Entenda a diferença entre depressão e hikikomori; saiba mais

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Fonte da notícia: CBN CBN

Existe um tipo de silêncio que começa atrás de uma porta que não abre mais. Quem convive com ele descreve assim: "Antes mesmo do meu dia começar, eu checo se ele dormiu, se ele está com fome, se ele está com sede, e se ele tiver, checo se tem água no quarto dele, porque eu sei que se eu não der comida ou água, ele simplesmente não vai comer ou beber. De 2019 até agora, ele tem jogado e passado o tempo no computador, dia e noite. Ele não quer ver ninguém." São vozes de mães compartilhadas nas redes sociais, entre outras descrições de rotinas parecidas: pessoas que pararam de sair do quarto e famílias que passaram a organizar o dia em torno disso. O nome disso é hikikomori, palavra japonesa que descreve um isolamento social extremo e prolongado. O critério usado no Japão é de pelo menos seis meses sem escola, sem trabalho e sem convívio social, mas há casos que duram anos. Uma pesquisa do governo japonês estimou um milhão e 460 mil pessoas nessa condição. A primeira confusão que o tema provoca é com a depressão, e não é a mesma coisa. A psicanalista Carine Sayuri Goto atende brasileiros no Japão e integra uma rede japonesa que discute o assunto. "No caso da depressão, a pessoa fica muito mal, às vezes ela não quer levantar do lado da cama, ela não tem vontade pela vida, então é tudo cinza, não tem nada que a move na vida. E a gente vê claramente que falta vitalidade, que falta energia na pessoa. O hikikomori não é isso. A pessoa pode estar ali no quarto dela, fazendo as coisas dela, muito voltada para videogames, internet, animes e mangá, mas não necessariamente ela está para baixo, triste." A depressão pode estar junto - e muitas vezes está. Mas o que define o hikikomori é o corte radical da relação com as outras pessoas, e ele pode existir sozinho, sem nenhum outro diagnóstico. O quadro não é reconhecido como doença nos manuais de psiquiatria. No Brasil, ninguém sabe quantos são. O psiquiatra e neurocientista Thiago Roza, professor da Universidade Federal do Paraná, publicou o primeiro relato brasileiro de um caso tratado até a recuperação completa. "Eu calculo que o número seja muito, muito maior. Primeiro, é uma psicopatologia muito discreta, os pacientes não chamam tanta atenção. Segundo, eles não buscam ajuda. Terceiro, eles deliberadamente fogem da ajuda em muitos dos casos, porque tem que sair de casa, tem que procurar tratamento, tem que buscar o auxílio de um profissional de saúde. Então eles deliberadamente fogem desse tipo de situação. Por isso, provavelmente, o número é muito maior do que reportado." Roza estima milhares de casos no país, e diz que a maioria dos profissionais de saúde não conhece os critérios, então não reconhece o quadro quando ele chega. E o estereótipo do adolescente no quarto já não dá conta: no Japão, entre quem se isolou depois dos 40 anos, o motivo mais citado foi a aposentadoria. Não existe remédio para o hikikomori. Trata-se o que está por trás, seja depressão, ansiedade, trauma, dependência das telas, ou as relações dentro de casa. E o alerta dos especialistas às famílias é que pressionar não funciona: o caminho é procurar ajuda e ir abrindo frestas, sem bater de frente.

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