A inteligência artificial foi ganhando espaço nas empresas: entrou na operação, avançou sobre as estratégias e os orçamentos e chegou às reuniões de conselho.
Agora, também aparece nos crachás.
Diretor de dados e IA, líder de dados e IA e vice-presidente de IA estão entre os títulos que ganham espaço nos organogramas.
O estudo global EY Chief Data Officer Study, realizado com 145 líderes de dados, analytics e inteligência artificial da Europa, América Latina, Estados Unidos e região Ásia-Pacífico, mostra que o termo “IA” já aparece em mais de 31% dos títulos profissionais.
Na edição anterior, realizada em 2024, a IA não tinha presença suficiente nos cargos para aparecer como uma categoria própria e foi agrupada em “outros”, que concentrava 33% das respostas.
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Dois anos depois, o avanço da tecnologia nos organogramas levanta uma questão: as empresas estão criando funções para atender a novas demandas ou apenas incorporando a IA aos nomes dos cargos em meio ao hype do mercado?
Segundo Andrei Graça, sócio-líder de inteligência artificial e dados da EY Brasil, há, sim, um entusiasmo nesse movimento.
Mas também surgiram responsabilidades, projetos e decisões que não cabiam nos cargos tradicionais.
“A inteligência artificial virou a grande estrela do momento, mas os dados têm um protagonismo tão grande quanto, porque, sem informação correta e íntegra, não é possível fazer análises nem usar a tecnologia de maneira assertiva.
Algumas empresas estão reunindo as duas frentes no mesmo papel, em nível de C-Level ou de diretoria”, afirma Graça.
A IA generativa acelerou a aproximação entre as áreas de dados e inteligência artificial.
Durante anos, as empresas concentraram seus principais indicadores em painéis para acompanhar o desempenho dos negócios.
Com a chegada dos modelos generativos e dos agentes de IA, foi necessário acessar e combinar informações dispersas por diferentes departamentos e sistemas.
Andrei Graça, sócio-líder de inteligência artificial e dados da EY Brasil
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Para aproveitar o potencial dessas ferramentas, as organizações precisam integrar suas bases, assegurar a qualidade dos dados, definir regras de acesso e governança e identificar as atividades em que a tecnologia pode gerar resultados concretos.
“O cargo em si não é o mais importante.
O fundamental é que a função exista e que alguém olhe para qualidade e governança dos dados e para inteligência artificial de forma integrada”, complementa o executivo da EY Brasil.
Vagas com IA
Com o avanço da IA no ambiente corporativo, o movimento não ficou restrito ao andar da diretoria.
Um levantamento da plataforma Gupy identificou 24.120 anúncios com menção à IA na descrição ou nos requisitos entre janeiro de 2025 e julho de 2026.
Só na área de dados, o volume mensal passou de 68 para 134 vagas, alta de 97,1%.
Na comparação entre os primeiros semestres de 2025 e 2026, o avanço foi de 90,8%.
Guilherme Dias, diretor de marketing e cofundador da Gupy, avalia que o impulso inicial de curiosidade deu lugar a uma necessidade operacional.
“Interesse por IA existe e é natural que exista, mas interesse sozinho não paga a conta de manter uma vaga aberta por meses, testar candidatos e ajustar a descrição.
Quando a exigência permanece nos requisitos mês após mês, é sinal de que o trabalho mudou: há mais automação, decisões mais rápidas e busca por precisão.
Não se trata apenas de acompanhar uma tendência, mas de se manter competitivo.”
O dado mais curioso está fora da área de tecnologia.
No primeiro semestre de 2026, o número de vagas que mencionavam IA em outros setores cresceu 141,8% em relação ao mesmo período de 2025.
Esse avanço foi mais rápido do que o registrado na área de dados.
Por isso, embora as oportunidades para esses profissionais também tenham aumentado, sua participação no total de vagas com IA caiu de 10,85%, em janeiro de 2025, para 6,31%, em julho de 2026.
