Divergentes no tom e nas propostas para outras áreas, como os direitos trabalhistas e o combate à criminalidade, os candidatos à Presidência da República indicaram em programas de governo, entrevistas e discursos diretrizes semelhantes sobre como vão lidar, caso sejam eleitos, com o avanço das bets no país e o impacto dessas operações na economia nacional e no orçamento das famílias.
As promessas variam de medidas mais radicais para conter o avanço do setor, como a proibição total de apostas online, a ações inibitórias, a exemplo de restrições de anúncios publicitários e cobrança de taxas mais altas de impostos.
‘Bets acabam com o Brasil’, ‘não vale a pena ter bet’: Tarcísio e Haddad defendem proibição de aposta online no país
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Como as leis que permitem a exploração desses jogos eletrônicos de aposta no Brasil são federais, somente o Congresso Nacional e o presidente da República poderiam proibi-la.
Aos podcasts Não Inviabilize e As Cunhãs, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que concorre à reeleição, afirmou que sua equipe estuda medidas para restringir as apostas esportivas online.
— Se depender da minha vontade pessoal, nós acabamos com as bets — destacou o petista, que criticou a possibilidade de plataformas atingirem crianças em dispositivos eletrônicos.
— Não é possível você saber que um homem ou uma mulher estão, normalmente, o homem, gastando o dinheiro do leite do filho (em apostas).
Sem apresentar detalhes, Lula disse que as medidas são estudadas com os ministérios da Fazenda, do Planejamento e da Justiça e citou nesse contexto o lançamento do programa Desenrola, de seu governo, em novo aceno ao eleitorado endividado.
O presidente convocou ministros para discutir o tema das bets nesta terça-feira, um mês depois de a Fazenda anunciar novas regras para a publicidade do segmento, como advertências sobre os riscos e proibição de comentários que induzam ações de apostadores ou que sugiram "ganho fácil" e "senso de urgência".
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O setor foi regulamentado e passou a ser taxado em 2023.
Na ocasião, o governo federal exigiu que companhias que quisessem se regularizar pagassem R$ 30 milhões de outorga válida por cinco anos.
Nesta terça, a Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA), do Ministério da Fazenda, determinou a suspensão de sites de apostas ligados a seis empresas após identificar descumprimento de regras.
Principal adversário do petista na disputa ao Planalto, Flávio Bolsonaro (PL) incluiu no programa de governo enviado à Justiça Eleitoral a proposta de proibição do uso de recursos de programas sociais do governo federal em bets.
A medida, no entanto, já vigora no país desde outubro de 2025 para beneficiários do Bolsa Família e do Benefício de Prestação Continuada (BPC).
"O dinheiro destinado a pôr comida na mesa não pode escoar para a casa de apostas", diz o documento da campanha do senador, que cita ainda campanhas de conscientização sobre o tema e iniciativas de educação financeira.
Nesta terça-feira, o vice da chapa, Alfredo Gaspar (PL), disse que Flávio "ainda não tem uma posição definida sobre a proibição total" de bets.
Mas ressaltou que a regulamentação deve, sim, ser revisitada.
— Aí você me pergunta: isso pode ser de que tamanho? Vai ser do tamanho que o Brasil precisa para a gente salvar as famílias brasileiras.
Tem uma parte da equipe estudando a melhor forma de isso acontecer — afirmou o deputado federal, que citou uma situação atual "fora de controle" e indicou posição pessoal por um "freio de arrumação absoluto nisso".
A postura da chapa "puro-sangue" do PL contrasta com a atuação de correligionários do Congresso, que propuseram emendas para reduzir a tributação de operadoras de apostas e prêmios e ampliar o raio de atuação dessas empresas (para transmissões de eventos esportivos, por exemplo).
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Já ex-governador de Minas Gerais Romeu Zema defende abertamente a proibição total.
O candidato do Novo à Presidência afirmou que, se for eleito, o veto ao funcionamento das bets será seu "primeiro ato".
Durante um evento em São Paulo, nesta terça-feira, com mulheres que tiveram parentes afetados por apostas, o empresário comparou os efeitos do vício em jogos aos decorrentes da dependência química.
— Temos hoje no Brasil um problema seríssimo e me parece que as autoridades fecharam os olhos — afirmou Zema, que tratou o caso como "um problema tão grave quanto a dependência química, talvez até pior em alguns aspectos”.
Ao adotar a proibição como bandeira de campanha, Zema acompanha o discurso do senador Eduardo Girão (Novo), escolhido como seu vice na chapa presidencial.
Quando a regulamentação das bets foi votada na Câmara, quase toda a bancada foi contrária ao projeto, sob os argumentos de liberdade do mercado e dos malefícios que a operação, mesmo legalizada, poderia gerar.
A campanha de Zema e Girão, no entanto, contraria postura recente do Novo, que apresentou neste ano um projeto de lei para suspender os efeitos de uma resolução do Conselho Monetário Nacional (CMN) contrária ao mercado de preditivos, bloqueado em abril pelo governo federal.
