Cris Vianna:

Cris Vianna: 'Nunca deixei de acreditar que eu merecia'

Fonte: Bandeira da fonte

s Vianna vive a presidente da Assembleia Legislativa do Rio em Arcanjo Renegado, a série de sucesso do Globoplay que volta ao streaming para sua quinta temporada em setembro – e sabe exatamente o que faria se tivesse o poder de, com uma canetada, mudar a sociedade para melhor.
“Racista na cadeia, e as leis de feminicídio também seriam muito maiores e muito mais severas”, diz a atriz, de 49 anos.
As duas lutas são caras a Cris, que cresceu cercada por mulheres fortes – a mãe, Darcy (“Não põe a idade dela que ela não gosta”), avós e tias.
“A honestidade da Maíra tem muito a ver com a minha, ela tem a lealdade, e eu, sim, sou uma mulher muito leal.
Ela tem uma vontade de somar para o povo dela muito direta e objetiva, sem receio nenhum, e eu também”, avalia.
“Maíra é uma mulher segura, que tem vontade de viver a sua vida íntima, como mulher, no seu lugar feminino, paralelamente ao seu trabalho, e com a qual eu também me identifico”, conta.
Trabalho é algo que chegou cedo na vida de Cris, que perdeu o pai aos 11 anos, e foi babá na adolescência, quando também começou a participar de concursos de beleza.
Alta e muito bonita, engrenou a carreira de modelo – logo vieram testes para comerciais com fala, que esbarravam na timidez da jovem.
Para vencer a inibição, seguiu o conselho de amigas e entrou em um curso de interpretação.
Ali se encontrou.
“Decidi me formar, tirar meu DRT”, lembra.
Logo veio a Oficina de Atores na Globo e os papéis na televisão, como na novela América (2005), a primeira de uma longa lista de produções como Sinhá Moça, Salve Jorge, Império e a Regra do Jogo, entre tantas outras.
No cinema, estreou com Última Parada 174, em 2008, mas, dez anos antes, já tinha entrado no audiovisual como a “mocinha” de Inaraí, o hit do Katinguelê.
As memórias daquele tempo são vistas com um olhar terno – sobretudo com a jovenzinha que tentava se encaixar nos padrões da indústria da moda, dentro do possível.
“Eu era uma caveirinha, feia que era um trem, e naquela época eu fazia dieta porque estava ‘fora do peso’”, conta Cris.
“Hoje eu não vou chegar no 36, eu não vou tentar.
Não faz mais sentido caber nesse padrão, porque não é mais o lugar que eu vivo”, frisa.
Cris Vianna
Mylena Saza
Discreta quanto à vida pessoal (“Não estou casada”, se limita a dizer), Cris credita ao apoio da família e à sua fé – é candomblecista -, além dos amigos que são sua rede de apoio, muitos deles vindos dos sets, como Taís Araujo, Juliana Alves, Vanessa Giácomo, Nathalia Dill, Djamilla Ribeiro, entre tantas outras.
A trajetória de mais de duas décadas de carreira vai ganhar outro filme: Veraneio, com Zezé Polessa e Alessandra Negrini, em uma caminhada de dedicação.
“Eu nunca deixei de acreditar que eu merecia.
Nunca”, diz Cris.
“Por que que eu merecia? Porque eu sempre batalhei, estudei para isso.
Estudar é a palavra que mais fica para mim.
Como ser atriz era muito distante da minha vida, ainda me surpreendo às vezes de falar: "Gente, eu conheci fulano, gente, eu fiz uma novela tal".
E isso me emociona até hoje.
Fico grata comigo, tento entender o meu presente e olhar com gratidão para o meu passado”, afirma.
Cris Vianna
Mylena Saza
Arcanjo Renegado é uma das produções originais brasileiras de maior sucesso no streaming e a mais vista do Globoplay.
Como chegou até ela?
Quando mudei de São Paulo para o Rio, fui conhecer o AfroReggae e o Nós do Morro, porque tinha amigos inseridos neles.
Cheguei a ter uma reunião sobre um programa com eles, há muitos anos, mas fui fazer uma novela e os caminhos foram outros.
Passou o tempo, e o José Junior [fundador do AfroReggae e criador de Arcanjo Renegado] sempre me falava: "Temos projetos muito bacanas, futuramente, com certeza a gente vai se conectar’.
E aconteceu.

