Todos se calam para ouvir o que Malala Yousafzai tem a dizer.
Apesar de não falar português, a ativista paquistanesa, de 29 anos, não precisou de intérprete para entender o carinho dos brasileiros que lotaram o Píer Mauá durante o primeiro dia do Rio Innovation Week, na última terça-feira.
Antes da concorrida palestra, em sua terceira passagem pelo Brasil, Malala recebeu a ELA para uma entrevista de dez minutos, carregando uma doçura na voz que contrasta com a aspereza dos temas que atravessam sua trajetória.
Aos 15 anos, quando estava dentro do ônibus escolar, em Swat, região do Paquistão, foi atingida por três tiros na cabeça, disparados pelo Talibã.
Na época, já chamava a atenção por defender publicamente o direito das meninas ao estudo.
“Nunca imaginei que seria conhecida por tudo que sou hoje.
Mas o que mais me ajudou a entender quem me tornei foram as amizades, o amor e minha família”, declara, na companhia do marido, Asser Malik.
Malala e o marido, Asser Malik
Reprodução/Instagram
Após o atentado, conseguiu exílio em Birmingham, na Inglaterra, e, no ano seguinte, criou, ao lado do pai, Ziauddin Yousafzai, o Fundo Malala, organização internacional dedicada a garantir 12 anos de educação gratuita e de qualidade para garotas em todo o mundo.
O trabalho lhe rendeu o Nobel da Paz em 2014, tornando-a a pessoa mais jovem a receber a honraria.
“Aos 17, achava que precisava consertar o mundo sozinha”, afirma Malala.
“Ficava me culpando por muitas meninas ainda estarem fora das escolas.
Com o passar do tempo, percebi que uma pessoa pode iniciar um movimento, mas a verdadeira transformação só acontece quando muitas se unem em torno da mesma causa.”
Confira, a seguir, os melhores trechos da entrevista.
ELA: É a sua terceira vez no Brasil.
Como tem sido?
Malala: Gosto muito de estar no Rio.
É uma cidade bonita, e amo as pessoas daqui.
Adoro ver como as brasileiras estão comprometidas com a luta pela igualdade de gênero.
ELA: Por aqui tem se falado muito sobre comunidades misóginas on-line, que influenciam jovens e, em alguns casos, levam à violência sexual...
Malala: Quando defendo o direito de estudo das meninas, também penso no papel dos meninos, não como uma reflexão tardia, mas como parte do próprio sistema educacional.
Ao discutirmos a luta pela igualdade de gênero, não podemos falar apenas com quem já concorda conosco.
Precisamos incluir os homens e aqueles que ainda têm uma compreensão equivocada do feminismo, que fala sobre direitos iguais para todos, nunca sobre excluir alguém.
ELA: E quais são seus exemplos positivos de masculinidade?
Malala: Tenho dois irmãos mais novos, que foram muito bem educados pelos nossos pais.
Na minha própria luta, não estava sozinha.
Jamais teria conseguido me posicionar se não tivesse o apoio do meu pai.
E, claro, meu marido, que é um grande companheiro.
ELA: Como você avalia o papel que a inteligência artificial desempenha na educação?
Malala: Há vantagens e desvantagens.
Tudo depende da forma como utilizamos.
Não sou especialista, mas sei que, quando olhamos para o desenvolvimento dessas ferramentas, frequentemente minorias ficam de fora.
A tecnologia tem enorme potencial para tornar a educação acessível em algumas das regiões remotas e menos atendidas do mundo, mas jamais de substituí-la.
ELA: Abriria mão de todo o reconhecimento para nunca ter vivido a violência que sofreu?
Malala: Sinceramente, nunca olho para trás, porque há uma visão de futuro que me mantém em movimento.
Muitas coisas aconteceram na minha vida desde então, e nunca imaginei que seria conhecida por tudo que sou hoje.
Cresci muito como pessoa ao longo desses anos, mas o que mais me ajudou a entender quem me tornei foram as amizades, o amor e a minha família.
Os acontecimentos da vida, muitas vezes, não estão sob nosso controle.
O que aconteceu comigo aos 15 anos, quando fui atacada, jamais deveria ter acontecido.
Ninguém deveria ser punido ou morto por ousar defender o seu direito à educação.
ELA: Sua dor não define quem você é.
O que faz para se sentir alegre e em paz?
Malala: Duas coisas me dão muita alegria.
A primeira é o esporte.
Virei uma grande fã de golfe.
Comecei a praticar há alguns anos, como uma brincadeira para provocar meu marido, dizendo que talvez eu fosse melhor do que ele.
Ontem, tentei jogar vôlei de praia por aqui, sei que vocês adoram, mas toda aquela areia nos pés...
Muito difícil! A segunda é a leitura.
Adoro ler livros escritos por mulheres.
Recentemente, li “O correspondente”, de Virginia Evans, também gostei bastante de “Heart the lover”, de Lily King, um romance muito bonito.
Malala no vôlei de praia
Reprodução/Instagram
Em passagem pelo Brasil, Malala Yousafzai fala sobre IA na educação e se arrisca no vôlei de praia: 'Aquela areia nos pés... Muito difícil'
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