Apesar de absurdamente popular (e até os dias de hoje, aos 80 anos de idade, pelos descaminhos mais inusitados da internet), Alceu Valença nunca foi um artista que se deixasse decifrar.
Ao menos, não com facilidade.
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Profundamente brasileiro, mas internacional na eletrificação dos seus instrumentos.
Pernambucano até demais, mas com pés fincados no Mississipi do blues e o coração mergulhado na sofreguidão do fado de Lisboa.
Um ser das ladeiras de Olinda e dos rios de Recife.
Lucidez e loucura, movimento e poesia, mistério e segredo nas suas intenções, divino brinquedo nos palcos ao redor do mundo — ele é o personagem que “Anunciação – o musical de Alceu Valença” acerta (e muito) ao trazer em cena.
Em cartaz de quinta a domingo no Teatro Carlos Gomes (até o dia 16 de agosto), o espetáculo de cara se destaca de tudo o que se vê por aí em termos de musicais sobre astros da MPB.
Não é biografia musicada, não é costura cenográfica de canções, é bem mais que isso: um mergulho no universo de Alceu, com toda a criatividade (musical, cenográfica e de movimento) que o doidinho merecia.
O clima de “Anunciação” é o do melhor teatro feito em trupe, com os esforços de todos centralizados para melhor representar Alceu, esse artista em constante deslocamento, de impossível contenção e com uma eterna disposição para chamar a atenção.
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O cenário, de poucos elementos e muitas possibilidades, está ali para dar conta dos vários ambientes pelos quais o artista se expressa: é Carnaval, é circo, é palco, é interior e cidade grande.
É o que basta para a trupe se soltar.
Sob a direção de Miguel Colker e Duda Maia, o elenco formado por Duda Rios, Luiza Loroza, Maria Pérola, Juzé, Jef Lyrio, Natascha Falcão, Beto Lemos e Rafael Lorga se entrelaça e se multiplica em cena.
As canções são motes para jogos muito bem coordenados de coros, danças, expressões e interpretações de instrumentos — que se revezam de maneira atordoante nas mãos dos atores-cantores-músicos-dançarinos.
Tocado e movido por várias mãos, um violoncelo pode, por exemplo, virar um genial elemento cênico e, ainda, servir à recriação genial de uma canção.
Escrito por Duda Rios e Luiza Loroza, o texto de “Anunciação” privilegia o Alceu poeta, com fôlego inesgotável e retórica delirante — o que livra o espetáculo das armadilhas do didatismo, e permite com que o espectador caminhe de forma lúdica pela sua história de vida, como se estivesse mesmo em um show do pernambucano.
A tour de force do elenco, por sinal, lembra muito a do cantor no palco, mesmo hoje, aos 80.
Eis aí um musical para se sair molhado de suor até a alma.
Cotação: Ótimo