Você se identifica com a Maíra?
A honestidade da Maíra tem muito a ver com a minha; ela tem a lealdade, e eu, sim, sou uma mulher muito leal.
Ela tem uma vontade de somar para o povo dela muito direta e objetiva, sem receio nenhum, e eu também.
Maíra é uma mulher segura, que tem vontade de viver a sua vida íntima, como mulher, no seu lugar feminino, paralelamente ao seu trabalho, e com a qual eu também me identifico.
Quando você fala de fazer o melhor para o seu povo, que lugar é esse?
A gente não tem condição de fazer isso sozinha, mas, se eu, Cris, tivesse, obviamente eu ia me unir, aos dirigentes, às pessoas que, de fato, poderiam somar.
A Maíra tem um pouco mais [de condição para isso] do que eu, porque tem poder.
Um 'não' ou um 'sim' dela mudam as coisas para um povo, uma periferia.
Ela pode ir lá no gabinete e falar diretamente com a governadora do estado.
E eu não tenho esse poder, mas ela tem, mesmo que não seja acatado.
E isso vale muito.
'Existir já é um grande exercício: o existir com qualidade.
O que eu chamo de qualidade? Quando você é uma cidadã que se informa, não vai para caminhos equivocados"
Como você exerce seu lado cidadã, esse tentar ajudar o mundo?
Existir já é um grande exercício: o existir com qualidade.
O que eu chamo de qualidade? Quando você é uma cidadã que se informa, não vai para caminhos equivocados.
Quando você, dentro das suas limitações, pode ajudar -- ou não atrapalhar, o que já é muito quando a gente não polui os assuntos, não usa as redes para coisas que não fazem sentido.
Quando você não pode somar, está tudo bem.
Mas tem quem, infelizmente, leve o assunto para outro lugar, e não precisamos disso.
Vamos aprendendo diariamente também como você pode e aonde você deve.
Choca saber que somente na ficção, com a Maíra, uma pessoa negra chegou à presidência da Alerj...
Eu sabia disso e sou muito grata por poder representar esse lugar.
Não deixa de ser uma honra poder contar essa história, mesmo que na ficção, na minha pele.
Não ultrapassamos muitas coisas, avançamos algumas, ultrapassar ainda tem muito caminho.
Como é a repercussão de fazer essa mulher tão poderosa?
Sempre que você é reconhecida por meio do seu trabalho, é bacana.
Recentemente fiquei 30 dias em Salvador, que é uma terra de pessoas pretas, onde estão os pensadores e tem muita gente muito inteligente que se posiciona diretamente.
Dentro da nossa cultura, é um lugar extremamente importante que está sempre presente quando tem que se opinar.
Lá é um termômetro muito gostoso do projeto do Arcanjo.
Sabem as histórias, as mulheres adoram trocar comigo sobre esse avanço feminino que a história traz.
São Paulo também, quando estou lá eu vejo esse reconhecimento.
Rio de Janeiro, óbvio, porque a história se passa aqui.
É gostoso entender como a série está chegando às pessoas.

