O diretor de operações da FIFA, Kevin Lamour, afirmou nesta sexta-feira (31) que os funcionários da entidade foram 'enganados' pela falta de transparência de Infantino em relação aos seus planos para o esquema de investimento privado.
Os funcionários 'merecem algo melhor do que desprezo e intimidação', disse ele em um comunicado divulgado pela Associated Press.
Lamour chamou os planos para a Copa do Mundo de 'projeto de uma pessoa'.
'Este projeto não só não deve prosseguir...
como chegou a hora de os líderes políticos do futebol se questionarem corretamente e tomarem as decisões certas'.
Ele afirmou que não iria se demitir, mas que estava se manifestando por dever para com seus colegas, dizendo que 'se isso significar perder meu emprego, que assim seja'.
'Pelo menos vou dormir bem esta noite', acrescentou.
No texto, ele afirma ainda que os 'vice-presidentes da FIFA, os membros do Conselho da FIFA, as confederações, as federações, os jogadores, as ligas, os clubes e os torcedores não foram os únicos ignorados.
A própria administração da FIFA também foi enganada'.
'Essa omissão prolongada ao longo de vários meses e esse exercício unilateral de poder não são triviais.
São indicativos de falta de confiança, falta de transparência, falta de discernimento, falta de boa governança.
E uma grave falta de respeito'.
Em critica direta a Infantino, o diretor ainda comentou que um presidente deveria 'unir as pessoas', mas que hoje 'estamos vivenciando o oposto'.
'Não tenho autoridade para falar em nome dos meus colegas, e talvez eu esteja enganado.
Mas a minha sensação é que todos nós queremos nos orgulhar de trabalhar para a FIFA, e hoje, infelizmente, parece que esse não é mais o caso para muitos de nós.
Isso me entristece'.
A notícia surge no mesmo dia em que o principal assessor de Gianni Infantino, Carlos Cordeiro, renunciou em protesto contra as medidas do presidente da FIFA de vender participações na Copa do Mundo.
Cordeiro é o principal assessor de Infantino dentro da entidade, tendo já sido presidente da Federação de Futebol dos Estados Unidos e vice-presidente do Goldman Sachs.
'Como conselheiro sênior do presidente da FIFA, ex-banqueiro e fã de futebol de longa data, não posso ficar de braços cruzados enquanto a FIFA considera vender uma participação na Copa do Mundo.
Deixe-me ser claro: não tive qualquer envolvimento nesta proposta e me oponho a ela inequivocamente.
É um mau negócio para as Associações Membro da FIFA, um mau negócio para o futebol e um mau negócio para o futuro do esporte a longo prazo', declarou no comunicado.
Cordeiro foi nomeado ao cargo em 2021, com decisão, segundo Infantino, por ele ter construído uma carreira de negócios e em bancos de investimentos na Europa.
Além disso, em 2025, foi escolhido pelo presidente americano, Donald Trump, como Conselheiro Sênior da Força-Tarefa da Casa Branca para a Copa do Mundo da FIFA de 2026.
Carlos Cordeiro durante discurso em evento para a Fifa.
Divulgação/Fifa
Ele agora lançou uma crítica direta ao plano de vender 20% de uma nova subsidiária que comercializa os direitos da Copa do Mundo para investidores privados em um empreendimento avaliado em US$ 20 bilhões, questionando o processo e as finanças.
'O futebol tem sido fundamental na minha vida e, após mais de 35 anos no setor bancário, compreendo tanto o valor desse ativo quanto as consequências de ceder parte dele.
É por isso que esta proposta deve ser rejeitada'.
'A FIFA já tem acesso a recursos financeiros extraordinários.
A organização possui bilhões de dólares em reservas e nenhuma dívida.
O próprio presidente da FIFA destacou os US$ 15 bilhões em receita gerados entre 2022 e 2026.
Se as Associações Membro acreditam que investimentos adicionais são necessários para o desenvolvimento do futebol, a FIFA já tem capacidade financeira para fornecer esse apoio com seus recursos existentes.
Nesse contexto, vender uma participação permanente no ativo mais valioso do futebol para arrecadar US$ 4,2 bilhões faz pouco sentido.
É hipotecar o futuro do futebol sem qualquer justificativa convincente', continuou.
O agora ex-assessora afirmou que se preocupa com a falta de respostas para perguntas como o por que o acordo e por que estaria saindo agora.
