Milton Maluhy Filho, CEO do Itaú Unibanco (esq.), premiado no setor de bancos, e Rodrigo Cury, presidente da Visa, destaque em serviços financeiros
Rogério Vieira/Valor
O conhecimento básico sobre inovação e suas vantagens estão bem difundidos pelo mercado - mas colocá-lo em prática permanece um desafio.
Hoje, o que separa as empresas que avançam em inovação das demais é a capacidade de transformar o conhecimento em resultados concretos.
Essa característica marca as primeiras colocadas na edição 2026 da pesquisa “Valor Inovação Brasil”, uma iniciativa do Valor e de “Época Negócios”, em parceria com a consultoria Strategy&, da PwC.
Segundo os jurados que participam do projeto, as companhias bem avaliadas contam com uma estrutura organizacional sólida e processos bem estabelecidos.
Chegar a um estágio assim exige persistência, experimentação, erros e correções.
“A evolução fez com que essas companhias pudessem deixar para trás iniciativas pontuais ou intuitivas para consolidar a inovação como capacidade estratégica, sustentada por visão de longo prazo, governança, orçamento dedicado e mecanismos claros de medição de valor”, afirma Hugo Tadeu, diretor de inovação e inteligência artificial da Fundação Dom Cabral (FDC).
“A visão romântica cedeu espaço a um modelo de gestão baseado na ambidestria organizacional, que combina busca por eficiência com retorno econômico de curto prazo”, diz.
A análise decorre da avaliação do conjunto de casos e dados apresentados pelas companhias participantes da pesquisa.
Pela metodologia do “Valor Inovação Brasil”, essa avaliação fica a cargo de um júri, composto por quatro especialistas em inovação, com visões complementares.
Em 2026, esse grupo é formado por Amanda Graciano, sócia e CEO da consultoria Trama; Dora Kaufman, professora da PUC-SP; Hugo Tadeu, da FDC; e Luiz Serafim, sócio-diretor da Inspira Move e professor da FGV.
Renata Baruzzi, diretora da Petrobras (esq.), e Andrea Soares, VP sênior da Indorama Ventures - Indovinya
Keiny Andrade/Valor
Outro aspecto observado pelos especialistas é que o tema da inovação, no universo avaliado, deixou de ser associado estritamente à tecnologia (um equívoco antigo e persistente no mercado).
Essas organizações, hoje, associam o esforço inovador a iniciativas voltadas a questões variadas, como eficiência operacional, sustentabilidade, experiência do cliente, desenvolvimento de novos produtos e transformação do modelo operacional - nenhuma delas dependente da adoção ou criação de novas tecnologias.
Inovação reflete processos estruturados e equipes preparadas para transformar ideias em soluções”
A maturidade observada nas vencedoras da pesquisa, porém, está longe de representar a realidade da maioria das grandes companhias brasileiras - e o quadro piora no universo das médias e pequenas.
Na visão de Amanda Graciano, da Trama, há mais consciência sobre o assunto, repertório tecnológico e pressão competitiva.
Ainda assim, muitas encontram dificuldades para converter intenção em execução consistente.
“O Brasil tem forças importantes: mercado interno forte, boa base científica, instrumentos de fomento e setores com capacidade de resolver problemas complexos.
Mas existe uma distância entre falar em disrupção e fazer com que ela chegue à essência do negócio”, diz.
Para a consultora, as organizações dispostas a mudar precisam abandonar o hábito de tratar inovações como projetos complementares ou laterais.
Em vez disso, precisam embutir o esforço em seus processos, como uma capacidade permanente.
Fábio Marchiori, CEO da VLI (esq.), líder na categoria de serviços de logística, e Marcelo Braga, CEO da IBM, vencedora em tecnologia da informação
Rogério Vieira/Valor
Para Luiz Serafim, da Inspira Move, existe uma dicotomia no cenário empresarial brasileiro.
“De um lado, há corporações com atuação internacional que promovem mudanças relevantes em seus mercados, competindo em setores vitais como sistema financeiro, agropecuária de precisão, serviços públicos digitais e saúde”, afirma o especialista.
Esse ecossistema, diz, encontra apoio num ecossistema com venture capital e instituições de ensino e pesquisa de boa qualidade.
Por outro lado, prossegue Serafim, persistem desafios estruturais muito básicos.