Esse segmento representa plataformas que negociam contratos sobre a probabilidade de eventos futuros, como resultados de esportes ou dados econômicos, mas alega ter modelo diferente das bets — por isso, ainda não é regulado no Brasil.
Renan Santos, da mesma forma, promete acabar com as bets se for eleito presidente.
Em entrevistas, o candidato do Missão no pleito tem justificado a proposta pelo custo social do vício em apostas.
Ao discursar no debate promovido pela União Nacional das Entidades do Comércio e Serviços (Unecs), nesta terça, o ativista do Movimento Brasil Livre (MBL) considerou ser "droga pior que crack".
— Isso impacta diretamente o trabalho de vocês (o público da Unecs), a qualidade de vida e a saúde mental do trabalhador.
As pessoas acham que aquilo é um complemento de renda.
Ganho meu salariozinho e faço minha fezinha, porque algum influenciador aparece no Instagram e diz que ele vai ficar rico fazendo assim — disse Renan.
Empatado tecnicamente com Zema e Renan em terceiro lugar nas pesquisas de intenção de voto, Ronaldo Caiado (PSD) declarou nesta terça-feira que, se eleito, vai agir para conter as propagandas que incentivam as bets e a prática de apostas.
O ex-governador de Goiás disse que vai usar o Conselho de Controle de Atividades Financeira (Coaf), estrutura vinculada ao Banco Central que apura movimentações financeiras irregulares, e a Receita Federal para restringir as apostas.
— Está dentro do meu plano as medidas iniciais que eu vou tomar contendo o processo de propaganda exaustiva, que está levando as pessoas a essa prática.
Depois, (temos que) mostrar os danos que têm trazido à população e ao mesmo tempo termos todo um sistema do Coaf e da Receita Federal para saber para onde está chegando o dinheiro —isse.
Caiado falou sobre o assunto durante evento de representantes do setor de serviços com candidatos a presidente.
No entanto, perguntado se proibiria a prática de apostas, o candidato evitou responder.
Candidato do Avante à Presidência, Augusto Cury, por sua vez, defende apertar a cerco a bets a partir da tributação.
Na sabatina da Unecs, o autor de best-sellers propôs a aplicação de "impostos altíssimos" para empresas que operam jogos do tipo no Brasil.
A ideia, segundo ele, é que o aumento da taxação possa desestimular a prática.
— As bets terão de ser altamente regularizadas, reguladas, inclusive com impostos altíssimos, para haver inibição, para que esse dinheiro que poderia promover a sociedade brasileira não vá para essas empresas, que cada vez mais se tornam bilionárias — afirmou o escritor.
Em São Paulo
O tema também mobiliza campanhas estaduais.
Como mostrou O GLOBO, os dois principais adversários na corrida ao governo de São Paulo, Fernando Haddad (PT) e Tarcísio de Freitas (Republicanos), defenderam a proibição das bets no Brasil.
Na noite desta segunda, o atual governador disse que “ou o Brasil acaba com a bet, ou a bet acaba com o Brasil”.
Na terça-feira, o ex-ministro da Fazenda defendeu “discutir seriamente proibir esse negócio”.
Haddad reconheceu que a questão não é de alçada estadual, mas ponderou que, se eleito, não vai licenciar novas atividades desse tipo no estado.
Já Tarcísio falou sob a perspectiva de investir em saúde mental para tratar o vício em jogos, medida que inclusive é mencionada em sua proposta de governo apresentada à Justiça Eleitoral.
— Será que nós vamos conseguir ser efetivos para livrar as pessoas das bets? Talvez os desafios agora sejam maiores do que eram os desafios do tabaco outrora.
(...) Para pra pensar, 30%, 40% da renda do brasileiro está comprometida com banco, com juros, com consignado.
Outros 20%, 25% estão comprometidos com bets.
As empresas estão investindo em terapia para os seus funcionários, porque isso está drenando produtividade.
Ou o Brasil acaba com a bet, ou a bet acaba com o Brasil — falou Tarcísio durante evento promovido pelo Sindicato dos Hospitais, Clínicas e Laboratórios do estado de São Paulo (SindHosp), na noite desta segunda.
Já Haddad comentou sobre o tema durante sabatina da Jovem Pan News na manhã desta segunda, quando citou que a liberação desse tipo de jogos foi feita durante o governo Michel Temer (MDB) e criticou o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) pela falta de regulamentação.
— Se eu estivesse nos governos anteriores, não teria deixado prosperar os jogos.
Eu não acho nenhum jogo bom, eu acho todos ruins.
Sobretudo o jogo eletrônico, que tem um algoritmo de vício.
Eu acho que nós temos que discutir seriamente proibir esse negócio — afirmou.
— Não tem como proibir num estado, se ele está aprovado nacionalmente, ele vai atuar aqui.
O que você pode é criar jogos adicionais no estado, e no que depender de mim, eu sou contra.
Indagado porque o governo Lula regulamentou os jogos, ele justificou que era preciso criar regras para a atividade, que já era permitida, e cobrar impostos.
