Breno (nome fictício), empresário de 37 anos, tinha uma vida completa: casa, carro, família, filhos.
Mas, sete anos atrás, tudo mudou.
Motivado por amigos que são influenciadores digitais, ele começou a apostar.
Viveu uma vida de festas, eventos, presentes e muito luxo, enquanto gastava todo o seu dinheiro em jogos de aposta.
Hoje, depois de perder tudo o que tinha, das finanças ao convívio familiar, ele tenta se recuperar com a ajuda do grupo Jogadores Anônimos.
Veja seu relato.
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"Tudo começou há uns sete anos.
Primeiro com apostas esportivas, depois vieram os jogos virtuais, e aí não teve mais volta.
Hoje eu sei dizer com clareza o que me puxou para dentro disso: amigos influenciadores.
Eles fazem vídeos e postam fotos vendendo esse mundo como se fosse só diversão, e o pior é que alguns deles ainda dizem que, se a pessoa quiser parar de jogar, basta parar, como se fosse simples assim, como se não existisse uma doença por trás disso.
Eu ganhei uma viagem para Barranquilla no mesmo avião dos jogadores, com hotel e comida pagos, camarote para assistir às partidas de futebol.
Quase todo show que passava pelo Engenhão, eu tinha ingresso de camarote.
Na minha casa, chegavam vinhos, souvenires, presentes.
Por um tempo, aquilo parecia vida boa.
Era uma sensação de pertencer, de ostentar, de ter acesso a coisas que eu jamais teria de outro jeito.
Só que era tudo isca.
No fim, cada mimo desses só me empurrava de volta para a mesa de apostas.
Eles sabiam exatamente o que estavam fazendo.
Esses mesmos influenciadores dizem que "só dão dicas", mas fazem vídeos contando que as casas de apostas pagaram R$ 35 milhões ao governo para se regularizar.
Alguns são até donos delas.
Se não tivessem interesse nisso, por que se importariam tanto? Outra coisa que fazem é divulgar links do tipo "primeira aposta grátis" ou "clique aqui e ganhe cinquenta reais".
Para quem já carrega a doença, isso não é vantagem nenhuma.
É só mais uma porta para a recaída.
Eu perdia dinheiro e tentava recuperar o que tinha perdido.
Não conseguia, e aí colocava ainda mais dinheiro para tentar reverter o prejuízo.
No ano passado tentei parar.
Procurei psiquiatra, psicólogo, fiquei três meses sem jogar.
Achei que tinha vencido, mas voltei.
Faz oito dias que estou no Jogadores Anônimos, e é a primeira vez, em muito tempo, que sinto minha cabeça um pouco mais leve.
É um lugar onde a gente é acolhido, onde finalmente entendi que isso não é fraqueza, não é falta de caráter, é doença, e doença se trata.
Mesmo depois de oito dias, meu celular não para de vibrar com mensagens oferecendo bônus para eu voltar a apostar.
E não adianta tentar excluir a conta no Gov.br: no Brasil, tem casa de aposta ilegal funcionando à vontade, e, quando você pede para cancelar, muitas simplesmente dizem que não dá, que o jeito é "só parar de jogar" por conta própria.
Por causa do jogo, refinanciei meu carro e perdi a casa que meu pai tinha me dado.
Mas o vício levou muito mais do que dinheiro: enganei gente que confiava em mim para conseguir grana e apostar, perdi até meu casamento.
Hoje tenho uma filha de 14 anos e um filho de quatro meses, e durante anos deixei de viver com eles porque passava 13 horas por dia grudado no celular.
Minha filha falava comigo e eu não dava atenção.
Eu saía com minha esposa, mas ficava apenas no telefone.
Mentia para ela, dizendo que não jogava mais, quando, na verdade, continuava jogando e me colocava cada vez mais no fundo do poço.
São momentos que não consigo recuperar".
* Alunas do curso Jornalismo do Futuro, sob a supervisão de Rafael Galdo
