De ‘Bolsonaro da Shopee’ a

De ‘Bolsonaro da Shopee’ a 'Lula da tapioca': candidatos recorrem a nomes de líderes políticos para disputar votos

Fonte: Bandeira da fonte

De “Bolsonaro da Shopee” a integrantes da própria família do ex-presidente, o sobrenome Bolsonaro continuará espalhado pelas urnas do país nas eleições deste ano, mas em proporção menor do que nos últimos pleitos.
Ao todo, 29 candidatos foram registrados com o nome na identificação que aparecerá para o eleitor, segundo levantamento do GLOBO feito a partir dos dados da Justiça Eleitoral.
São 35% menos do que os 45 concorrentes que fizeram a mesma escolha nas eleições gerais de 2022.
No outro polo da disputa presidencial, Lula aparece no nome de urna de outros dez candidatos — sem contar o próprio presidente —, queda de 29% em relação aos 14 registrados há quatro anos.
A retração fica mais acentuada quando os números são colocados ao lado dos de 2024.
Nas eleições municipais daquele ano, 75 candidatos a prefeito ou vereador recorreram a Bolsonaro no nome de urna, enquanto Lula apareceu em 162 registros.
Dois anos depois, os contingentes caíram para 29 e dez, reduções de 61% e 94%, respectivamente.
A diferença entre os tipos de eleição, porém, recomenda cautela na comparação: as disputas municipais colocam em jogo milhares de vagas a mais do que as eleições gerais.
No caso de Bolsonaro, ao mesmo tempo em que diminuiu o número de candidatos que pegam emprestado o sobrenome, a própria família se espalhou pelas urnas.
Sete dos 29 registros, ou quase um quarto do total, pertencem ao clã: Flávio Bolsonaro disputa a Presidência; Michelle concorre ao Senado pelo Distrito Federal; Carlos tenta chegar à mesma Casa por Santa Catarina, onde Jair Renan busca uma vaga na Câmara; Renato Bolsonaro, irmão do ex-presidente, concorre a deputado federal por São Paulo; Marcelo Bolsonaro, primo de Jair, disputa uma cadeira de deputado estadual no mesmo estado; e Rogéria Bolsonaro, primeira mulher do ex-presidente e mãe de Flávio, Carlos e Eduardo, tenta chegar à Câmara pelo Rio.
São Paulo é o estado que concentra o maior número de “Bolsonaros” nesta eleição, com sete registros.
Além de Renato e Marcelo, há cinco candidatos sem vínculo familiar com o ex-presidente.
Clodoaldo Dias Guimarães será “Clodoaldo Bolsonaro” na disputa para deputado estadual; Samanta Salerno de Almeida adotou “Samanta Bolsonaro”; Fabiana de Lima Barroso Souza virou “Fabiana Bolsonaro”; e Valéria Muller Ramos Bolsonaro concorre como “Valéria Bolsonaro”.
Completa a lista paulista Renata Cristina Tedesque Bolsonaro, candidata a vice-governadora pelo Agir.
O uso do sobrenome, neste caso, produz uma situação peculiar: o PL integra a coligação do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), candidato à reeleição, e não a chapa da candidata que terá uma “Bolsonaro” como vice.
No Rio de Janeiro, estado onde Jair Bolsonaro construiu sua carreira política e de onde saíram os primeiros mandatos de seus filhos, são quatro registros.
Um deles pertence à família: Rogéria Bolsonaro concorre a deputada federal.
Os demais são Vanessa da Silva Oliveira, a “Negona do Bolsonaro”; Jean Carlos Dias Barbosa Lopes, o “Jean Bolsonaro”; e Renato de Araújo Correa, registrado como “Renato Araújo do Bolsonaro”.
O sobrenome também aparece de forma concentrada em Santa Catarina, novo endereço eleitoral de parte da família.
Carlos Bolsonaro deixou a política municipal do Rio para disputar uma cadeira no Senado pelo estado.
Seu irmão Jair Renan tenta chegar à Câmara dos Deputados e fez uma escolha ainda mais direta para a urna: embora seu nome completo seja Jair Renan Valle Bolsonaro, registrou-se eleitoralmente como “Jair Bolsonaro”, repetindo o nome pelo qual o pai ficou conhecido nacionalmente.