Cris Vianna
Mylena Saza
Para construir a Maíra, em quem você se inspirou? Encontrou com mulheres negras e em posições de liderança?
Não foi uma única fonte para mim.
Eu fui lendo [o texto] e relendo, porque ela não existiu na pele de ninguém.
Você tem que materializar algo que nunca existiu.
Aí pega um pouquinho de cada mulher, ou a sua interna que você nem conhecia; além de basear em várias outras admirações que eu tenho, como Michelle Obama, aqui a nossa Marielle Franco, uma série de mulheres que de fato foram líderes e impactantes.
Tem um pouco de cada uma, então?
Sim, mas às vezes são umas cenas mais simples e não cabe nenhum tipo de força nesse lugar.
Mas, num contexto geral, ela é uma mulher relevante na trama e, dali, eu fui um pouquinho nas minhas admirações por Viola Davis, uma atriz que eu adoro, trocando com o diretor.
Eu acredito que Maíra ainda não está completamente pronta, a cada temporada tem uma coisa nova para acrescentar.
Por muito tempo, no audiovisual, de uma maneira geral, era difícil você ver mulheres em posições realmente de poder nas tramas, exceto pelas vilãs ricas, sobretudo uma mulher negra.
O quão importante é essa representatividade para você?
Isso não fica muito na minha cabeça, não.
Essa palavra "poder", ela, para mim, é da Maíra, ela não vai para Cris.
Na minha vida, eu não carrego isso comigo.
A Maíra tem este poder por uma questão política, ela teve uma criação de uma mãe incrível.
Isso, para mim é um poder, e é muito gostoso representar alguém que tenha o poder de mudança para um futuro melhor.
A gente não sustenta essa verdade se ela ficar no lúdico cético.
Eu penso mesmo dentro da caneta que ela pode assinar, do que pode realmente mudar, da fala dela e que aquilo movimenta.
Isso, para mim, é muito impactante dentro da história.
Se você pudesse, como ela dar uma canetada e mudar na sociedade, o que seria?
Racista na cadeia imediatamente.
Não temos ninguém preso ainda.
É lei, mas não funciona exatamente como tem que ser.
Racista na cadeia, e as leis de feminicídio também seriam muito maiores e muito mais severas.
"A gente nunca é isento de falar de racismo.
Eu, na minha carreira inteira, tive que falar de racismo"
A sociedade parece que 'acordou' para algumas pautas, embora ainda avancemos lentamente, mas você já falava sobre estes temas em entrevistas antigas.
Como foi seu processo de letramento?
Nunca existiu na minha vida a possibilidade de ser artista sem que a mídia me abordasse falando de racismo.
Nem a mim, nem a muitas pessoas que eu conheço.
A gente nunca é isento de falar de racismo.
Eu, na minha carreira inteira, tive que falar de racismo.
Dificilmente eu consegui uma pauta sem que o assunto entrasse.
Ele ainda acontece, como a gente está fazendo isso.
A relação com a questão do racismo, obviamente, é de cada indivíduo; alguns porque passam, outros porque vivem o tempo inteiro e alguns porque transfazem, se comportam como racistas.
Mas, no geral, você entende muitas diferenças dentro da sua própria criação.
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Mylena Saza
De que forma?
Onde você morou, como você foi criado, qual era a condução dos teus pais, a limitação, as oportunidades.
Isso é muito claro dentro das nossas criações.
É só você olhar diariamente para isso.
Quem é o sustento da tua família? O meu sempre foram as mulheres.
Todo mundo andou de ônibus o tempo inteiro desde menina.
Eu sempre estudei em escola pública, sempre ajudei no sustento da minha família.
Existem uma série de caminhos, e esse [dela] é um caminho honesto e comum.
Mas, dentro deste sistema, há várias lacunas.

Por exemplo?
A minha mãe e as minhas avós não tinham muito tempo de ficar falando sobre as coisas, mas, sim, sinalizavam que a gente devia se cuidar para poder sair na rua.
Aí você pode dizer ‘Cris, mas é para somar'.
Nem sempre, porque o nosso povo, a gente preta, gosta de ver os nossos crescendo, gosta de saber o quanto a minha colega está protagonizando, está brilhando.
Isso é evolutivo.
Não é só sobre a dor que nós vivemos.
Minha mãe sempre gostou de ler, as minhas avós sempre foram muito atentas.
Então isso naturalmente foi me tornando uma mulher mais atenta às questões.
Minhas experiências vieram muito mais da minha criação, mais da minha vivência do que de letramento acadêmico.
Hoje em dia, obviamente, eu vou continuar buscando me informar, entender, saber como me posicionar, para somar nessa luta que infelizmente ainda é uma luta eterna.
Tivemos alguns avanços, porque eu acho que estamos formando seres humanos mais bacanas.
Ninguém nasce racista, gente.
Mas ainda temos muito que avançar.
Empatia é um lugar que quando você dá direito ela fica.
Ser bem tratado é um registro muito importante.
Não é só ficar questionando as pessoas pretas o tempo todo.

