Depois da poeira, vem a limpeza: como o Sertões tenta reduzir o impacto ambiental do rally - QTU Questões do Universo

Depois da poeira, vem a limpeza: como o Sertões tenta reduzir o impacto ambiental do rally

Fonte: Bandeira da fonte

Centenas de veículos atravessando mais de 4 mil quilômetros pelo interior do Brasil dificilmente formam a primeira imagem associada à sustentabilidade.
A própria organização do Sertões reconhece a contradição.
Com carros, motos e UTVs ainda movidos majoritariamente a combustão, a estratégia tem sido reduzir os impactos possíveis e compensar aqueles que ainda não consegue eliminar.
— É um desafio quando você fala de motorsport, de motor a combustão.
O veículo elétrico ainda não é uma realidade para a gente.
Vai chegar esse momento, mas ainda não é — afirma Leonora Guedes, CEO do Sertões, ao GLOBO.
Segundo ela, o cálculo das emissões não considera apenas os veículos que disputam a competição.
A organização estima também o impacto provocado pela caravana de cerca de 2,5 mil pessoas, incluindo deslocamentos aéreos, geradores e motorhomes.
As emissões são compensadas por meio da aquisição de créditos destinados à preservação de áreas florestais.
O documento oficial da prova informa que a iniciativa é realizada em parceria com Pontos Ecoa e Greener Tokens.
Outra frente aparece depois que o último competidor desaparece no horizonte.
Assim que o último veículo larga, dois carros da equipe Limpa Trilha entram no mesmo percurso para refazer toda a especial.
— A gente percorre toda a prova fazendo o trabalho de limpeza, seja de pedaços de carro que caem pelo caminho, resíduos como óleo que foram derramados ou avarias em propriedades de terceiros — explica Maurício Menella, coordenador do projeto.
O objetivo, diz, é simples na formulação e trabalhoso na prática.
— Nosso trabalho é fazer a varredura da trilha de tal modo que ela fique igual ou até melhor do que era.
Melhor no sentido de tirar resíduos que estavam lá até em decorrência de outras coisas, que não foram do rali.
Operação Limpa Trilha
Divulgação
Pneus e peças pelo caminho
O tipo e a quantidade de material recolhido variam conforme a dificuldade de cada etapa.
Em dias mais tranquilos, a equipe praticamente não encontra resíduos.
Em especiais mais duras, a caminhonete pode terminar cheia.
— O que mais a gente encontra é pneu.
Às vezes o conjunto completo, pneu e roda, às vezes o estepe que caiu do compartimento.
Isso é muito comum em UTV.
Também aparecem muitas peças de suspensão, amortecedores, ponta de eixo e carenagens — conta Maurício ao GLOBO.
Em uma etapa mais severa, ele estima que possam ser recolhidos quatro ou cinco pneus, além de componentes mecânicos.
As peças são levadas para a cidade seguinte e depositadas em um ponto previamente definido pela organização.
Muitas acabam recuperadas pelas próprias equipes e voltam a ser utilizadas.
Pneus danificados e materiais sem reaproveitamento seguem para outra destinação.
O trabalho também abrange resíduos deixados pelo público.
Se alguém acompanhando a prova abandona lixo ao longo do percurso e a equipe encontra, ele também é recolhido.
A preocupação vai além do que pode ser colocado na caçamba.
O Limpa Trilha registra danos em cercas, porteiras, mata-burros e propriedades atravessadas.
Segundo Leonora, quando necessário, a organização providencia o reparo ou ressarcimento.
— É para deixar a trilha igual ou melhor do que a gente encontrou — resume a CEO.
O próprio material oficial do Sertões estabelece essa como a missão da equipe: recolher pneus, componentes e outros resíduos deixados pelos veículos e garantir destinação adequada.
Óleo volta para a cadeia produtiva
Outra operação ocorre dentro dos boxes.
Pelo sexto ano consecutivo, as equipes recebem bombonas para armazenar o óleo lubrificante retirado dos veículos durante as manutenções.
O material é recolhido ao longo do rali e enviado à Lwart Soluções Ambientais, onde passa por rerrefino e volta ao mercado como óleo básico.
Nas Vilas Sertões, resíduos produzidos pela caravana também são separados com apoio de cooperativas locais.
A organização mantém ainda uma equipe ambiental formada, segundo Leonora, por engenheiras ambientais, bióloga e engenheiro florestal.
A lavagem dos carros é outro ponto de atenção.
Leonora afirma que há sistemas para reter a água usada na limpeza e possibilitar reaproveitamento, além da utilização de produtos biodegradáveis.
Nas próprias vilas, parte da equipe de produção também circula em motos elétricas, medida prevista pela organização para reduzir emissões nos deslocamentos internos.
‘Nosso palco é o Brasil’
A preocupação ganha uma dimensão adicional porque o Sertões não ocorre dentro de um circuito fechado.
A prova atravessa fazendas, estradas rurais e áreas próximas de unidades de conservação.
Nesses casos, segundo Leonora, o percurso é submetido aos órgãos responsáveis, que podem estabelecer limites de velocidade ou exigir alterações no trajeto.
— Nosso pano de fundo é o Brasil.
Não estamos em um autódromo.
Às vezes queremos voltar no ano seguinte por onde passamos, então precisamos deixar a melhor impressão — afirma.
Para a CEO, o desafio ambiental acompanha uma modalidade que ainda depende do motor a combustão e deve continuar existindo enquanto novas tecnologias não forem incorporadas de forma viável ao rally raid.