Daqui a exatamente um mês, o Rock in Rio começa sua edição de 2026.
Para quem perguntou se vai ter rock, a resposta é: vai ter bastante.
E se vai ter novidades do rock? Representantes de uma nova geração, muito ligada no seu tempo, estarão marcando presença na programação.
Silvia Buarque: ‘Sou mulher, mãe, atriz e mastectomizada’
Doce Maravilha: Como Paulinho da Viola e Maria Bethânia estão se preparando para o reencontro no palco
Em especial, uma série de artistas que pegam o rock pesado, e o despem de sua ortodoxia musical e de gênero e raça.
Um exemplo é a dupla inglesa Nova Twins, que toca no primeiro dia do festival, 4/9, abrindo a noite do Palco Mundo, que ainda terá The Hives, Rise Against e os Foo Fighters: mulheres mestiças, que têm tanto a ver com o peso de um Rage Against The Machine quanto o r&b de Beyoncé.
No mesmo dia, o Palco Sunset recebe o grupo inglês Hot Milk, outra junção de peso e de elementos pop, que tem como vocalista e figura de frente uma mulher, Hannah Mee.
No dia 5, o Palco Supernova vem com MC Taya, artista da Baixada Fluminense que desafia os padrões do rap ao juntar na receita o funk dos bailes e as guitarras, baterias e gritos avassaladores do Slipknot.
E o Sunset traz o enigma Poppy — Moriah Rose Pereira, youtubber e cantora americana, primeira artista solo feminina a ser indicada para o Grammy de melhor performance de metal, mas que passa ainda por gêneros como rock industrial, eletrônico, K-pop e J-pop.
Com show também marcado para São Paulo, no dia 6 de setembro (no Cine Joia), o Nova Twins já conta com um considerável fã-clube brasileiro, apesar de nunca ter tocado no país.
— Ouvimos tantas histórias incríveis sobre o Rock in Rio, sobre a energia que as pessoas trazem e a empolgação...
estamos ansiosas para vivenciar isso, porque nunca estivemos aí antes — diz a vocalista e guitarrista Amy Love.
São dez anos desde o primeiro EP da dupla.
— Tocamos em muitos locais independentes pelo Reino Unido, principalmente em Londres.
Estávamos na cena punk e na cultura faça-você-mesmo, que permanece conosco até hoje e que amamos.
E tivemos muita sorte de sermos acolhidas por várias bandas como Rage Against the Machine, Prophets of Rage, Muse, Skunk Anansie e Foo Fighters, nos acolheram e nos levaram em turnê.
Então foi incrível receber conselhos dessas lendas como Elton John — conta a cantora e baixista Georgia South.
Sim, Sir Elton John.
Atração principal do dia 7, ele é um grande admirador do Nova Twins.
E tudo começou quando o cantor disse na TV que elas eram um dos seus artistas favoritos entre os que se apresentariam no festival de Glastonbury de 2023 — e ainda sacou um LP em vinil delas para provar.
— Elton nos recebeu de braços abertos, dizendo coisas lindas, palavras de incentivo, apoio e conselhos.
Isso, vindo de uma pessoa como ele, que sempre trabalhou fora das normas sociais, que era extravagante e obviamente gay, alguém que fazia tudo de forma diferente de todo mundo e mesmo assim conseguiu se destacar, nos deu esperança de que podemos ser diferentes e ainda assim fazer o nosso trabalho — recorda-se Amy.
‘O que a gente faz com isso?’
Georgia South diz que no Reino Unido “a indústria meio que evita a música pesada, especialmente quando feita por mulheres”.
— Eles preferem mais o indie (feito por mulheres).
Então, sendo mulheres negras tocando música pesada, eles ficam tipo: “O que a gente faz com isso? Em qual playlist isso entraria? Qual gravadora representaria elas?” Eles simplesmente não têm ideia! — indigna-se.
— Mas sempre fomos grandes sonhadoras e seguimos em frente com tudo.
Para Amy Love, a diversidade musical do Nova Twins tem a ver com a sua cultura.
— Nós duas temos ascendência mista: eu sou iraniana-nigeriana, a Georgia é inglesa-jamaicana.
Então acho que nunca sentimos que tínhamos que escolher, sempre misturamos em tudo o que fazemos, seja comida, nossa identidade, nossa aparência, nossa forma de nos encaixar na sociedade.
Nunca houve um espaço específico para nós.
E isso se refletiu na forma como tocamos, porque não sentimos que tínhamos que fazer parte de alguma subcultura ou grupo.
Georgia acha divertida a forma com que as Nova Twins exploram o som de guitarra e baixo com pedais de efeito “em um mundo onde é tão fácil criar coisas em um laptop”:
— Gostamos de resgatar um pouco daquela vibe old school de pedais e equipamentos analógicos, porque cada som é único.
Adoramos a autenticidade dos amplificadores reais.
Nos nossos shows, não usamos guitarra ou baixo pré-gravados, porque tudo pode mudar ou soar diferente durante a apresentação, essa é a graça.
Amy Love revela que, quando as Nova Twins começaram, muitas vezes eram as únicas mulheres nos festivais.