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Mylena Saza
Como era o contato com a arte na sua infância? Você sonhava em ser atriz ou a televisão era um mundo de famosos e muito distante?
A TV era um mundo de famosos muito distante, eu olhava tudo aquilo e achava extremamente encantador.
Ficava muito impactada, adorava, ficava dançando na frente da TV.
Mas eu não tenho ninguém na minha família ligado à arte.
Até brinco com minha mãe 'não tem uma tia que eu não conheci envolvida com arte?'.
Mas não tem.
Dentro do meu processo, que é uma história muito legal, mas longa, participei de concursos de beleza e, a partir dali, fui convidada a fazer comercial de TV.
Quando eu ia fazer o teste, eles queriam que eu falasse.
Eu me sentia muito tímida, não estava pronta, mas fazia o teste, passava.
E aí você ia ou recusava o comercial?
Comecei a não querer ir, e minha mãe perguntava: 'Mas por quê?’ E eu: 'Eu não sei como que eu faço'.
Aí comecei a me informar com umas amigas, e elas me indicaram 'Vai fazer curso, vai estudar, tem uns cursos'.
Pensei 'É isso que eu quero fazer'.
Fui me informar, entender quais cursos me cabiam, o que eu queria.
Fiz um primeiro workshop, encontros, leituras, e eu fui gostando muito, porque vinham histórias [roteiros] e eu conseguia materializar aquelas histórias assim com uma facilidade absurda.
Aquilo me encantava e foi tirando a timidez de falar.
E aí eu fui estudar mesmo, me formar, tirar meu DRT.

"Se eu desisto de alguma coisa, não é por medo, é porque eu entendo que aquilo não é bom para mim"
Como era sua rotina nesta época?
Eu adorava trabalhar como modelo e depois ir para a escola, para o curso.
Foram quatro anos direto assim.
Chegava no curso maquiada, que tinha desfile, e aí voltava.
Tinha uns 20 e poucos anos, já era mulher, era tudo tão gostoso, tão lindo.
Esse processo foi me tirando um pouco a timidez, e uma coisa chama outra, e fui convidada para fazer um filme.
Meu primeiro trabalho como atriz foi no cinema, em São Paulo.
Continuei fazendo cursos e fiz teste para a escola [oficina] de atores da Globo; foram três ou quatro testes, foi muita coisa para conseguir pegar uma vaga.
Você tinha medo de não conseguir?
Não era medo, mas era tudo desconhecido para mim.
Eu não conheço isso, não sei como faço, então eu vou estudar.
E, estudando, me permitindo, participando das aulas, eu achei que, sim, poderia continuar tranquilamente.
Depois que entendi isso, eu falei: 'Sim, quero continuar, vou me formar'.
Depois que me formei, era sempre um bom desafio e eu me encantava pela arte cada vez mais, porque até hoje você encontra histórias lindas e interessantes, instigantes.
E assim eu fui caminhando e continuando até hoje.
A certeza de que estava no caminho certo veio quando?
A partir do momento em que eu me formei.
Estou formada.
Formada em quê? Atriz.
Ali eu já sabia que eu era uma atriz.
Eu só precisava de mais experiências e até morrer vou continuar precisando de novas experiências.

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Mylena Saza
Qual papel foi uma virada de chave 'agora, sim?'
Eu acho que o 174 foi uma virada de chave bastante importante, porque as pessoas não me reconheciam e eu achava aquilo sensacional.
A personagem descolava muito de mim, adorava as pessoas entenderem que podia fazer tanto um papel assim quanto um mais leve, mais próximo de mim, o que às vezes acontece.
Você foi criada por sua mãe e suas avós.
Como foi essa infância cercada de mulheres, crescer nesse matriarcado?
Foi muito, muito bonito; eu só me apego às melhores lembranças de verdade.
Obviamente, tenho dentro da minha memória momentos em que elas, por vezes, não sabiam bem o que fazer, mas isso durava alguns segundos, porque a gente tinha que seguir e assim nós íamos.
Eram várias mulheres e elas eram muito diferentes [entre si].
Tive muitas tias também; infelizmente, perdi a maioria delas ao longo da vida.
Hoje carrego ensinamentos muito diferentes, mas lá na frente todos falavam a mesma coisa.
Que tipo de ensinamentos?
Educação, como se portar nos lugares, como não aguentar desaforo, que ninguém vai tirar sua paz a não ser que você deixe.
Elas eram muito firmes, tanto [as mulheres] da parte materna quanto da parte paterna, embora de diferentes formas.
E foi muito bom porque, quando cheguei ao Rio de Janeiro, eu não conhecia ninguém, então isso me ajudou muito a continuar caminhando e a me formar mulher.
Minha mãe, Darcy, está viva, então a minha troca continua, e hoje eu tenho uma família de amigos aqui no Rio.