'Quem se beneficia? Houve um processo competitivo? Que governança será implementada? O que os investidores ganharão no final das contas e a que custo para o futebol?', questionou.
Cordeiro completou dizendo que a proposta virou 'uma questão crucial para o futuro da FIFA'.
Por isso, ele decidiu pela renúncia.
'A responsabilidade da FIFA não é maximizar os lucros comerciais a qualquer custo.
É proteger e fortalecer o futebol para as gerações futuras.
Quando esses princípios entram em conflito, o futebol deve vir em primeiro lugar', declarou.
Confederação Asiática e Concacaf apoiam UEFA
Copa do Mundo da Fifa 2026
William Volcov/Brazil Photo Press/Agencia O Globo
A Confederação Asiática de Futebol se junto à UEFA e à CONCACAF, confederação das seleções da América do Norte, ao afirmar que a FIFA não deve prosseguir com seus controversos planos de investimento.
Em um novo comunicado divulgado nesta sexta-feira (31), a AFC afirmou que considera que a FIFA 'não consegue, de forma realista, alcançar o amplo consenso e a unidade necessários para avançar'.
'A Copa do Mundo da FIFA é o ápice do futebol mundial e sua força deriva da participação de todas as confederações e das principais nações do futebol mundial.
Qualquer proposta que ameace minar a unidade e o caráter universal da competição deve ser reconsiderada'.
Não chegou ao ponto da UEFA de ameaçar um boicote, mas exigiu que a FIFA se reformasse em vista da controvérsia.
A AFC afirmou que a questão 'expôs fragilidades fundamentais"' dentro da FIFA, em relação aos seus processos de consulta e tomada de decisão, afirmando que isso precisa ser 'resolvido agora'.
Sendo assim, solicitou à FIFA que 'realizasse uma revisão urgente de sua estrutura de governança e tomada de decisões'.
Já a CONCACAF afirmou em comunicado que rejeitou as propostas após uma reunião de emergência com suas associações membros realizada nessa quinta-feira (30).
Durante a reunião, os membros 'expressaram profunda preocupação com a falta de devido processo legal em torno da proposta, o prazo artificialmente curto imposto e a ausência de qualquer revisão ou aprovação pelos órgãos de governança relevantes da FIFA'.
'Além disso, se questionou a necessidade de investimento de capital privado para financiar os programas FIFA Forward, novos e já existentes, após a Copa do Mundo da FIFA mais lucrativa da história', acrescentou.
Na quarta-feira (29), logo após a divulgação dos planos da FIFA, a AFC emitiu um comunicado dizendo estar 'decepcionada' por não ter sido consultada sobre a proposta.
A oposição coletiva das confederações da Ásia (47 membros), América Central e do Norte (41 membros) e Europa (55 membros) significa que 143 membros da FIFA se opõem ao plano.
A FIFA precisava de 106 dos seus 211 membros para vencer a votação, número que não conseguiria ser alcançado dessa forma.
Enquanto isso, o comitê executivo da confederação africana se reúne na próxima semana para avaliar a proposta; a confederação da Oceania, o menor bloco regional, afirmou que discutirá a proposta em uma reunião no próximo mês; E a CONMEBOL, entidade que rege o futebol sul-americano, ainda não se pronunciou publicamente.
Fifa responde plano de boicote da UEFA e afirma não estar 'vendendo futebol'
Presidente da FIFA, Gianni Infantino
Sports Press Photo/Sports Press Photo/Fotoarena/Agência O Globo
A FIFA defendeu seu plano de vender participações em suas competições, incluindo a Copa do Mundo, para investidores privados logo após o comunicado da UEFA afirmando que os países da entidade europeia iriam boicotar torneios organizados pela entidade máxima do futebol enquanto a proposta estivesse em discussão.
Em comunicado, a Fifa negou estar 'vendendo futebol' e declarou: 'Isso é algo que a FIFA jamais toleraria'.
'Respeitamos o feedback e a preocupação manifestados publicamente', acrescentou, mas atribuiu a culpa a 'reportagens incorretas da mídia' por terem 'interrompido' seu 'processo de consulta planejado' - com o qual afirma que prosseguirá.
A medida surge após uma reação generalizada contra o plano ter atingido um novo pico na quinta-feira, com o anúncio da UEFA de que todas as nações europeias estão preparadas para boicotar a Copa do Mundo caso ela seja realizada.
Rodri levanta a Copa do Mundo
ANGELA WEISS / AFP
