Viralizou nas redes sociais um trecho de um discurso do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), candidato à reeleição, no qual ele afirma que recolher o lixo das cidades seria uma "profissão muito pobre" e que não "dá orgulho" para o trabalhador.
O trecho viral foi dito durante o Ato Nacional "Mulheres com Lula", realizado em Belo Horizonte (MG), no sábado (29), um evento que faz parte da agenda eleitoral de Lula na sua busca pela sua reeleição.
Durante o evento, Lula começou a falar sobre o potencial que uma pessoa pode alcançar quando ela tem a devida oportunidade.
Em meio a sua fala, ele disse: "Quando eu passo na rua e eu vejo aquelas pessoas que trabalham colhendo lixo, é uma profissão muito pobre, porque não é uma profissão que dá orgulho.
'Eu sou lixeiro'.
O cara tem orgulho de falar: 'Eu sou engenheiro, eu sou médico'.
Mas lixeiro é uma coisa pobre de quem não pode estudar."
O discurso continua abordando o contexto da invisibilidade de determinados trabalhos pela sociedade.
O comentário gerou críticas do senador Flávio Bolsonaro (PL), seu principal adversário na disputa eleitoral, que saiu em defesa do "trabalho honesto".
Para Marco Antônio Teixeira, coordenador do Mestrado e Doutorado em Gestão e Políticas Públicas da FGV EAESP, a forma como Lula se expressou criou uma "brecha" que foi utilizada por Bolsonaro "para tentar desgastá-lo com as pessoas, sobretudo as mais pobres".
"Lula é uma pessoa que tem muita espontaneidade na fala e com isso, ele acaba, de certa forma, criando algumas brechas [de interpretação].
É óbvio que ele não falou com essa intenção [negativa], ele falou com a intenção de valorizar a atividade e ao mesmo tempo mostrar que seria necessário que as pessoas tivessem orgulho", diz o especialista ao destacar que o petista tem um histórico de ações benéficas para catadores de material reciclável e pessoas em situação de rua.
Teixeira diz que não surpreende esse comportamento, devido ao contexto eleitoral presente.
"Nós falamos de um processo eleitoral extremamente polarizado, disputado, então qualquer janela de oportunidade vai ser usada", diz o especialista.
Procurados pelo Valor, PT e Lula não retornaram o contato da redação para comentar o assunto.
O espaço segue aberto.
O que aconteceu?
Com a participação de ministras, senadoras e candidatas de diversos estados, o ato nacional tinha como objetivo debater políticas públicas voltadas para as mulheres, estratégias de combate à violência de gênero e ampliar a participação feminina no mercado de trabalho e nos espaços de poder.
Pouco antes da fala polêmica, Lula convocava as mulheres presentes no evento a exercerem seus direitos e a "ajudar a mudar esse país".
"Não acreditem nessa história de que a mulher é fraca, de que a mulher é isso ou aquilo.
A mulher é o que ela quiser ser".
Então, ele passou a falar sobre o potencial que as pessoas podem alcançar através do estudo e do trabalho.
Confira abaixo a transcrição da fala de Lula.
"Tudo na vida da gente é uma questão da gente descobrir o potencial da gente.
Quando eu passo na rua e eu vejo aquelas pessoas que trabalham colhendo lixo, é uma profissão muito pobre, porque não é uma profissão que dá orgulho.
'Eu sou lixeiro'.
O cara tem orgulho de falar: 'Eu sou engenheiro, eu sou médico'.
Mas lixeiro é uma coisa pobre de quem não pode estudar.
Eu fico pensando, se aquelas pessoas que fazem a limpeza na rua soubesse a importância do trabalho deles, se eles soubessem que se eles não tirarem lixo durante uma semana, as pessoas que não enxergam ele durante o dia inteiro vão passar a enxergar, a gente começa a mudar, porque o pobre é tratado como se fosse invisível.
As pessoas não enxergam a maioria dos pobres.
Dizem que os pobres são problemas.
E qual é o problema, gente? É que ninguém tem orgulho de ser pobre.
Ninguém quer ser pobre.
Ninguém quer ganhar pouco.
Ninguém.
Se a gente tomar consciência disso, a gente tem que perceber o quê? É que todo mundo hoje tem que estudar um pouco, todo mundo.
Porque quando a gente estuda e a gente tem uma profissão, tudo melhora na vida da gente, melhora o emprego, melhora o salário, melhora a relação da gente com a sociedade.
Uma menina quando sai para procurar emprego, ela chega numa loja, aí o patrão pergunta: 'Você sabe fazer o quê?' 'Nada.' O rapaz vai procurar emprego, 'quê cê sabe fazer?' 'Nada'.
Olha, ninguém dá importância para quem não sabe nada.
Então, nós temos que dizer olhando pro céu, nós não queremos ser pobre.
Nós não nascemos para ser pobre.
Nós não nascemos para não ter educação.
Nós nascemos para ter direito.
E é o Estado que tem que garantir a igualdade de oportunidade.
É o Estado.
É o Estado que tem que garantir que a filha de uma empregada doméstica possa disputar a mesma vaga da universidade que a filha da sua patroa, que o trabalhador de fábrica possa disputar a mesma vaga.
É na educação que a gente garante a oportunidade para as pessoas e uma profissão."
A fala pode ser escutada por volta das 2h25 no vídeo transmitido no canal do presidente Lula.