“Tendo em mente que a inovação é um processo de criação de valor, é frustrante perceber os baixos índices de produtividade da economia, a persistência da burocracia, os custos elevados para empreender, as estratégias ainda frágeis das companhias e a dependência do país de atores externos, em relação a tecnologias críticas para o futuro.
Há um longo caminho a percorrer”, afirma.
Entre as tecnologias que vêm transformando a inovação, poucas tiveram tanto impacto quanto a inteligência artificial (IA).
“A IA acelera processos de P&D, permite análise de grandes volumes de dados, simulações e descobertas de padrões que os humanos levariam muito tempo para identificar, ou nem conseguiriam”, diz Dora Kaufman, da PUC-SP.
Frederic Kachar, diretor-geral da Editora Globo e do Sistema Globo de Rádio (esq.), e João Paulo Ferreira, CEO da Natura, líder em cosméticos
Rogério Vieira/Valor
De acordo com a especialista, esse avanço ficou evidente nas empresas analisadas na edição 2026 da pesquisa.
Em comparação com o ano anterior, elas demonstraram maior maturidade no uso de IA, com aplicações mais alinhadas aos desafios do negócio e resultados mais consistentes.
A tendência é que a tecnologia se incorpore à cadeia operacional, independentemente do setor de atividade.
O movimento, porém, exige mudanças profundas na gestão.
“Com a IA, passamos a trabalhar com sistemas programados para operar com modelos probabilísticos, que aprendem continuamente a partir de novos dados.
Isso requer monitoramento contínuo dos riscos, já que o comportamento desses sistemas pode mudar à medida que recebem novas informações”, alerta.
Para tirar proveito desses modelos, diz a especialista, é necessário investir em dados de qualidade, infraestrutura adequada, capacitação, revisão de processos, definição de estruturas de governança e incorporação desses investimentos às análises de retorno sobre o investimento (ROI).
Maria Fernanda Delmas, diretora de redação do Valor, e Francisco Gomes Neto, CEO da Embraer, premiada na categoria bens de capital
Keiny Andrade/Valor
Apesar dos desafios estruturais, os quatro jurados avaliam que as empresas brasileiras participantes da pesquisa se destacam pela capacidade de resolver problemas complexos em ambientes adversos.
Para Graciano, o principal diferencial está na velocidade da adaptação.
“As corporações brasileiras sabem operar em contextos de restrição, volatilidade e complexidade regulatória.
Quando bem direcionada, essa habilidade vira vantagem competitiva.
O desafio é usar essa criatividade com método, escala e resultado recorrente”, afirma.
Na visão de Serafim, a combinação entre adaptabilidade e criatividade pode ajudar a posicionar bem o país em áreas estratégicas como bioeconomia, segurança alimentar, engenharia de alta complexidade e saúde pública.
Edilson Reis, CIO da Bradesco Seguros, primeira colocada na categoria seguros e planos de saúde durante evento em São Paulo
Keiny Andrade/Valor
“A inovação, cada vez mais, reflete processos estruturados e equipes preparadas para transformar ideias em soluções que gerem valor para a organização e a sociedade”, diz Tadeu, da FDC.
Na prática, os melhores resultados vêm da combinação entre comprometimento, conhecimento técnico e colaboração, diz o especialista.
Passam também pela capacidade das empresas em desenvolver uma cultura favorável ao intraempreendedorismo, à tolerância ao erro e ao desenvolvimento permanente de competências.
Henrique Moraes, CEO da Equifax l Boa Vista (esq.), líder em serviços, e Aroldo Alves, CEO da Vitru, campeã na categoria de educação
Rogério Vieira/Valor
Segundo Graciano, é nesse ponto que muitos negócios se perdem.
“Querem inovar sem mudar a forma como decidem, medem e lideram.
Buscam novidades, mas mantêm processos pensados para evitar qualquer tipo de risco.
Isso trava a experimentação, ponto crucial para inovar.
Cultura, nesse caso, não é um tema abstrato.
É incentivo, orçamento e governança.”
Para estabelecer esse tipo de cultura, diz Serafim, os líderes devem entender que o retorno virá quando houver orientação estratégica e aprendizagem contínua, aliadas à orquestração de capacidades tecnológicas e gerenciais.
“Um líder inovador não é necessariamente quem tem a ideia mais brilhante.
É quem cria as condições para a organização aprender mais rápido, sabe fazer boas perguntas, escolhe problemas relevantes, protege o aprendizado e conecta inovação ao core do negócio”, completa Amanda.
Empresas usam método e IA para acelerar a inovação
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