Sua mãe apoiou quando você decidiu ser atriz ou sugeriu que fizesse outra coisa paralelamente?
A minha cria não é uma cria medrosa, não.
Minha turma não é muito desse lugar aí.
A gente tem respeito e observa, que o medo faz você recuar, né? Não é o nosso caminho.
Se eu desisto de alguma coisa, não é por medo, é porque eu entendo que aquilo não é bom para mim.
Mas a minha mãe, no geral, ela é zero tiete, às vezes eu falo 'você gostou?', e ela 'achei legal, gostei'.
O jeito dela é muito simples de elogiar as coisas, não é deslumbre nunca.

Ela é pé no chão.
Para ela, é mais 'como é que está sendo, está conseguindo manter suas coisas, sustentar seus caminhos? Se você não conseguir isso, você pode mudar, pode fazer outra coisa da sua vida, não tem problema nenhum recomeçar.' Eu sempre fui criada com o 'não tem problema você seguir esse caminho, se não der certo, você tem a oportunidade de escolher outra coisa'.
Ela falava para você se jogar, ir com tudo?
Não, porque me jogar mesmo ela nem sabia o que era, dizia ‘presta atenção se é bom para você, fique atenta'.
A gente não tinha a oportunidade de ficar fazendo várias coisas ao mesmo tempo; você tinha que entender um caminho e seguir.
Se funcionava ok, se não, tudo bem, você volta e faz outra coisa.
Era sempre com muita cautela e muita leveza, nunca foi na pressão.
Eu não fui criada na pressão.
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Quando você fala que não tinha muita opção para fazer outra coisa...
Eu trabalhava durante o dia para ser modelo e depois, à noite, eu estudava.
Já carreguei marmita, já andei de ônibus, então você não tem um tempo hábil para fazer tudo o que você quiser na sua vida, para hoje escolher uma coisa e amanhã desistir e escolher outra.
Você pode, mas aí você tem que fazer outras mudanças.
Seu pai morreu quando você tinha 11 anos.
Como lidou com essa falta e como ficou o vazio da figura paterna?
Eu não falo do meu pai, porque, da última vez que falei sobre meu pai para um veículo da imprensa, isso foi colocado de uma forma muito triste.
A minha mãe ficou meio em prantos com a falta de consideração, o que, somado a outras reportagens, me limitou a falar sobre uma série de coisas.
Porque eu acho que ser antirracista para mim também está nesse lugar.
Como você entrevista uma pessoa preta e o que você fala dela? Para mim, isso é um lugar muito importante.
E eu vejo muito esse lugar.
Isso me limitou muito.
Eu tenho muitas histórias lindas, inclusive com o meu pai.
E eu não falo porque eu digo 'nunca põe do jeito que a gente merecia, sabe?'
E, quando a gente fala em lacuna, parece uma ferida.
Essa ausência não tem como ser preenchida na minha vida.
Dentro da minha religião, eu trago um pouco mais de calma nessa caminhada sem ele aqui do meu lado, porque ele está bem, né? Eu busco saber se ele está bem e confio que sim.
Então eu sigo daqui e sei que ele segue de algum lugar e vou seguindo, mas não tem como preencher.

