Depois de suspender o seu calendário de exposições, o Centro Cultural Correios, no Centro do Rio, garante que as mostras que já estavam em processo de produção estão mantidas — pelo menos no que diz respeito à programação prevista ainda para este ano.
Inicialmente, toda a agenda até dezembro estava sob risco de cancelamento, em meio à reestruturação financeira na estatal.
Em junho, como noticiou O GLOBO, a instituição havia comunicado a suspensão a artistas, curadores e toda a equipe de produtores, justificando que o momento era de readequação interna.
Parte dessas equipes já contava com quase toda a organização pronta para abrir as mostras desde o início do ano e estava receosa com a possibilidade de não serem apresentadas, tendo em vista que era desejo de muitas produções estar em cartaz no período da ArtRio, entre 16 e 20 deste mês para o público geral, quando a capital estará movimentada por pessoas do circuito.
A decisão do centro cultural, portanto, trata de manter o compromisso firmado com os realizadores.
Prejuízo de R$ 5,6 bilhões
O movimento ocorre enquanto a estatal que mantém o centro cultural passa por uma grave crise, podendo encerrar 2026 com o pior resultado de sua história.
No primeiro semestre do ano, o prejuízo nos Correios chegou a cerca de R$ 5,6 bilhões.
Por meio de uma nota enviada ao GLOBO, a empresa afirma que está revisando o seu modelo de cessão de uso do espaço “com foco na otimização de recursos e na sustentabilidade”.
Para o ano que vem, os Correios devem elaborar novas diretrizes e critérios para a ocupação do centro cultural, que ainda não foram divulgados: “As tratativas com os proponentes e as produções culturais estão em curso”, afirma o texto.
Atualmente em cartaz, desde 19 de agosto, a exposição “Matéria familiar”, de Maria Cherman e Nathalie Ventura, avó e neta, com curadoria de Ana Carla Soler, faz parte dessa orientação de tentar cumprir o calendário previsto para este ano.
A mostra, na verdade, estava marcada para abrir em 8 de julho.
— Os Correios sempre representaram uma grande oportunidade para muitos artistas, principalmente para aqueles que buscam fazer as suas primeiras exposições individuais.
É uma oportunidade de entrada no mercado — afirma Nathalie.
Centro Cultural Correios, no Centro do Rio
Leo Martins
O caos na programação da instituição tem deixado realizadores espantados.
Uma das exposições suspensas, segundo relato ouvido pela reportagem, já tinha obras produzidas, texto elaborado e toda a organização encaminhada.
Sem uma resposta concreta, a mostra foi cancelada pela própria equipe.
Quando o centro cultural finalmente procurou os responsáveis, oferecendo uma nova data com apenas dez dias de antecedência, a exposição já estava comprometida com um outro espaço.
Futuro incerto
Enquanto isso, galerias já preferem desconsiderar o espaço temporariamente para futuras exposições de seus artistas, a ideia é esperar para saber o que acontecerá após a reestruturação.
A instituição é sempre muito procurada por produções de artistas em começo ou meio de carreira em parte pelos custos.
O Centro Cultural Correios cede apenas o espaço, e essas equipes arcam com todas as despesas para colocar a exposição de pé (pacote gráfico, montagem, iluminação, curadoria).
Ainda assim, em salas menores, alguns projetos podem ser realizados com orçamentos a partir de R$ 10 mil, um valor não tão alto em relação a outros espaços.
Além dos valores, o espaço costuma ser procurado em razão de sua localização, em um importante circuito artístico no Centro do Rio que inclui ainda o Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), Casa Brasil e o Paço Imperial, além de galerias e outros espaços expositivos que se instalaram na região nos últimos anos.
Na direção artística de “Reencantar a terra”, de Matheus Ribs, atualmente em cartaz, e de uma individual de Thix, ainda não aberta no local, Carla Oliveira observa que a visibilidade da instituição é importante para a carreira dos artistas, mas teme pelo futuro do espaço e pela sua continuidade como centro cultural que reúne diferentes vertentes da arte.
— É uma instituição que joga muito os artistas para cima.
Dali, a gente tem a oportunidade de acessar grandes acervos.
Tem potencial de alavancar carreiras inclusive de artistas que muitas instituições, às vezes, não abrem (espaço).
Geralmente, as pessoas querem algo que já está acontecendo — comenta.
— Quando a cidade perde, ou passa pela possibilidade de perder mais um espaço, todo o cenário perde com isso
