Preso neste domingo na Bolívia, o ex-deputado estadual do Mato Grosso do Sul Neno Razuk (PL) é descrito em processos judiciais e inquéritos policiais como liderança de um dos principais esquemas do jogo do bicho no estado.
Ele se tornou alvo das autoridades após comandar ataques a adversários ligados ao Primeiro Comando da Capital (PCC) em uma disputa por pontos do jogo do bicho na capital Campo Grande.
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Denunciado em 2023 pelo Ministério Público do Mato Grosso do Sul (MP-MS), Neno Razuk foi condenado em dezembro do ano passado a 15 anos de prisão por organização criminosa.
Junto a ele, também foram sentenciados empresários e assessores parlamentares.
Razuk teve a prisão decretada no início de julho, semanas após perder o mandato de deputado estadual devido a uma recontagem dos votos que afetou o coeficiente eleitoral e fez o PL perder assentos.
As investigações sobre Razuk tiveram início após as autoridades tomarem conhecimento de uma sequência de roubos cometidos contra motoqueiros a serviço do grupo MTS, organização criminosa vinculada ao PCC que controlava pontos do jogo do bicho na capital do estado.
Segundo as investigações, o MTS tinha 26 motoqueiros que atuavam como "recolhes".
A função deles era coletar os valores recebidos pelos apontadores em diferentes endereços de Campo Grande.
As autoridades descobriram que os roubos haviam sido ordenados por Razuk, que tinha como objetivo tomar para si o controle da contravenção na capital.
O "grupo de São Paulo", como o MTS era conhecido, detinha 1.040 bancas de apostas que geravam mensalmente cerca de R$ 5 milhões para os contraventores.
Os motoqueiros vítimas dos roubos relataram às autoridades que trabalhavam para o jogo do bicho desde antes da chegada do MTS no estado, mas servindo aos Name, uma família ligada à contravenção na região.
Em 2019, eles foram alvos da Operação Omertà, que representou um golpe nos negócios e abriu espaço para o grupo paulista assumir os pontos da contravenção.
Além dos roubos, o grupo de Razuk passou a tentar cooptar aqueles que trabalhavam para o MTS e também ordenou a subordinados que elaborassem um organograma do grupo rival.
Um assessor parlamentar de Razuk teria usado uma impressora da Assembleia Legislativa do Mato Grosso do Sul (ALMS) para imprimir fotos dos locais onde ficavam máquinas caça-níqueis dos rivais.
Um pen drive com informações sobre os concorrentes foi encontrado em posse do deputado estadual.
"O grupo rival liderado pelo Deputado Roberto Razuk Filho (Neno Razuk), no intuito de tomar os pontos de exploração do jogo do bicho nesta capital, traça um organograma da MTS, tenta cooptar os 'motoqueiros/recolhes' e rouba o dinheiro dos recolhimentos diários auferidos pelos cambistas e apontadores que trabalhavam para a MTS (...)", resume uma decisão judicial de dezembro de 2024 que negou um pedido de habeas corpus que favorecia um integrante do grupo paulista.
O grupo chegou a planejar também a execução de rivais.
Um dos alvos era Henrique Abraão Gonçalves da Silva, o Macaulin ou Rico, um dos líderes do MTS, cuja cabeça "estaria 'a prêmio' pelo valor de R$ 100.000,00", segundo consta em uma decisão do TJ-MS de dezembro de 2024.
Uma emboscada também teria sido tramada contra um gerente do MTS conhecido apenas como Barba.
Além de avançar contra os rivais na capital, o grupo de Razuk também tinha planos de expandir os negócios para o estado vizinho de Goiás — inclusive, com uma empresa de fachada para atuar de forma fraudulenta em licitações.
A possibilidade levou a um magistrado a destacar o risco de que tivesse início uma "guerra pelo controle do jogo do bicho que atingiria ambos os Estados".
Razuk chegou a Campo Grande nesta segunda-feira para dar início ao cumprimento da pena.
Ele era considerado foragido da Justiça brasileira desde 8 de julho.
O ex-deputado foi detido pelas autoridades bolivianas enquanto seguia de carro rumo a Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia.
Em nota ao g1, a defesa de Neno Razuk afirma que ele entrou no país estrangeiro antes da expedição do mandado de prisão e que pretendia se entregar às autoridades brasileiras.
Prisão na Bolívia
Além da pena de prisão, Neno Razuk foi proibido de exercer cargo público por oito anos.
Ele; o pai, Roberto Razuk; os irmãos Jorge e Rafael Razuk; e outras 16 pessoas foram alvos da quarta fase da Operação Successione, deflagrada em novembro de 2025.
Há pouco mais de uma semana, a Justiça de Mato Grosso do Sul havia determinado à Polícia Federal que pedisse à Interpol a inclusão do nome dele na difusão vermelha, um dos mecanismos mais antigos e simbólicos da cooperação policial internacional.
O Ministério Público afirma que o ex-parlamentar e os parentes integravam uma organização criminosa armada dedicada à exploração ilegal de jogos de azar.
O grupo se utilizaria de corrupção, lavagem de dinheiro e roubos para assegurar o monopólio da contravenção no MS.
E teria avançado sobre regiões comandadas por outras quadrilhas desarticuladas em ações policiais passadas.
Ao longo das investigações, agentes apreenderam centenas de máquinas usadas no jogo do bicho e materiais que apontam para movimentações de ao menos R$ 600 mil mensais com a atividade.
A acusação pediu o bloqueio de R$ 36 milhões em bens da família Razuk.
O GLOBO tenta contato com a defesa do ex-deputado.
Em nota ao Midiamax, o advogado Ricardo Souza Pereira disse que aguarda a PF sobre transferência do cliente para Campo Grande.
"Ainda estamos aguardando a decisão da Polícia Federal.
Até o momento, não temos informações sobre quando ocorrerá a chegada dele a Campo Grande.
Permaneceremos atentos, acompanhando o desenrolar do caso, e informaremos qualquer atualização", afirma a nota.
