Distração fatal: pilotos da Voepass perderam

Distração fatal: pilotos da Voepass perderam '20 segundos de ouro' focados em tarefas burocráticas, revela PF

Fonte: Bandeira da fonte

A contagem regressiva para o descontrole do voo 2283 da Voepass durou exatos 20 segundos.
Um laudo pericial da Polícia Federal, obtido pelo GLOBO, detalha pela primeira vez o que ocorria no interior da cabine de comando durante a estreita janela de tempo em que a queda em Vinhedo (SP) ainda poderia ser evitada.
Segundo a investigação, no momento em que a aeronave enfrentava uma degradação severa provocada pelo gelo, os pilotos priorizavam tarefas burocráticas, isolando-se da real situação de perigo.
Voepass: PF indicia 16 funcionários e ex-funcionários da empresa por queda de avião em SP
O documento elaborado pelo Instituto Nacional de Criminalística (INC) da PF esquadrinha a inércia da tripulação logo após o acionamento do alerta de Increase Speed (aumentar velocidade).
O aviso é a última linha de defesa antes de um estol — a perda de sustentação aerodinâmica.
Em vez de assumirem o controle manual e iniciarem as manobras emergenciais previstas pelo fabricante, o comandante e o copiloto mantiveram o foco na preparação administrativa para o pouso.
A perícia criminal revela que, durante esses chamados "20 segundos de ouro" que antecederam a entrada do ATR 72-500 em um parafuso irreversível, a dupla estava ocupada transmitindo mensagens de rádio para a base de operações da companhia (o setor de despacho), localizada em Guarulhos.
Simultaneamente, os aviadores dividiam a atenção com a leitura de checklists ordinários e a condução do briefing (repassem de instruções) de aproximação.
O laudo é contundente ao descrever a total perda de consciência situacional dentro do cockpit.
De acordo com o texto assinado pelos peritos federais, no instante de maior gravidade técnica do trajeto, a tripulação “manteve seu foco de atenção em tarefas rotineiras da cabine e em comunicações com o despacho”.
Ao optarem por cumprir a burocracia da companhia aérea em vez de priorizar a pilotagem primária da máquina, os comandantes selaram o destino do voo.
O relatório conclui que o excesso de concentração nos protocolos de rotina fez com que ambos operassem às cegas em relação à física do avião, já que “se mantiveram alheios aos alarmes vitais de desempenho e aos sucessivos alertas do sistema de monitoramento".
Para a Polícia Federal, o episódio ilustra uma quebra no princípio mais básico da aviação de emergência: voar a aeronave primeiro, para só depois comunicar.
A falha em hierarquizar essas prioridades transformou uma pane aerodinâmica administrável em um mergulho definitivo, custando a vida de todos os 62 ocupantes a bordo.