As empresas estão descobrindo que já não basta fazer uma entrevista por Zoom e analisar o currículo e as respostas dos candidatos.
É preciso descobrir se eles são reais, ou versões digitais melhoradas.
Isso acontece porque hoje os candidatos podem usar IA para:
escrever currículos e cartas de apresentação praticamente perfeitos;
preparar respostas para entrevistas em tempo real;
realizar testes e exercícios técnicos;
usar ferramentas de deepfake para alterar rosto e voz;
e, em casos mais extremos, se passar por outra pessoa para conseguir uma vaga remota.
Uma pesquisa da Checkr com 3 mil gestores mostrou que 59% suspeitam que candidatos tenham usado IA para se apresentar de maneira enganosa durante processos seletivos.
Para evitar que a tecnologia seja uma vantagem competitiva desleal, os recrutadores estão adoAando táticas para transformar a entrevista em uma espécie de "prova de humanidade"
Uma delas, por exemplo, pede ao candidato para retirar o fundo virtual do Zoom e girar a câmera pelo ambiente, para verificar se ele realmente está onde diz estar e se não há outra pessoa ou computador ajudando nas respostas.
Outra começou a verificar o endereço de IP.
A empresa descobriu, por exemplo, candidatos que diziam estar na Flórida, mas que na realidade estavam no Brasil.
Há ainda empresas que pedem ao candidato para levantar ou movimentar as mãos diante da câmera, numa tentativa de detectar deepfakes ou pessoas que estejam digitando respostas fornecidas por outra pessoa ou por uma IA.
Em alguns processos, o candidato precisa manter as mãos levantadas enquanto a pergunta é feita — justamente para impedir que esteja digitando a resposta em outro computador.
A IA também está mudando os testes
Um dos efeitos mais interessantes é que os tradicionais testes para fazer em casa estão perdendo seu valoro perdendo valor**.
A lógica é simples: se o candidato pode entregar uma tarefa produzida por ChatGPT, Claude ou outra ferramenta, o teste deixa de revelar sua capacidade individual.
Uma startup entrevistada pelo jornal passou a fazer exercícios **ao vivo**, compartilhando a tela e até utilizando um Google Doc para acompanhar o candidato enquanto ele escreve.
A empresa consegue perceber se ele está realmente elaborando uma resposta ou simplesmente copiando e colando.
A situação chegou a tal ponto que uma executiva conta ter encontrado respostas que ainda continham uma frase típica do Claude — algo como uma sugestão automática para tornar o texto "mais conciso".
([The Wall Street Journal][1])
### O caso mais extremo: candidatos falsos
O problema não é apenas alguém usar IA para responder melhor a uma entrevista.
Há casos de pessoas que **não são quem dizem ser**.
O WSJ relaciona isso inclusive ao fenômeno dos trabalhadores norte-coreanos que conseguem empregos remotos em empresas americanas utilizando identidades roubadas.
Uma investigação recente do próprio jornal descobriu uma operação em que trabalhadores norte-coreanos usavam **identidades falsas, IA para currículos e entrevistas e até ferramentas de troca de rosto** para conseguir empregos nos EUA.
([The Wall Street Journal][2])
Isso transforma o problema de RH em uma questão também de **segurança corporativa e segurança nacional**.
### Algumas empresas estão voltando ao presencial
Uma consequência curiosa é que a IA pode acabar **fortalecendo o trabalho presencial**, justamente quando a tecnologia deveria facilitar o trabalho remoto.
Uma empresa citada pelo WSJ só contrata engenheiros depois de uma entrevista presencial.
Os testes de programação são feitos **no escritório, em um computador fornecido pela própria companhia**.
O CEO afirma ter percebido uma diferença crescente entre candidatos que conseguem raciocinar por conta própria e aqueles que parecem depender excessivamente da IA.
Para ele, há um sinal revelador: respostas produzidas com ajuda de IA tendem a ser excessivamente organizadas, mecânicas e previsíveis.
Já o raciocínio humano costuma ter **digressões, hesitações, conexões inesperadas e até erros**.
### A grande ironia
A reportagem mostra uma espécie de **corrida armamentista da contratação**:
**Candidato → usa IA para parecer melhor → empresa usa IA para detectar fraude → candidato usa ferramentas ainda mais sofisticadas → empresa aumenta a vigilância.**
E isso cria um problema paradoxal: **quanto melhor a IA fica em produzir uma representação convincente de uma pessoa, mais as empresas passam a desconfiar de tudo que acontece numa entrevista remota.**
A conclusão mais interessante do texto é justamente essa: em um mercado em que todo mundo pode apresentar um currículo impecável e respostas perfeitamente formuladas, **as imperfeições humanas podem voltar a ser uma vantagem competitiva**.
Como resume o CEO entrevistado pelo WSJ: *“The way to stand out in this moment is to be fundamentally human”* — destacar-se, neste momento, é ser fundamentalmente humano.
([The Wall Street Journal][1])
**Para uma pauta sobre futuro do trabalho, eu diria que o tema mais forte aqui é:** *“Quando a IA torna todos os candidatos perfeitos, as empresas começam a procurar justamente aquilo que a IA ainda não consegue reproduzir: o humano.”*
[1]: https://www.wsj.com/lifestyle/careers/remote-job-interview-applications-fraud-c9022cbe?utm_source=chatgpt.com "Employers Are Making Job Candidates Jump Through Hoops to Prove They're Real"
[2]: https://www.wsj.com/world/asia/what-we-learned-tracing-north-koreas-hidden-workforce-inside-american-companies-ff36fae4?utm_source=chatgpt.com "What We Learned Tracing North Korea's Hidden Workforce Inside American Companies"
