Os desembolsos ao crédito rural despencaram no primeiro mês da safra 2026/27.
Apesar da redução nas taxas de juros das principais linhas de financiamento para pequenos, médios e grandes produtores, a demora na publicação das regras da equalização das operações pelo Tesouro Nacional e o ambiente mais restritivo nas instituições financeiras resultaram em desembolsos de apenas R$ 12,7 bilhões em julho, menos da metade dos R$ 28,3 bilhões liberados no mesmo mês de 2025.
Houve retração em todas as modalidades de financiamentos.
A queda mais expressiva foi nas operações de custeio, que saíram de R$ 19,9 bilhões no primeiro mês da safra 2025/26 para apenas R$ 9,2 bilhões na largada desta temporada.
As linhas de investimentos – a maioria com juros de dois dígitos – recuaram de R$ 4,1 bilhões para menos de R$ 1 bilhão.
No período comparado, os empréstimos para comercialização caíram de R$ 1,8 bilhão para R$ 1,4 bilhão e os de industrialização de R$ 2,3 bilhões para R$ 1,1 bilhão.
A quantidade de contratos também diminuiu, de 179,2 mil para apenas 77,2 mil no primeiro mês do novo ano-safra.
Os dados foram extraídos do sistema do Banco Central em 3 de agosto e compilados pela reportagem.
As informações são parciais e podem mudar de acordo com a data da consulta.
Operações contratadas e ainda sem desembolso não aparecem nas estatísticas.
Os números não consideram as contratações de Cédulas de Produto Rural (CPRs).
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Como em todo início de safra, os recursos controlados dominaram os desembolsos.
Cerca de R$ 9,1 bilhões foram liberados em julho em linhas abastecidas com montantes oriundos dos depósitos à vista e dos fundos constitucionais, que não têm equalização, e da poupança rural e de Letras de Crédito do Agronegócio (LCAs) equalizadas.
Outros R$ 3,5 bilhões foram de fontes não controladas e juros livres.
A publicação da portaria que autorizou o pagamento da equalização apenas em 23 de julho limitou o desembolso desses valores, segundo Leila Harfuch, sócia-gerente da consultoria Agroicone.
Ela salientou que houve queda na contratação de financiamentos desde o Plano Safra 2023/24, mas isso não impediu o crescimento da produção agropecuária, que foi financiada por instrumentos de mercado.
Agora, o desafio será equacionar o endividamento para que o produtor tenha acesso aos recursos seja nos bancos ou nas empresas do setor.
“Este ano o que preocupa muito é o El Niño mais forte.
Ainda com custo de capital caro para o produtor, endividamento elevado e instrumentos de gestão de riscos como seguro rural com baixa penetração e pouco recurso para subvenção, teremos uma safra com exposição ao risco elevado”, comentou Harfuch.
O secretário de Política Agrícola do Ministério da Agricultura, Guilherme Campos, admitiu que houve queda nos financiamentos e disse que a safra será marcada por maior restrição das instituições financeiras diante do endividamento dos produtores e das perspectivas pessimistas com o clima.
“É preciso ter cautela e muita responsabilidade.
Quem pegar crédito, tem que ter muita responsabilidade em assumir a dívida, porque o financiamento está caro.
O produtor tem que estar com convicção de que a conta fecha no final”, avaliou.
Segundo Campos, sem acesso ao Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR) na safra 2026/27 por falta de recursos orçamentários do governo, alguns produtores ficarão desestimulados a plantar.
Ele não acredita em retração de área cultivada, mas prevê redução na adubação e outros tratos culturais.
“Os produtores vão investir menos para não gerar um custo muito alto já que não há perspectivas de melhora nos preços das commodities”, afirmou à reportagem.
O secretário ponderou que é necessário aguardar o desempenho das renegociações das dívidas autorizadas pela Medida Provisória 1.376/2026, em julho, que ainda não engrenaram.
As operações serão computadas no Plano Safra 2026/27 e poderão abrir espaço para novas contratações dos produtores.
O governo, no entanto, não divulgou como será feito o processo para renegociação com equalização de juros e ainda está levando a demanda pelos saldos equalizáveis junto às instituições financeiras.
Cerca de R$ 20 bilhões em dívidas dessa categoria deverão ser renegociadas, segundo estimativas do Ministério da Fazenda.
Também será necessário um remanejamento de R$ 130 milhões para fortalecer o caixa do Tesouro Nacional e autorizar o início das operações.
Para Pedro Loyola, coordenador do Observatório do Crédito e do Seguro Rural do Centro de Estudos do Agronegócio da Fundação Getúlio Vargas (FGV Agro), a retração observada nas últimas safras e no primeiro mês do ciclo 2026/27 são resultado de um problema estrutural no campo que une aumento da inadimplência, maior seletividade dos bancos, garantias pressionadas e forte redução da cobertura do seguro rural.
Com menos acesso aos recursos financeiros, produtores deverão frear investimentos e diminuir o pacote tecnológico aplicado nas lavouras, com possíveis reflexos na produtividade.
"O Plano Safra recorde deixou de ser sinônimo de política agrícola forte.
Quando os anúncios crescem, mas o produtor acumula recordes de alavancagem, inadimplência, crédito problemático, leilões e recuperações judiciais, o que se revela não é sucesso, mas o esgotamento de um modelo sem funding de qualidade, direção estratégica e proteção securitária", afirmou.
Ele ressaltou que a redução dos juros no novo Plano Safra foi positiva, mas que ela não é suficiente para garantir disponibilidade de recursos e meios de acesso a eles.
"Juro menor reduz o custo financeiro, mas não cria funding, não recompõe garantias e não reduz automaticamente o risco da produção", apontou.
As cooperativas de crédito lideraram os desembolsos em julho e houve recuo na participação das instituições públicas.
O Banco do Brasil, que liberou apenas R$ 2,3 bilhões ante R$ 10,9 bilhões em julho de 2025, disse à reportagem que o atraso da equalização impactou suas operações, mas que o volume efetivamente contratado no período é maior.