— E havia poucas pessoas negras lá.
Então é encorajador ver que houve uma mudança e que sempre há bandas femininas incríveis surgindo agora.
Muitas garotas jovens vêm falar com a gente e dizem: “É, a gente começou a aprender guitarra.
A gente começou a aprender baixo.
A gente montou uma banda.” — festeja.
— Acho que as pessoas estão começando a se informar sobre a origem do rock e da música pesada em geral, que é o blues.
E ele sempre fez parte da cultura negra.
Acontece que não nos era permitido entrar nesses espaços por causa da história da música.
Não muito tempo atrás, Michael Jackson nem sequer podia tocar na MTV!
Figura de frente do Hot Milk (com quem já esteve em São Paulo em 2023), Hannah Mee diz que deve muito da diversidade musical de sua banda ao fato de ser de Manchester, cidade que já pariu grandes bandas como Joy Division, New Order, Smiths e Oasis.
— Aqui é um caldeirão de gêneros musicais, mas o rock é o que ouvimos desde a infância.
Não gostamos de nos limitar a um único estilo, porque não acho que a vida seja feliz assim.
Gosto de ser flexível.
E acho que uma boa música é uma boa música.
Não importa o gênero.
O Hot Milk é, definitivamente, uma banda inglesa.
— Vivemos num lugar onde há um certo choque de classes sociais, e precisamos dessa válvula de escape.
Acho que ficamos com raiva e isso acaba se manifestando na nossa música porque é necessário.
Existe uma espécie de desejo de escapar da situação em que nos encontramos, e também acho que chove muito, então pensamos: “Precisamos fazer algo para dissipar essa nuvem cinzenta que paira sobre nossas cabeças!.” — diz Hannah, que é formada em Ciências Políticas.
— Existe um cenário político tenso, estão acontecendo coisas totalmente novas, sem documentação, com as quais estamos lidando.
Mas acho que a Humanidade ainda está no centro de tudo isso e há muitas coisas pelas quais ser feliz.
Under Christ: Cresce o movimento de cristãos roqueiros com festivais nacionais, bandas de metalcore e a recente volta do Rodox
Ela diz que, no mundo do rock, nunca fui maltratada por ser mulher.
Mas...
— É porque não permito! Precisamos cultivar nas mulheres e nas meninas a mentalidade de que elas têm o direito de estar nesses espaços.
E de se impor, porque você só será maltratada se permitir que te tratem mal.
Então, este é o meu palco por 30 minutos.
É o meu show.
Se você não gosta, que se dane! — resume Hannah, que promete dar tudo de si no Rock in Rio e espera retribuição do público.
— Tudo que peço da plateia é: “Acompanhem a minha energia.
É só isso que eu quero, e darei 110% de mim para vocês!”
MC Taya, por sua vez, promete no Rock in Rio dar um spoiler do seu primeiro álbum, que está sendo gravado junto com os comparsas Pedro Spieker (DJ e guitarra) e Salva (bateria).
Como cria da Baixada, ela diz ter presenciado muitos encontros de mundos musicais.
— De um lado, eu estava escutando a Furacão 2000 e do outro lado estava escutando o Slipknot, como não fosse nada, embora sempre tivesse o tiozão que falava “odeio funk!” e a galera do funk que dizia “ah, rock é coisa de lerdão, branco, nerd, elite, burguesia!” — ilustra ela.
— Sempre me emocionei muito com funk e com rock, ainda mais hardcore e metal.
E aí, nisso, vim para São Paulo, onde acabei conhecendo os dois.
Um é gaúcho (Spieker) e o outro é daqui (Salva).
Taya se vê como uma espécie muito natural de ponte entre os mundos musicais (“afinal a gente vê que entre o nosso público jovem é muito normal curtir os dois”), mas deixa clara a sua queixa de que “a comunidade negra esqueceu que o rock é preto e não tem vontade nenhuma de nos aproximar da gente.”
— Nós, o Black Pantera, o Punho de Mahin, estamos vindo com um posicionamento antirracista, e isso é muito novo para o rock.
Mas a gente já é mais abraçado pela cena do metal e fica muito feliz por isso.
E tem muitos bailes de funk que chamam a gente para colar.
O rap, não, o rap é mais fechado.
O (rapper) FBC foi a única pessoa que abriu portas, me chamou para fazer um feat.
E olha que o projeto MC Taya começou no rap! — revolta-se.
— É interessante pensar que todo mundo que nos abraça, que gosta da nossa linguagem, é justamente quem entende a necessidade da renovação.
O rap está entrando naquele momento triste, conservador, reaça, esquisito, em que o rock esteve há 10, 15 anos.
Ela, contudo, se diz feliz com o movimento do Rock in Rio de abrir para o novo.
— Todo mundo ficava reclamando muito, né? “Ai, é só Guns’N’Roses, é só Metallica, Aerosmith...”, enfim, os clássicos e tal.
Porque tem bandas novas da nova geração que são super legais, que estão resistindo ao tempo e ao saudosismo e que estão experimentando.
A gente fica muito feliz de estar no line up com uma nova geração.
