Criança e do Adolescente Vítima (DCAV), explica que os símbolos são usados principalmente como forma de identificação entre os próprios criminosos:
— Existem mecanismos nas redes sociais que filtram e derrubam conteúdos identificados a partir de palavras relacionadas a abuso sexual infantil e infantojuvenil.
Então, eles buscam subterfúgios.
Maria Luiza explica que é fundamental que os pais acompanhem as redes sociais utilizadas pelos filhos e estejam atentos aos códigos, gírias e siglas presentes na comunicação deles.
— Nós costumamos usar emojis para complementar uma frase ou expressar um sentimento, mas eles podem ser utilizados de forma totalmente dissociada do contexto.
É importante prestar atenção a isso.
Além de fiscalizar, é importante perguntar aos filhos o significado dos símbolos e das siglas que eles utilizam e observar o contexto das conversas.
Criminosos passam a usar emojis para criar identidade e atrair jovens no Rio; entenda
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