"Quando a gente fala em lacuna, parece uma ferida.
Essa ausência do meu pai não tem como ser preenchida na minha vida"
E teve essa figura masculina na sua vida?
Eu tive um padrasto, que isso eu gosto muito de falar, porque eu sei que infelizmente não são todas as pessoas que viveram isso, que foi muito incrível.
Ele é o pai da minha irmã, é o avô dos meus pacotinhos.
Ele também faleceu já, mas ele foi um padrasto incrível, amigo da minha mãe.
Foi um pequeno período, mas foi muito legal.
Eu estava me tornando uma jovem mulher, que é aquele período, que a gente fica receosa, eu graças a Deus, não vivi isso.
Só que eu não considerei ele como pai, porque não teve essa [ligação], mas ele era um parceiro da minha mãe muito legal.
E também não coloquei ele de preenchendo lacuna nenhuma, nem eu nem meu irmão, mas a gente teve essa passagem de uma figura ali que foi um lugar diferente, sabe? Para a gente foi uma amizade.
Seu padrasto foi, então, um exemplo de como deveria ser uma figura masculina?
Acho que sim, acho que porque a gente passou por um período em que os nossos salários tinham que se unir para que a gente saísse de um lugar que não estava bom para viver em um outro melhor, e a gente tinha que realmente estar juntos.
Então a gente decidiu em conjunto dar um novo passo.
Foram decisões muito ímpares, muito fortes, que poderiam, se fosse uma outra pessoa, ter sido uma virada estranha; não foi, foi muito positiva, muito bonita.
Então você considerou seu padrasto como pai? Não, não foi.
Ninguém vai substituir o meu pai.
Não é porque eu não queira.
Não tem lugar, não tem espaço.
Mas eu aprendi a viver com essa saudade boa do lado realmente esquerdo do meu peito.

Você começou a trabalhar muito nova, como babá.
O que levou dessa experiência para a Cris adulta?Eu levo - das experiências em geral - perseverança, o quanto as coisas caminharam, aquilo que foi bom dentro de cada uma delas, daquelas escolhas daquele momento.
As coisas que não foram boas não vão voltar mais, porque a gente não vai dar mais espaço para isso.
"Eu levo - das experiências em geral - perseverança, o quanto as coisas caminharam, aquilo que foi bom dentro de cada uma delas, daquelas escolhas daquele momento"
Criada em uma família de mulheres, acredita que a gente avançou nas questões feministas, por exemplo, no mercado de trabalho?
Acho que sim, que avançou bastante.
A gente vê, por exemplo, no esporte, que é um lugar que mostra tantas histórias, tantos 'nãos' que essas mulheres receberam, no futebol, no atletismo...
O quão bonito foram essas histórias das que furaram essa bolha.
Temos várias CEOs, diretoras.
Temos avanços bem bonitos, que podem ser muito mais, porque a maioria dos votos deste país são de mulheres.
E tem uma coisa que é muito importante: assim como a questão do racismo para nós, pessoas pretas, não tem passo para trás [na luta das mulheres].
Quando as mulheres decidem 'sim, vamos seguir e vamos melhorar e vamos juntas e vamos embora', quem decide isso não volta para trás.
Isso é um dos maiores avanços: não vamos permitir que nos reduzam.
Imagina, mulher era impedida de votar, não podia usar roupa do jeito que queria.
Vai ter mais luta, sem dúvida, mas não tem volta.
Você sentiu essa sororidade ao longo da sua carreira? De amigas, de outras atrizes que vieram e falaram ' pega na minha mão que eu te ajudo'?
Senti muita.
Tanto de amigas pretas quanto de amigas brancas, me senti apoiada, me senti fortalecida.
A cada trabalho que eu tenho, eu ganho mais amigas e amigas mais engajadas, graças a Deus.
A gente pode trocar muito mais; até se tiver um desconforto, também conseguimos parar para conversar e entender o que aconteceu aqui.
Cris Vianna
Mylena Saza
Falando em desconforto, há um tempo você foi No Sem Censura e falou da época de modelo e das pressões estéticas.
Você ainda sente esse tipo de cobrança?
Eu vou te confessar uma coisa: eu não dou muito espaço para ninguém ficar me pressionando para nada.
Eu não sou essa mulher.
Também não sou mulher de criticar as pessoas sobre isso, acho isso praticamente cafona, você ficar achando coisas no corpo da colega.
Você não tem que achar nada.
Tem que respeitar e pronto.
Eu adoro esse respeito e eu só peço esse respeito.
Eu, Cris, sigo a minha vida.
Não vou buscar saber o que estão falando.
Eu vou buscar viver, me olhar no espelho, gostar, me cuidar e seguir a minha vida.

