As tragédias provocadas por chuvas intensas em Minas Gerais e no Rio Grande do Sul no início de 2026 voltaram a expor uma fragilidade conhecida, mas pouco enfrentada: a infraestrutura urbana brasileira não acompanhou nem o crescimento das cidades nem a intensificação dos eventos climáticos extremos.
Dados da plataforma AdaptaBrasil, do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, mostram que cerca de 3.668 municípios, o equivalente a 66% do total nacional, apresentam capacidade insuficiente de adaptação a enchentes e alagamentos.
Para o engenheiro ambiental Felipe Schroeder dos Anjos, esse número traduz um problema estrutural que a engenharia já sabe como resolver, mas que o país ainda não decidiu enfrentar com a prioridade necessária: "Não são eventos imprevisíveis.
São riscos mapeados há anos, com solução técnica conhecida.
O que falta é continuidade de investimento e planejamento urbano coerente com a escala do problema".
Um país de municípios vulneráveis
O risco de deslizamento é considerado elevado em mais de mil cidades brasileiras, e o Plano Clima do governo federal classifica quase 1.900 municípios como altamente suscetíveis a esses eventos, o que coloca cerca de nove milhões de pessoas em áreas de risco.
A combinação entre ocupação desordenada de encostas e margens de rios, sistemas de drenagem defasados e ausência de fiscalização sobre uso do solo cria um cenário em que qualquer chuva acima da média se transforma em ameaça concreta à vida.
Felipe Schroeder dos Anjos explica que o problema raramente é falta de conhecimento técnico: "A engenharia sabe onde estão as áreas de risco e sabe como reduzir esse risco.
O gargalo está na execução contínua, não no diagnóstico."
O conceito de cidade-esponja ganha espaço
Entre as respostas mais discutidas por especialistas em infraestrutura urbana está o conceito de cidade-esponja, que propõe reter, infiltrar e reaproveitar a água da chuva em vez de apenas escoá-la o mais rápido possível.
Telhados verdes, pavimentos permeáveis, parques lineares e bacias de retenção reduzem a pressão sobre redes de drenagem tradicionais e ajudam a amortecer picos de precipitação.
O engenheiro destaca que essas soluções baseadas na natureza têm custo relativamente baixo em comparação a obras estruturais convencionais, mas esbarram em outro obstáculo: a falta de familiaridade de gestores locais com esse tipo de intervenção.
"Municípios menores muitas vezes não têm equipe técnica para propor esse tipo de solução.
O conhecimento existe, mas não chega de forma equilibrada a todo o território nacional."
Risco climático que aprofunda desigualdade
Quando enchentes e deslizamentos ocorrem, seus efeitos não se distribuem de forma equivalente entre a população.
Moradores de áreas de risco costumam ter menor acesso a sistemas de alerta antecipado, habitações mais precárias e menor capacidade financeira de recuperação após o desastre.
Isso faz da vulnerabilidade climática também uma questão social, e não apenas ambiental.
Para Felipe Schroeder dos Anjos, ignorar essa camada de desigualdade compromete qualquer política de prevenção: "Não existe solução de infraestrutura urbana bem-sucedida que ignore quem mora na área de risco.
O projeto técnico precisa vir acompanhado de política habitacional, senão o problema só muda de endereço."
O que falta para transformar prevenção em política pública?
O governo federal mantém, dentro do programa de aceleração de investimentos em infraestrutura, recursos bilionários destinados a obras de drenagem urbana e contenção de encostas.
Mas especialistas apontam que o volume ainda é insuficiente diante da escala do problema identificado pelos próprios órgãos federais.
O engenheiro defende que a resposta mais eficaz combina investimento contínuo com mudança de mentalidade sobre ocupação do solo: "Enquanto tratarmos prevenção como resposta emergencial depois da tragédia, o Brasil vai continuar pagando o preço mais alto possível, que é o de vidas humanas."
Com a intensificação do atual ciclo climático, marcado por chuvas mais intensas, o debate sobre infraestrutura urbana deixa de ser um tema técnico distante e volta a ocupar o centro da conversa pública, especialmente nas cidades que já sabem, por experiência recente, o custo de adiar essa discussão.
Engenheiro ambiental Felipe Schroeder dos Anjos alerta: cidades brasileiras seguem despreparadas diante de enchentes e deslizamentos
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