Manuela d’Ávila, candidata a senadora pelo PSOL, chamou atenção nas redes sociais, na última semana, para um detalhe do registro no DivulgaCand, sistema de divulgação das candidaturas: seu cargo aparecia no masculino, como “senador”, e não “senadora”.
levou outras candidatas a identificarem o mesmo problema e a fazerem publicações semelhantes.
Em seguida, as candidatas a deputadas Fernanda Melchionna e Luciana Genro, ambas do PSOL, procuraram Manuela para juntas acionarem o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) pela adoção do gênero declarado na candidatura na identificação dos cargos.
Manuela D'Avila começou o movimento nas redes sociais: "eu sou candidata a SENADORA".
Reprodução/Instagram
Formou-se então a mobilização: o movimento nas redes sociais reuniu políticas com mandato, como Sônia Guajajara (PSOL), Aava Santiago (PSB), Talíria Petrone (PSOL), Dandara Tonantzin (PT), Macaé Evaristo (PT), Erika Hilton (PSOL), Renata Souza (PSOL), Marina Silva (Rede) e Ediane Maria (PSOL), além de Áurea Carolina (PSOL), Manuella Mirella (PCdoB), Talita Cadeirante (PSB) e Maria Marighella (PT), que, atualmente, não ocupam cargos eletivos.
Manuela d’Ávila afirmou que o episódio evidencia a invisibilidade das mulheres na política:
— Eu sei que para alguns isso parece um detalhe, mas dar nome às coisas, nominar as coisas é algo fundamental pra experiência humana e pra vida democrática nacional, disse ao Globo.
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Em suas redes sociais, Luciana Genro afirmou que as candidatas protocolaram um pedido de correção na nomenclatura dos cargos, junto ao TSE, e defendeu a mudança na forma de apresentação dos cargos no sistema:
— Durante muito tempo, a política foi um espaço quase exclusivamente masculino.
E a linguagem também carregou essa história: o homem como regra, a mulher como exceção.
Só que as mulheres estão cada vez mais ocupando a política.
Não aceitamos ser exceção!, escreveu.
No debate, algumas pessoas defenderam que o masculino deveria ser usado como forma neutra para designar o cargo, e que a flexão no feminino só deveria ocorrer após a mulher assumir a função, quando então seria chamada de “senadora” ou “deputada”.
Macaé Evaristo escreveu: "Deputado não.
A partir de agora é DeputadA, viu?"
Reprodução/Instagram
Candidata Aava Santiago também usou o Instagram para divulgar a candidatura como "DeputadA"
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O peso das palavras na representação política
O linguista Carlos Bem Gonçalves, doutor em Linguística Aplicada pela UFRJ e pós-doutor pela UFSC e pela Universidad Autónoma de Madrid, considera problemática a ideia de que o cargo seja necessariamente masculino.
Segundo ele, uma mulher pode ser legitimamente chamada de “senadora” ou “deputada” antes mesmo de assumir a função.
Embora o masculino possa funcionar como forma genérica em determinados contextos do português, afirma o pesquisador, isso não significa que seu uso seja neutro em termos sociais.
A disputa pela nomeação acompanha, em certa medida, a disputa pela própria ocupação desses lugares, afirma.
No caso do DivulgaCand, Gonçalves destaca o caráter institucional da escolha:
— Acho particularmente relevante pensar na dimensão institucional.
Quando o sistema oficial do Estado Brasileiro apresenta uma mulher candidata como “senador” e “deputado”, existe uma escolha de representação.
Mesmo que essa escolha possa ser defendida como gramaticalmente possível pelo funcionamento do masculino genérico, ela também pode produzir um apagamento da marca de gênero da pessoa que ocupa aquele lugar.
Do ponto de vista linguístico, as formas femininas são legítimas e dicionarizadas.
Gonçalves afirma que “o ponto central é não tratar ‘gramática’ e ‘política’ como esferas separadas”, pois “as regras linguísticas são históricas, e os usos da língua estão atravessados pelas relações sociais”.
Para o pesquisador, a linguagem participa da construção da realidade.
Nesse sentido, uma instituição pública que privilegia o masculino pode reproduzir simbolicamente uma estrutura histórica de poder construída majoritariamente por homens.
— Nomear mulheres no feminino, portanto, não é apenas uma questão gramatical é também uma forma de reconhecimento e de efetivação da participação das mulheres na política, afirma.
A reportagem procurou o TSE para saber se o pedido foi recebido e se o tribunal pretende alterar a forma de apresentação das candidaturas no DivulgaCand.
O tribunal não respondeu até a publicação.
O espaço segue aberto para manifestação.
*aluna do curso Jornalismo do Futuro sob supervisão de Cibelle Brito
