Drex trava, e setor privado assume o protagonismo - QTU Questões do Universo

Drex trava, e setor privado assume o protagonismo

Fonte: Bandeira da fonte

Previsto para revolucionar o sistema financeiro global, o Drex vive hoje um compasso de espera.
A iniciativa do Banco Central (BC), que prometia transações mais eficientes, baratas e programáveis, teve o ritmo interrompido após o fim da segunda fase do projeto-piloto, em novembro de 2025.
Desde o seu lançamento, em 2023, o ecossistema reuniu 55 participantes - de bancos a empresas de criptoativos - para testar a compra, venda e resgate de títulos públicos digitais, além de 13 casos de uso baseados em contratos inteligentes (smart contracts).
Segundo o que o Valor apurou com diferentes fontes do mercado financeiro, o Drex só deve ser retomado em 2027 devido uma combinação de fatores.
O uso da tecnologia de registro distribuído (DLT, na sigla em inglês), que permite compartilhar e validar registros entre diferentes participantes de uma rede, não alcançou nos testes o nível desejado em termos de escalabilidade, privacidade e segurança.
Dentro do BC, existe também um debate sobre se a governança e a arquitetura do projeto serão centralizadas, como no Pix, ou coordenadas, como no Open Finance.
Além disso, há a percepção de um clima político desfavorável para se obter a aprovação, no Congresso Nacional, da emissão de uma moeda digital soberana (CBDC), como desejado originalmente.
“Uma alternativa seria uma moeda fiduciária cuja emissão ocorra em rede distribuída, ainda com a regulação do BC e da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), mas sem a necessidade de passar pelo Congresso”, diz Fernando Fontes, CEO da Cerc.
A registradora de ativos financeiros é um exemplo de como o mercado se movimenta para ocupar o vácuo momentâneo deixado pela interrupção do Drex.
A empresa lançou em julho deste ano uma plataforma de interoperabilidade que permite que um Fundo de Investimento em Direitos Creditórios (FIDC) registrado na Cerc compre uma duplicata escritural registrada na B3 e emitida por um fornecedor cujo devedor está conectado à Núclea, responsável pela infraestrutura por trás de pagamentos e transações financeiras no país.
A transferência de propriedade e a comunicação ao devedor são coordenadas entre os três sistemas.
Já a Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima) reuniu cerca de 50 instituições em um piloto para testar a tokenização de fundos e debêntures, representando esses ativos digitalmente em uma rede blockchain e automatizando etapas de sua emissão, negociação e gestão.
Os testes começaram em julho e a entidade pretende levar os aprendizados para discussões regulatórias com a CVM.
“Nosso objetivo é definir, na prática, padrões para que diferentes participantes possam operar os mesmos ativos sem criar mercados isolados”, diz Marcelo Billi, head de sustentabilidade, inovação e educação da Anbima.
Para a entidade, a adesão de 50 instituições é uma “sinalização muito forte” da demanda pelo novo mercado.
A B3 também desenvolve uma agenda própria de ativos digitais.
A companhia trabalha na Tokenizadora B3, voltada à tokenização de valores mobiliários, e na B3RL, stablecoin pareada ao real concebida para liquidar operações tokenizadas.
A experiência no piloto do Drex, no caso das debêntures, envolveu B3, BTG Pactual, Santander e Bradesco e mostrou que a digitalização do ativo é apenas uma parte do processo: é preciso integrar emissão, registro, liquidação, governança, segurança e requisitos regulatórios.
“A tokenização e a modernização da infraestrutura são temas estruturais.
É esperado que diferentes iniciativas avancem em paralelo”, afirma Luiz Masagão, vice-presidente de produtos e clientes da B3.
Na Núclea, a tokenização já chegou a operações com volume mensurável.
A empresa informa mais de R$ 1 bilhão em duplicatas mercantis tokenizadas.
No dia 7 de agosto, a companhia realizou a primeira escrituração de uma Duplicata Escritural em Produção Assistida, com transação real sob supervisão do BC.
A etapa, prevista para seguir até janeiro de 2027, serve para validar os fluxos e a integração entre os participantes do novo ecossistema.