Mas como era na época?
Eu tinha que caber, não digo nem no padrão estético, porque, sinceramente, eu era uma modelo preta, e o padrão de beleza sempre foi a mulher branca, todo mundo sabe disso.
Mas eu tinha que caber na roupa.
Ninguém me obrigava, mas o padrão era vestir 36, 38, se não, você está fora, não trabalha.
Era uma escolha: eu consigo chegar a este corpo, isso é bom para mim? Faz sentido? Se sim, como? Porque se falava muito da anorexia, muitas meninas passaram por isso, o que foi muito doloroso para as famílias.
Eu não dou muito espaço para ninguém ficar me pressionando para nada.
Eu não sou essa mulher.
Você se preocupava com isso?
Eu tinha muito cuidado, mas eu queria caber no 36 porque eu queria fazer aquele desfile, sonhava em pegar aquele trabalho e, para mim, era muito positivo se eu conseguisse, tanto financeiramente como em projeção da minha carreira de modelo.
Se você não estava no padrão, não pegava o desfile e, se não pegava o desfile, desencadeava um monte de coisa [como problemas alimentares].
Era tipo quem passou de ano, você queria estar na hora do recreio e todos os seus amigos passaram de ano e você não? Eu não queria.
Para mim, não deixava de ser um desafio, e eu conseguia chegar [no tamanho].
Hoje eu não vou chegar no 36, primeiro que eu não vou tentar.
Segundo que eu não quero, estava horrorosa, o dente saía, não gosto.
E terceiro, porque não faz mais sentido caber nesse padrão, porque não é mais o lugar que eu vivo.
Chegou a fazer alguma ‘loucura’ para atingir esse número?
Ah, eu fiz algumas dietas que eu entendo serem severas, que hoje em dia não faria.
E eu nem conto qual é para não dar ideia.
E isso era receitado em revista!
Aos 49 anos, como lida com a passagem do tempo? Você se sente mais confortável com quem você é hoje?
Eu me sinto.
Eu acho que a minha idade incomoda mais os outros do que a mim.
Porque eu, em particular, não sou uma mulher de olhar para as pessoas e ficar pensando: 'Quantos anos ele ou ela tem? ' Eu não tenho isso.
Não é meu, não é da minha família.
Mas hoje não gostaria de ter 20 e poucos anos.
Eu sou muito feliz com a cabeça e meu coração como ele é hoje.
"Quando o homem está mais velho, ele é charmoso, ele está mais gato, ele é mais interessante.
A mulher é velha"
E como ele é?
Esses padrões eram muito angustiantes.
Fui uma menina dentro de uma criação bem lúcida, mas isso não me impede de ter tido problemas.
A lucidez também machuca, porque você [entende] que é isso que tem.
Então, hoje em dia, essa lucidez existe, mas ela está sempre associada a uma leveza.
Eu adoro me olhar no espelho; eu gosto do que eu vejo.
Se eu puder me cuidar, eu tenho todo o direito.
Eu só acho que no Brasil ainda massacram muito a mulher.
Você já sentiu esse movimento da sociedade que coloca as mulheres, a partir de uma certa idade, em uma caixinha e, muitas vezes, também afeta a carreira?
O meu trabalho não, mas eu sinto isso no geral, no meu entorno.
Obviamente me incomoda, porque eu não gosto de ver uma amiga minha chateada, porque a matéria com ela veio dessa forma, e aí o diretor já fica com problema, porque ele não tinha pensado sobre idade, mas na matéria só sai isso.
Isso também impacta muito o lugar feminino.
Quando o homem está mais velho, ele é charmoso, ele está mais gato, ele é mais interessante.
A mulher é velha.
E aí isso impacta, obviamente.
Para mim, no geral, não.
Talvez isso tenha a ver com as mulheres da minha família.
Imagina, vai perguntar para minha mãe a idade dela (risos), minhas tias também não falavam, porque para elas não era sobre isso a vida.
Com a idade, você não deixa de ser importante, de deixar de ser criativa, de ser incrível, da sua cabeça funcionar dentro da sua rede ou da sua área de trabalho.
E as pessoas querem te diminuir por isso.