No Distrito Federal, Michelle Bolsonaro disputa uma cadeira no Senado.
A ex-primeira-dama divide o sobrenome nas urnas da capital com Alessandro Gonçalves de Almeida, candidato a deputado distrital que adotou “Alessandro Bolsonaro”.
Do ‘Bolsonaro da Shopee’ ao ‘Bolsonaro Sergipano’
Fora da família, o levantamento mostra que a tentativa de pegar emprestada parte da identidade política associada ao ex-presidente não desapareceu.
Dos 29 registros, 22 são de candidatos que não integram o clã e estão espalhados por diferentes regiões e níveis da disputa.
No Mato Grosso, Vilmar Rigo, candidato a deputado federal, decidiu levar para a urna o apelido de “Bolsonaro da Shopee”.
No mesmo estado, Flaviane Ramalho de Oliveira concorre à Assembleia Legislativa como “Flaviane do Bolsonaro”.
Em Sergipe, Francisco Olinda de Assis optou por combinar a referência política com a origem e será “Bolsonaro Sergipano”.
Minas Gerais tem “Decinho Bolsonaro do Barreiro”, nome escolhido por Wanderson Matozinho de Souza para disputar uma cadeira de deputado federal e que acrescenta ao sobrenome a referência ao Barreiro, região de Belo Horizonte.
A fórmula se repete pelo país.
Boaz David de Lima Gino será “Boaz do Bolsonaro” na disputa para deputado estadual no Ceará.
No Paraná, Crysthofour Pereira de Almeida concorre como “Fão do Bolsonaro”.
No Espírito Santo, Edson Alves de Freitas escolheu “Freitas Bolsonaro”.
Há ainda candidatos que incorporaram o sobrenome sem complementos.
O deputado Hélio Lopes disputa o Senado por Roraima como “Hélio Bolsonaro”.
Em Rondônia, o presidente do PL no estado Bruno Scheid será “Bruno Bolsonaro Scheid”, também candidato ao Senado.
No Tocantins, Hélio Rodrigues Carvalho aparece como “Hélio Rodrigues Bolsonaro”.
A associação chega às disputas pelos governos estaduais.
No Rio Grande do Norte, Karlo Rodrigo Lucio Vieira registrou “Rodrigo Bolsonaro” como nome de urna para concorrer ao governo pelo Agir.
A escolha não significa, contudo, que ele seja o nome do partido do ex-presidente na disputa: o candidato do PL no estado é o ex-prefeito Álvaro Dias.
De ‘Lula da Tapioca’ a ‘Lula Tio do Biscoito’
O uso do nome do principal adversário de Flávio também aparece entre candidatos pelo país, embora em número menor.
Lula está em dez nomes de urna neste ano, sem considerar o próprio presidente, uma redução de 29% em relação aos 14 registrados nas eleições gerais de 2022.
Nas municipais de 2024, eram 162.
Na Paraíba, Luiz Gonzaga Rodrigues Filho concorre a deputado federal como “Lula da Tapioca”.
Em Minas Gerais, Valcir da Silva escolheu “Lula Tio do Biscoito” para a disputa pela Câmara, enquanto Antonio Carlos Vieira será “Carlin Lula”.
No Rio Grande do Norte, o nome do presidente aparece em duas disputas majoritárias.
Samanda Alves de Freitas concorre ao Senado como “Samanda de Lula”, enquanto Carlos Eduardo Xavier adotou “Cadu de Lula” na corrida pelo governo.
No Maranhão, Pâmela Maranhão acrescentou Lula ao nome de urna e concorre a deputada estadual como “Pâmela Maranhão Lula”.
No Rio de Janeiro, João Panayotis Damatis disputa uma vaga na Assembleia Legislativa como “Panayotis do Lula”.
Os números mostram que os nomes dos dois principais candidatos ao Planalto continuam guiando outras candidaturas, mas em menor escala do que na última eleição geral.

O uso de sobrenome de terceiros provoca uma discussão eleitoral há anos e já chegou a gerar impedimentos no passado.
Em Rondônia, por exemplo, o Ministério Público Eleitoral pediu na semana passada a impugnação da candidatura de Bruno Scheid, alegando risco de desinformação e de indução do eleitorado ao erro, por usar o sobrenome de Jair Bolsonaro.