A Organização das Nações Unidas (ONU) alertou, nesta quarta-feira, que o atual fenômeno El Niño — cuja intensidade pode ser a maior em mais de 70 anos — poderá empurrar pelo menos 49 milhões de pessoas para a fome aguda até o fim de 2027, com um dos maiores aumentos previstos para a América Latina e o Caribe, elevando para 274 milhões o total de pessoas incapazes de atender às necessidades diárias de alimentação em 45 países vulneráveis.
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Segundo relatório divulgado nesta quarta pelo Programa Mundial de Alimentos (PMA), há 81% de probabilidade de que o fenômeno seja muito forte, com temperaturas da superfície do Oceano Pacífico nos níveis mais elevados desde pelo menos 1982, o que pode torná-lo o episódio mais intenso desde 1950.
A análise considera 45 países onde o El Niño deverá alterar significativamente os padrões de chuva, as temperaturas e a frequência de enchentes e secas.
Nos países avaliados, o PMA estima que o número de pessoas em situação de insegurança alimentar aguda — famílias incapazes de atender às necessidades diárias de alimentação — aumentará de aproximadamente 225 milhões para 274 milhões, uma alta de cerca de 22%.
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O fenômeno deve atingir seu pico entre setembro e dezembro deste ano, mas seus efeitos deverão se estender ao longo de 2027, comprometendo futuras colheitas e reduzindo a produção agrícola.
Segundo o PMA, alguns países já enfrentam chuvas abaixo da média, enchentes e temperaturas excepcionalmente elevadas, enquanto outros deverão sofrer deterioração das condições durante as próximas temporadas de plantio e colheita.
— O El Niño representa uma enorme ameaça à segurança alimentar de milhões de pessoas que já vivem em situação de vulnerabilidade — afirma Carl Skau, diretor executivo interino do PMA.
— Quanto mais cedo ajudarmos as famílias a se preparar para esses choques climáticos, maior será nossa capacidade de salvar vidas e proteger os meios de subsistência.
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Jean-Martin Bauer, diretor do Serviço de Análise de Segurança Alimentar e Nutrição do PMA, destaca que episódios anteriores do El Niño já desencadearam crises alimentares em larga escala.
— Esses são eventos que, no passado, desencadearam fome em larga escala — diz.
Embora os mercados globais de alimentos tenham iniciado este ciclo do El Niño em uma posição relativamente favorável, após boas colheitas registradas em 2025, Bauer alertou que o conflito no Oriente Médio e eventuais perdas de safra relacionadas ao clima poderão pressionar novamente os preços dos alimentos, dificultando o acesso de famílias vulneráveis.
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O diretor também afirmou que os cortes no financiamento de doadores dos Estados Unidos e da Europa reduziram a capacidade do PMA de monitorar a evolução da insegurança alimentar.
Segundo ele, a diminuição da coleta de dados pode dificultar a identificação rápida de novas crises justamente em um momento em que o acompanhamento frequente é essencial para antecipar os impactos do El Niño.
Regiões mais afetadas
De acordo com o relatório, a América Latina e o Caribe poderão registrar mais de 16 milhões de pessoas adicionais em situação de insegurança alimentar aguda — um dos maiores aumentos.
A América Central deverá apresentar o maior aumento proporcional entre todas as regiões analisadas, de 83,1%.
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No leste e no sul da África, mais de 18 milhões de pessoas poderão enfrentar deterioração da segurança alimentar, um aumento de 26%, especialmente em países onde as próximas estações chuvosas são decisivas para a produção agrícola.
A África Austral é considerada particularmente vulnerável porque grande parte da população depende da agricultura de subsistência alimentada pelas chuvas.
Na Ásia e no Pacífico, cerca de 8,2 milhões de pessoas adicionais poderão enfrentar fome aguda, enquanto a África Ocidental e Central pode registrar aumento de 12% na insegurança alimentar, afetando quase 6 milhões de pessoas.
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As previsões também apontam déficit de chuvas em partes do leste da África, da região do Sahel, da América Central e do Caribe, enquanto o risco de enchentes poderá aumentar na Somália e em áreas vizinhas.
No sul e no sudeste da Ásia, secas, monções irregulares e enchentes localizadas podem comprometer a produção agrícola.
Preparação antecipada
Segundo o PMA, os impactos ainda variam conforme a região e permanecem sujeitos a incertezas, mas governos e organizações humanitárias precisam agir antes que as emergências se agravem.
Em parceria com a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), o Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA) e outros organismos, o PMA mantém planos preventivos em mais de 50 países.
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Desde maio, a agência acionou programas de ação antecipada em países como Sudão do Sul, Chade, Mauritânia, Uganda, Guatemala e El Salvador, destinando mais de US$ 14 milhões (aproximadamente R$ 71,6 milhões, na cotação atual) para apoiar cerca de 500 mil pessoas por meio de assistência financeira, seguros contra desastres e outros mecanismos de resposta rápida.
Richard Choularton, diretor do Serviço de Clima e Resiliência do PMA, afirmou à Reuters que os programas de ação antecipada já alcançaram mais de 1,3 milhão de pessoas em 18 países neste ano.
Segundo o relatório, a experiência de eventos anteriores mostra que cada US$ 1 (R$ 5,12) investido em ações preventivas pode evitar entre US$ 3 (R$ 15,36) e US$ 7 (R$ 35,85) em perdas econômicas e custos futuros de resposta humanitária.
(Com Bloomberg)
