Na semana passada, a dublê Devyn Dalton recebeu, muito provavelmente, o maior elogio de sua vida.
Ela estava na Nova Zelândia filmando seu próximo projeto quando foi acordada às 4h da manhã pela vibração insistente do celular.
"Fiquei pensando: 'O que está acontecendo?'.
Meu telefone simplesmente explodiu de tantas mensagens", contou Dalton, de 34 anos.
O motivo era que Matt Damon, intérprete de Odisseu na adaptação da epopeia de Homero dirigida por Christopher Nolan, havia dito, durante uma entrevista, que Dalton tinha "os melhores braços que já vi".
Amigos começaram a enviar para ela trechos da entrevista, que rapidamente viralizou na internet.
Damon comentava uma das cenas mais importantes do filme quando corrigiu gentilmente o entrevistador, que havia presumido, por engano, que os bíceps exibidos na sequência eram dele.
Na verdade, pertenciam a Dalton, que talvez surpreenda muita gente por ser sua dublê.
Para começar, ela é uma mulher substituindo um ator homem; além disso, mede cerca de 1,37 metro de altura, enquanto Damon tem aproximadamente 1,78 metro.
Segundo o ator, trata-se de um truque cinematográfico.
Para filmar a batalha contra os lestrigões — gigantes antropófagos da mitologia grega — Nolan utilizou uma técnica conhecida como perspectiva forçada, que faz o exército de Odisseu parecer minúsculo.
Uma imagem de Dalton vista de costas nessa cena, empunhando uma espada e prestes a atacar os gigantes, foi usada em um dos pôsteres do filme.
Nascida e criada no Canadá, Dalton começou sua carreira como dançarina e passou a trabalhar como dublê em 2011, depois de ser escalada para a trilogia "Planeta dos Macacos".
Entre seus trabalhos mais recentes estão "Weapons" e "The Last of Us".
Ela já participou de tantas sequências de ação intensas que nunca conta à mãe exatamente no que está trabalhando porque, segundo ela, "isso a deixa apavorada".
"Eu apenas digo que vou trabalhar", afirmou.
"A Odisseia" é a primeira vez que Dalton atua como dublê de um grande astro de Hollywood — um feito raro em uma indústria na qual, segundo o sindicato SAG-AFTRA, as mulheres representam pouco mais de 20% dos profissionais de dublês.
Em entrevista ao The New York Times, editada e condensada para maior clareza, ela falou sobre esse trabalho e sobre sua carreira.
É comum uma mulher ser dublê de um protagonista masculino? Você já tinha feito isso antes?
Definitivamente, não é comum.
Acho que, historicamente, homens dublaram mulheres com mais frequência na indústria.
Mas, no caso das cenas de ação, o principal é: quem é a pessoa fisicamente mais adequada para o que a produção procura? E, mais importante ainda, quem tem o conjunto específico de habilidades necessário? Cada vez mais, com figurino, cabelo e maquiagem, conseguimos fazer a mágica do cinema e transformar as pessoas.
O gênero deixa de ser tão importante.
Esta é a primeira vez que faço a dublagem de um protagonista de Hollywood.
Nunca imaginei que isso faria parte do meu currículo.
Você já recebeu um elogio tão específico de um ator principal?
Isso é incomum porque, embora você esteja diante das câmeras, se fez seu trabalho direito como dublê, o público nem deveria perceber que é você.
Parte do nosso trabalho é justamente permanecer invisível.
Então preciso agradecer muito ao Matt por ter sido tão generoso.
Você e Matt Damon trabalharam juntos no set para montar a coreografia dessa luta?
Sim.
Na maior parte dos filmes em que trabalhei, você acaba dividindo o set com o ator no mesmo dia, porque ambos fazem parte da mesma sequência e interpretam o mesmo personagem.
Quando vou dublar alguém, observo detalhes como: com qual pé a pessoa dá o primeiro passo? Todo mundo também tem pequenos trejeitos — pode inclinar o corpo mais para um lado ou se mover de determinada maneira.
Estudo tudo isso e tento reproduzir exatamente.
É isso que faz a cena parecer convincente na tela.
Você precisou de algum treinamento específico para esse papel?
Isso é resultado de anos desenvolvendo minhas habilidades.
Tento ser muito versátil, treinando de várias maneiras diferentes para estar sempre pronta.
Assim, quando o telefone toca, penso: "Tudo bem, estou pronta para ir."
Essa é a realidade do trabalho de dublê: o treinamento nunca termina.
No passado, fiz algumas cenas de luta subaquáticas muito interessantes e, por isso, fiz cursos voltados para segurança na água, apneia e adaptação à água fria, porque muitas vezes você não trabalha em ambientes aquecidos e precisa aprender a controlar a temperatura do corpo.
Além disso, está usando figurino e maquiagem e precisa permanecer debaixo d'água com os olhos abertos.
Já houve alguma cena que a deixou com medo?
Acho que o medo, para mim, sempre vem da cobrança que faço de mim mesma.
Tenho padrões muito altos e quero sempre fazer um trabalho excelente.
