A ala progressista do Partido Democrata conquistou uma vitória de destaque com a vitória de Abdul El-Sayed nas eleições primárias para o Senado dos Estados Unidos em Michigan, segundo projeções divulgadas nesta quarta-feira.
O resultado fortalece o discurso antiestablishment do partido às vésperas das eleições legislativas de novembro.
El-Sayed, cuja campanha se concentrou em saúde pública, economia e no fim da ajuda militar incondicional dos Estados Unidos a Israel, tornou-se o primeiro candidato progressista a vencer uma prévia estadual em um Estado conquistado pelo presidente Donald Trump na eleição de 2024.
Em novembro, ele enfrentará o ex-deputado republicano Mike Rogers.
A votação de terça-feira, vista como um teste decisivo sobre os rumos do Partido Democrata, terminou em disputa apertada.
El-Sayed derrotou por pequena margem a deputada federal Haley Stevens, candidata moderada apoiada pela cúpula do partido e por grupos pró-Israel.
Com 99% dos votos estimados apurados até às 10h do horário da Costa Leste dos EUA desta quarta-feira (11h do horário de Brasília), El-Sayed liderava Stevens por 48,5% a 47,5%, segundo a Associated Press.
A AP e a CNN declararam sua vitória horas depois de a NBC News fazer o mesmo.
"Dinheiro fora da política.
Dinheiro no seu bolso.
Medicare para Todos", escreveu El-Sayed na rede X ao declarar vitória.
O presidente Donald Trump ironizou a vitória do progressista em publicação na plataforma Truth Social e a classificou como "uma ótima notícia para o Partido Repúblicano".
"El-Sayed, um comunista fracassado que odeia os judeus e Israel, é o vencedor projetado em sua disputa contra a socialista.
Como de costume, as pesquisas erraram feio desta vez.
Não se esperava que ela tivesse um desempenho tão bom quanto teve.
Agora, as políticas malucas dos 'Dumocratas' [trocadilho para 'burros' e 'democratas'] só vão piorar!", acrescentou na postagem.
Estado-pêndulo do meio-oeste
A disputa colocou frente a frente progressistas e moderados em torno do apoio americano a Israel, tema que marcou diversas eleições primárias democratas neste ano.
Diferentemente de outras disputas em redutos tradicionalmente liberais, porém, tratava-se de uma eleição estadual em um importante Estado-pêndulo do meio-oeste, por uma vaga que os democratas consideram essencial para tentar recuperar a maioria no Senado.
Stevens contou com dezenas de milhões de dólares em gastos de um super PAC pró-Israel, e seus apoiadores argumentavam que ela teria mais chances de vencer a eleição geral.
Analistas apontavam como uma vantagem para El-Sayed o fato de Michigan abrigar uma das maiores comunidades árabe-americanas dos Estados Unidos, onde a oposição a Israel é particularmente forte.
O resultado deve ser acompanhado de perto por possíveis candidatos democratas à Presidência em 2028, que buscam uma estratégia para reconquistar o eleitorado após a derrota para Trump em 2024.
A vitória de El-Sayed tende a aprofundar o debate interno no partido sobre o apelo eleitoral do populismo econômico, das campanhas antiestablishment e de uma postura mais dura em relação a Israel.
Os resultados também refletem uma tendência mais ampla de deslocamento do eleitorado democrata para a esquerda.
Pesquisa Reuters/Ipsos divulgada na terça-feira mostrou que os eleitores que se definem como liberais representam hoje 71% dos democratas, ante 55% em 2012.
A ampla maioria considera essenciais políticas como saúde universal, ampliação do acesso ao aborto e aumento de impostos para grandes empresas e pessoas de alta renda.
O levantamento também revelou forte ceticismo entre democratas em relação ao apoio americano a Israel.
Apenas 16% defendem a continuidade da ajuda militar e econômica ao país, enquanto 57% se opõem a ela, sugerindo que as críticas de El-Sayed à política externa dos EUA refletem uma posição cada vez mais comum dentro do partido.
Primárias em cinco Estados
Eleitores de Kansas, Michigan, Missouri, Virgínia e Washington também escolheram na terça-feira candidatos democratas à Câmara dos Deputados.
Algumas dessas disputas podem ser decisivas para definir se os democratas retomarão o controle da Casa nas eleições de novembro.
Quatro desses distritos são considerados altamente competitivos.
Em um distrito da região de Lansing, em Michigan, o ativista climático progressista William Lawrence venceu a indicação democrata depois que dois candidatos moderados dividiram os votos do centro.
Em novembro, ele enfrentará o deputado republicano Tom Barrett.
No Estado de Washington, a deputada democrata Marie Gluesenkamp Perez e o líder republicano no Senado estadual, John Braun, avançaram para a eleição geral no sistema de prévia que classifica os dois candidatos mais votados.
O progressista Brent Hennrich terminou em terceiro lugar, distante dos líderes.
Na Virgínia, os democratas indicaram a ex-deputada Elaine Luria e a promotora do condado de Henrico, Shannon Taylor, em dois distritos considerados competitivos para novembro.
Já no Missouri, a democrata progressista Cori Bush fracassou na tentativa de recuperar sua cadeira na Câmara em uma revanche contra o deputado Wesley Bell, repetindo o confronto de 2024.
Um super PAC pró-Israel gastou mais de US$ 8 milhões para derrotar Bush em 2024 e mais de US$ 3 milhões neste ano para impedir seu retorno ao Congresso.
Bell é considerado amplo favorito para vencer em novembro, já que o distrito da região de St.
Louis é tradicionalmente democrata.
