Dez anos da Rio 2016: legado olímpico finalmente tem uso, mas ainda traz marcas do abandono - QTU Questões do Universo

Dez anos da Rio 2016: legado olímpico finalmente tem uso, mas ainda traz marcas do abandono

Fonte: Bandeira da fonte

Em agosto de 2016, o Rio de Janeiro recebia os Jogos Olímpicos e o cronômetro registrava feitos históricos em segundos e centésimos.
Depois dos Jogos, o cronômetro do legado olímpico deixou os segundos de lado e passou a contar anos.
Muitos anos.
A proposta era reaproveitar as estruturas temporárias e dar novos usos à cidade.
Mas, no início, boa parte delas ficou abandonada e sem uso.
O Parque Olímpico perdeu movimento, apartamentos da antiga Vila dos Atletas ficaram encalhados e persistiram dúvidas sobre a gestão dos equipamentos.
O problema já era apontado antes mesmo da abertura da Olimpíada.
Em entrevista à CBN, o procurador da República Leandro Mitidieri, que integrou o grupo do MPF criado para acompanhar os Jogos e o legado, lembrou que, ainda na gestão Eduardo Paes, os órgãos de controle já cobravam um plano claro para o destino das estruturas.
“Esses planos simplesmente não foram apresentados, né? Um plano minimamente consistente só foi apresentado em junho de 2017, né? Mas um plano claramente ali fictício, uma coisa com pouca aplicabilidade prática, né? E foi logo verificado que aquele plano não tava sendo seguido, né? [...] Os governos que se sucederam mostraram um total descompasso aí com a ideia do devido aproveitamento do legado olímpico, né?”
No fim de 2016, ainda na gestão Paes, a tentativa de conceder parte do Parque Olímpico à iniciativa privada fracassou.
As Arenas Cariocas 1 e 2, o Velódromo e o Centro de Tênis foram, então, repassados ao governo federal.
No ano seguinte, a Prefeitura mudou de mãos.
Marcelo Crivella, adversário político do grupo de Paes, assumiu com esse impasse ainda aberto.
E durante a campanha, ele já colocava outras demandas à frente do legado olímpico.
"Nós temos que nos preocupar é com o alagado olímpico, hein.
Temos que também lembrar do largado.
Foi largado os hospitais, foram largadas a UPA, foi largada as comunidades", ironizou na época.
Em 2017, a justificativa era a de que não havia dinheiro pra desmontar as estruturas que, no planejamento inicial, virariam escolas.
E, depois, a pandemia prolongou ainda mais o atraso.
A Arena do Futuro ficou sem uso por quase seis anos.
A desmontagem começou apenas em 2022, já no terceiro mandato de Paes, e deu origem a quatro escolas, concluídas em 2024.
Uma delas, em Rio das Pedras, Zona Sudoeste da cidade, atende 679 alunos.
A diretora-geral Monique Coletti diz que a demora também adiou os benefícios para a comunidade.
“Eu acho que se tivesse construído essas escolas há mais tempo, os benefícios teriam começado muito mais tempo também, né? E daqui pra frente é usufruir mesmo e aproveitar esses espaços e entender que esses espaços são deles.
A gente procura sempre trazer o legado olímpico para dentro da escola, fazendo esse entrelace com o que eles aprendem e com o que o esporte traz de significativo para o aprendizado.”
A piscina do Estádio Aquático demorou ainda mais e só voltou ao uso público no fim de 2025, no Parque Oeste, em Inhoaíba.
E as aulas no local começaram em janeiro deste ano.
A professora Cintia Louise, que coordena as atividades, diz que essa história ajuda a aproximar os moradores do esporte.
“O Michael Phelps foi o maior medalhista de todos os tempos naquela piscina.
E hoje ela é essencial para a saúde e a qualidade de vida da população do entorno, porque fica próxima, as pessoas podem ir caminhando, de bicicleta, levar toda a família.
É muito bom ver esse ambiente familiar e também com o intuito de promover ainda mais o esporte.
Quem sabe não sai um futuro Michael Phelps da piscina do Parque Oeste, né?”
O economista Marcelo Neri, da FGV, estudou os impactos da Rio 2016 e aponta que, apesar dos problemas com o legado físico, a preparação para os Jogos trouxe avanços em indicadores sociais e ajudou a manter a economia do Rio em movimento durante a forte recessão do país.
“Quando a gente avalia no livro os efeitos das Olimpíadas, a gente vê uma miríade de indicadores de mercado de trabalho, indicadores sociais como pobreza, mobilidade urbana, moradia.
Tem uma lista lá de uns 70 indicadores mais ou menos que a gente avaliou e a gente viu que o Rio de Janeiro avançou mais do que, por exemplo, São Paulo no período de organização das Olimpíadas.
E eu diria que sediar as Olimpíadas no Rio de Janeiro foi uma grande política contracíclica no momento de recessão.
A opção de organizar os Jogos Olímpicos fez as rodas da economia carioca, em alguma medida fluminense, continuarem a girar no momento crítico.”
Pira Olímpica de Rio 2016 será reacesa durante Jogos de Paris
Divulgação/Prefeitura Rio de Janeiro
Hoje, parte do legado ganhou finalmente novos usos.
A Arena 3 virou escola, a Arena 2 está sendo adaptada para receber o IFRJ e estruturas do antigo Centro de Transmissão foram reaproveitadas no Terminal Gentileza.
Já a Arena 1, o Centro de Tênis e o Velódromo ainda estão em processo de concessão por 20 anos.
A Rock World, responsável pelo Rock in Rio, venceu a licitação, mas o contrato ainda não foi assinado.
Rock in Rio no Parque Olímpico.
Genilson Araújo / Parceiro / Agência O Globo
Na antiga Vila dos Atletas, só 240 dos 3.604 apartamentos tinham sido vendidos antes dos Jogos.
O condomínio, que hoje se chama Ilha Pura, vive uma nova fase de lançamentos.
Se a beleza daqueles Jogos merece ficar na memória, o abandono e as indefinições também.
Os dois lados ajudam a contar o que o Rio conseguiu acertar e o que não pode repetir.