Altamir Pettersen, advogado de 86 anos, não é obrigado a votar.
Mas quem disse que ele pretende ficar em casa no próximo dia 4 de outubro? Ele faz questão de fazer valer o título de eleitor.
E o motivo é simples: ele não quer se abster de decidir os rumos do país:
'A principal demanda é o direito à moradia e ao amparo social público.
Os governos precisam investir na criação de instituições públicas de hospedagem, moradias assistidas e hotéis públicos para idosos.
A assistência à terceira idade é um dever do Estado e um direito humano.'
Altamir faz parte de um grande contingente de pessoas com 60 anos ou mais aptas a votar, que somam 23,5% do eleitorado.
São mais de 37 milhões de eleitores nessa faixa etária, de acordo com a Justiça Eleitoral, um aumento de 14% em relação às eleições de 2022.
E esse número cresce desde 2010.
A disputa pelo voto dos idosos deve ser acirrada entre os dois candidatos que lideram as pesquisas eleitorais: Lula, do PT, e Flávio Bolsonaro, do PL.
E ambos já deram sinais de que querem se aproximar do público mais velho.
No plano de governo do candidato à reeleição, estão programas voltados à saúde, como o atendimento domiciliar aos idosos com limitações funcionais, e à empregabilidade de pessoas com mais de 60 anos a partir de parcerias com empresas privadas.
Já Flávio Bolsonaro, do PL, propõe a ampliação do acesso a exames preventivos e a instituições de longa permanência.
E apresenta o projeto de um aplicativo para familiares monitorarem o idoso.
Mas especialistas apontam que os tempos são outros, e que o público mais velho não pode ser resumido a temas como saúde.
Para Maria Augusta Orofino, votante de 70 anos e especialista em inovação para o público 50+, a maneira de enxergar a longevidade e o papel dos idosos no debate público precisa mudar.
'O eleitor mais velho é plural e tem demandas que vão muito além da saúde ou da aposentadoria.
Trabalho, educação, mobilidade, tecnologia, cultura, propósito, segurança, empreendedorismo, relações intergeracionais e qualidade de vida também importam.
Então nós precisamos parar de falar sobre envelhecimento a partir da falta.
A longevidade mudou.
Essas pessoas não querem apenas viver mais, querem continuar participando, decidindo e sendo reconhecidas como sujeitos ativos da sociedade.
A comunicação política precisa enxergá-las assim.'
Lúcia de Fátima Reis, contabilista de 71 anos, é um desses exemplos.
Ela, que se considera super ativa, vai votar pensando em políticas que sejam voltadas a melhores condições de trabalho.
'Tem uma coisa que eu acho que o Brasil deveria olhar com outros olhos: mercado de trabalho.
Eu, por exemplo, sou uma pessoa completamente ativa, gosto de sair, gosto de me sentir útil, trabalhar, e quando você se aposenta, principalmente, o mercado de trabalho se fecha totalmente.
As pessoas acham, os empresários acham que o idoso não serve mais para nada, que virou inútil, principalmente depois que se aposenta.
Então eu acho que eles poderiam olhar para isso, abrir mercado.
E estar no mercado de trabalho já mexe com a tua mente, com a tua autoestima.
Eu acho isso de suma importância'
O combate às filas do INSS, um gargalo histórico, também aparece como prioridade de várias candidatos.
Aliás, Flávio Bolsonaro deve explorar o tema junto com o vice, Alfredo Gaspar.
O deputado federal foi relator da CPMI do INSS, que investigou desvios nas aposentadorias e pensões.
Mas uma coisa é ter propostas para os idosos, outra é saber comunicar.
E, em tempos de redes sociais, qual é o melhor meio de falar com os eleitores 60+?
Especialistas apontam que são...
as próprias redes sociais! Uma pesquisa recente do IBGE mostrou que o uso de internet chega a quase 75% dos idosos.
Isso quer dizer que as dancinhas do TikTok e as trends do Instagram chegam a eles? Não necessariamente.
O especialista em Marketing de Campanha, Marcelo Victorino, explica que outras redes têm maior adesão desse público.
O público mais velho costuma utilizar muito mais o Facebook do que o Instagram, mas eles também usam de forma predominante o WhatsApp.
Então, ter uma estratégia com formação de grupos com alimentação quase que diária para o WhatsApp se faz muito importante.
Como é que você faz segmentações dentro ainda de um nicho? Você pode fazê-las baseadas em região.
O público idoso de uma cidade com menos de 30 mil habitantes é completamente diferente do idoso de uma capital.'
Para além disso, o especialista fala que, para ganhar o eleitor com mais de 60 anos, o candidato precisa mostrar uma aproximação mais duradoura com esse grupo.
Caso o candidato seja jovem, é essencial que ele se alie a uma figura que inspire confiança nos mais velhos.
Para Angelo Santos, de 71 anos, não basta acompanhar o candidato apenas no período eleitoral.
'Entendo que acompanhar a política é uma atividade permanente.
Escolho um candidato não pelo que ele pode fazer por mim, e sim pelo que ele quer fazer para aqueles que mais precisam.
Ele trabalha por uma educação pública de qualidade inclusiva? Ele trabalha por uma saúde pública gratuita de qualidade? Ele pensa em um país se desenvolvendo técnica e economicamente de maneira autônoma? São alguns dos pontos que me mobilizam para votar, sempre, enquanto as pernas aguentarem.'
Nas últimas pesquisas Quaest e Datafolha, o candidato Lula aparece numericamente na frente de Flávio Bolsonaro nas intenções de voto das pessoas com mais de 60 anos.