O movimento mostra que o conhecimento em IA deixou de ser uma exigência restrita às equipes técnicas e passou a aparecer em funções de operações, finanças, produto, marketing e recursos humanos.
Para Dias, o avanço da IA provoca dois movimentos no mercado de trabalho: ao mesmo tempo que surgem cargos diretamente ligados à tecnologia, funções já existentes incorporam novas atribuições.
Com isso, os profissionais podem se concentrar em tarefas mais estratégicas, como modelagem avançada, governança, segurança, ética e tradução dos dados em decisões de negócio.
“A empresa não quer apenas alguém que entenda a matemática por trás do modelo.
Quer uma pessoa capaz de resolver uma dor concreta, como reduzir a perda de clientes, prever vendas, otimizar estoques ou automatizar o atendimento com segurança.
Isso exige estruturar dados, testar hipóteses, interpretar resultados e separar automação útil de automação vazia.
O profissional valorizado sabe onde ela acelera, onde erra e onde a decisão precisa continuar humana”, diz Dias.
Victoria Quintella, diretora-sênior da Michael Page Brasil, concorda com essa avaliação.
Segundo ela, muitas das funções que hoje ganham títulos associados à IA já existiam, mas com outras nomenclaturas.
A principal mudança estaria, então, menos na criação de uma ocupação inteiramente nova e mais na incorporação de conhecimentos mais profundos sobre inteligência artificial ao perfil desses profissionais.
Dados da consultoria reforçam essa tendência: o número de candidatos da área de dados com “IA” no título do cargo mais que dobrou na comparação entre o primeiro semestre de 2025 e o mesmo período de 2026, com alta de 143,4%.
“A IA ainda deve ser exigida na descrição de vagas e em títulos de cargos por alguns anos.
No entanto, deverá desaparecer gradativamente na medida em que as ferramentas forem amplamente incorporadas no dia a dia das organizações”, afirma.
Victoria Quintella, da Michael Page
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Na ActiveCampaign, a inteligência artificial deixou o campo das discussões e passou a integrar a operação.
A empresa de automação de marketing estruturou uma área dedicada à tecnologia e adotou agentes de IA em atividades como migração de dados, atendimento ao cliente, integração de plataformas e vendas.
Com cerca de 1.000 funcionários distribuídos pelo mundo, a companhia tem 226 profissionais em cargos que mencionam IA na nomenclatura.
Desse total, 63% atuam nas áreas de crescimento e experiência do cliente, o que mostra que essas funções não estão concentradas apenas nas equipes de tecnologia.
Um dos resultados aparece na chegada de novos clientes.
Segundo Rodrigo Bidinoto, diretor global de vendas da ActiveCampaign, uma migração de dados que antes levava dezenas de horas agora pode ser realizada com poucos comandos.
Para ele, profissionais especializados são importantes tanto para identificar onde a IA pode gerar valor quanto para evitar sua adoção indiscriminada.
“Se a empresa não entende bem a jornada do cliente, não consegue automatizá-la.
Profissionais especializados em dados e IA ajudam a identificar como a tecnologia pode solucionar cada problema e conectar diferentes plataformas para alcançar o resultado esperado”, afirma.
O executivo alerta que nem toda dificuldade deve ser resolvida por IA.
Em determinadas situações, manter a intervenção humana pode se tornar até uma vantagem competitiva, principalmente quando chatbots entram em ciclos de respostas e não conseguem atender a solicitações fora do padrão.
O caso ajuda a mostrar a distância entre adotar a tecnologia apenas como vitrine e incorporá-la à operação.
Essa diferença também começa a aparecer nos investimentos.
Segundo a EY, 80% dos líderes entrevistados tiveram aumento de orçamento nos 12 meses anteriores, dos quais 45% registraram alta de dois dígitos.
Para os 12 meses seguintes, 86% esperam receber mais recursos.
Rodrigo Bidinoto, diretor global de vendas da ActiveCampaign
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