Cris Vianna
Mylena Saza
Como você se prepara para o futuro? Onde você se vê daqui a 10 anos?
Minha flor, sinceramente, eu não fico pensando assim longe não (risos).
Minha mãe detesta que eu fale isso, mas não preciso ficar supervelha; não tenho medo de morrer.
Mas eu quero ter um futuro sem precisar de ninguém, sem depender de alguém.
Sem dar trabalho, digamos assim, porque depender eu vou depender sempre, porque sou uma mulher afetuosa e eu vou querer sempre os meus amigos e a minha família, alguém do meu lado.
E temos, sim, que cuidar da saúde, não deixar de fazer os exames que tem que fazer.
O que você prioriza?
Hoje em dia, eu priorizo me dar ainda mais oportunidades para eu estar feliz.
Por exemplo, eu adoro dormir.
Se você falar 'Cris, você tem 30 minutos', ou você vai comer ou você vai dormir.
Eu vou dormir, amo dormir (ênfase).
Sabe aquele cochilo de 15 minutos? Eu volto revigorada, consigo pensar melhor.
Eu quero poder dormir no meu cantinho delicioso, eu quero estar bem de saúde, eu quero poder caminhar, correr...

Penso no meu físico vivo, na minha saúde boa e poder a vida toda escolher os meus alimentos com tranquilidade, continuar viajando, coisa que eu amo, e caminhar com fé.
É fazer o que tem que ser feito, ver como estão seus entornos materiais, essas coisas tiram muita energia da gente.
Eu entendo que é um lugar responsável, mas a minha maior responsabilidade comigo hoje é viver.

Quando você fala em torno material, você quer dizer...?
Guardar dinheiro para o futuro, ter a certeza de que quem eu amo está bem, que eu fiz as coisas as escolhas certas ou boas para mim.
Que eu guardei [dinheiro], que realizei algumas coisas que para mim fazem sentido.
Pelo menos tentar fazer isso.
Cris Vianna
Mylena Saza
A Cris jovenzinha que começou lá nos anos 90 como modelo, imaginava chegar até aqui com uma carreira tão bem-sucedida?
Eu nunca deixei de acreditar que eu merecia.
Nunca.
Eu sempre olhei para uma oportunidade que às vezes não foi para mim, e no fundo eu falava ‘poxa eu merecia’.
Por que eu merecia? Porque eu sempre batalhei, estudei para isso.
Estudar é a palavra que mais fica para mim.
E me dediquei e estava ‘pronta’, apesar que ‘pronta’ nem sempre é do jeito que a gente acredita.

Mas eu estudava para aquilo, merecia dentro do meu caráter, dentro da forma com que cheguei.
E como ser atriz era muito distante da minha vida, muito descolado, aí ainda me surpreendo às vezes de falar: "Gente, eu conheci fulano, gente, eu fiz uma novela tal".
E isso me emociona até hoje.
Eu fico grata comigo; às vezes me dou um pouco de carinho e falo: 'Menina, você está seguindo direito, está seguindo bem, dentro do lugar que você disse que merecia, você está sendo vista'.
Então eu tento entender o meu presente e olhar com gratidão para o meu passado.
"A minha religião é o que sempre me ajudou.
Eu sou uma candomblecista, e isso nunca me abandonou"
Ao que ou a quem você se agarrou nos momentos difíceis?
Até na gratidão eles sempre estão presentes, são os meus orixás.
A minha religião é o que sempre me ajudou.
Eu sou uma candomblecista, e isso nunca me abandonou.
A minha fé e a minha gratidão pela minha religião são o que sempre me ajudou.
Eu escolhi, adulta, ser do candomblé, e foi uma das melhores escolhas da minha vida, inclusive.
Sou criada no catolicismo, fui batizada e não deixo de gostar da minha Nossa Senhora da Aparecida.
Se eu quiser ir a uma igreja assistir a uma missa, entro com toda a tranquilidade, mas eu escolhi, adulta, ser da umbanda e do candomblé.
Qual foi o melhor conselho que já te deram?
Siga em frente.