Distribuidora decide lançar ‘Dark Horse’ depois da eleição e cita experiência ruim com filme sobre Lula em ano de campanha - QTU Questões do Universo

Distribuidora decide lançar ‘Dark Horse’ depois da eleição e cita experiência ruim com filme sobre Lula em ano de campanha

Fonte: Bandeira da fonte

A distribuidora responsável por ‘Dark Horse’, cinebiografia de Jair Bolsonaro, decidiu que só vai lançar o filme depois da eleição.
O diretor-geral da Europa Filmes, Wilson Feitosa, afirmou que uma experiência prévia com o lançamento em ano eleitoral de uma produção sobre o presidente Lula contribuiu para a decisão.
Dark Horse entrou no centro de uma polêmica depois que mensagens mostraram o candidato do PL à Presidência, Flávio Bolsonaro, pedindo dinheiro ao banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, para bancar a produção.
A conversa indica que ao menos R$ 61 milhões foram pagos.
Flávio chegou a prometer uma prestação de contas completa, mas não a apresentou.
O tema tem sido usado por aliados de Lula na tentativa de desgastar o adversário.
— A ideia de lançar Dark Horse apenas depois das eleições é minha.
Já tive uma experiência que não foi boa quando lançamos o filme “Lula, o Filho do Brasil” em ano eleitoral (o filme foi exibido nas salas em 2010).
Não é estratégico lançar antes.
Quero fazer o meu trabalho e, se possível, bem feito — afirmou Feitosa ao GLOBO.
A estreia chegou a ser projetada para setembro, às vésperas do primeiro turno, os planos mudaram.
Feitosa afirmou que Flávio não participa dos debates sobre a estratégia comercial do filme.
O executivo afirmou que a interlocução da distribuidora ocorre exclusivamente com a Go Up Entertainment, produtora responsável pela obra.
— Eu nunca tive contato nem com Flávio nem com aliados dele.
A minha participação é exclusiva em distribuir o filme e só tenho tratado diretamente com a produtora do filme — disse Feitosa.
A preferência da Europa Filmes por deixar o lançamento para depois da votação converge, no entanto, com uma avaliação que ganhou espaço no entorno de Flávio após as controvérsias envolvendo o financiamento de Dark Horse.
Interlocutores do candidato passaram a considerar mais conveniente que o filme não estreasse durante a campanha, diante do risco de o lançamento provocar uma nova rodada de questionamentos sobre a origem e o destino dos recursos usados na produção.
Nos bastidores da candidatura, essa cautela representa uma inversão de expectativas.
Antes de as fontes de financiamento do longa entrarem na mira de investigações, aliados enxergavam Dark Horse como uma oportunidade de manter Jair Bolsonaro presente na campanha mesmo diante das restrições impostas ao ex-presidente.
A obra, centrada em sua trajetória, poderia ajudar a mobilizar o eleitorado bolsonarista e reforçar a associação de Flávio ao legado do pai.
A avaliação mudou à medida que o próprio filme passou a exigir explicações do presidenciável.
Além da decisão estratégica da distribuidora, o projeto ainda tem etapas burocráticas a cumprir antes de chegar aos cinemas.
Dark Horse já obteve o Registro de Obra Estrangeira (ROE) na Agência Nacional do Cinema (Ancine), mas ainda não possui o Certificado de Registro de Título (CRT), necessário para sua exploração comercial no país.
Segundo Feitosa, não há atraso nesse procedimento.
A Europa pretende solicitar o certificado somente depois de concluir a estratégia de lançamento, já que o documento tem validade de cinco anos.
— O CRT será solicitado tão logo a gente tenha terminado a estratégia de lançamento do filme, coisa que ainda não está pronta.
O CRT tem uma validade de cinco anos, portanto não precisamos antecipar a solicitação.
Quanto ao lançamento, não temos ainda terminada a estratégia de lançamento, que incluirá a data de estreia — afirmou.
De ativo a desgaste
As controvérsias em torno de Dark Horse começaram a ganhar dimensão em maio, quando o site “The Intercept Brasil” revelou mensagens trocadas entre Flávio e Daniel Vorcaro, então dono do Banco Master, nas quais o senador buscava recursos para a produção.
Segundo a publicação, foram negociados R$ 134 milhões, dos quais R$ 61 milhões teriam sido efetivamente repassados.
Parte dos recursos teria transitado por uma empresa ligada a Vorcaro e pelo Havengate, fundo sediado no Texas, nos Estados Unidos, e controlado por um advogado próximo a Eduardo Bolsonaro.
A origem e o destino do dinheiro passaram a ser alvo de investigação.
A Polícia Federal abriu uma apuração para verificar se recursos relacionados ao filme foram usados para custear despesas de Eduardo nos Estados Unidos.
Até o momento, não há conclusão da investigação que aponte que isso tenha ocorrido.
Nesta semana, o caso voltou ao noticiário por outra frente.
O ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), autorizou a Polícia Federal a acessar provas reunidas pela Polícia Civil de São Paulo numa investigação que envolve a Go Up Entertainment.
O material poderá ser utilizado em uma apuração sobre a destinação de emendas parlamentares.
A produtora apresentou à Polícia Civil paulista uma perícia privada contratada pela defesa de sua proprietária, Karina Ferreira da Gama.
Com base em documentos fornecidos pela própria empresa, o laudo calculou em cerca de R$ 75,2 milhões os gastos com Dark Horse e afirmou não ter identificado emprego, no filme, de recursos públicos provenientes de outros contratos, emendas parlamentares ou da Lei Rouanet.
Como mostrou O GLOBO, o perito contratado pela produtora não acessou dados do fundo usado para bancar o filme.
Prestação de contas
Quando os primeiros questionamentos sobre o financiamento vieram à tona, em maio, Flávio afirmou ter pedido à produtora e ao fundo americano uma prestação de contas das despesas e disse esperar que as informações fossem apresentadas de forma transparente em até 30 dias.
Naquele período, também afirmou que poderia tornar público o contrato relacionado ao financiamento caso recebesse autorização de seus advogados.
Desde então, a Go Up apresentou a perícia privada no âmbito da investigação conduzida em São Paulo, mas não houve divulgação pública da documentação completa relativa ao financiamento e às despesas do longa.
Flávio, por sua vez, passou a tratar Dark Horse como um assunto superado.
Nesta semana, ao ser novamente questionado sobre a prestação de contas e a possibilidade de divulgar o contrato, afirmou que o caso envolvia recursos privados e direcionou as cobranças ao governo Lula.