Quando Italo Ferreira fala sobre títulos, o tom é sereno.
Campeão mundial em 2019, primeiro medalhista de ouro olímpico da história do surfe, em Tóquio-2021, e uma das maiores referências da modalidade, o potiguar de 32 anos vive um dos momentos mais consistentes da carreira.
Longe das ondas, porém, a fase é de descobertas.
Quando discorre sobre o primeiro filho, Martin, de apenas 7 meses, a voz do surfista muda.
— Acho que já vivi tudo na minha vida de vitórias, conquistas, metas e sonhos.
Mas ser pai foi uma das minhas maiores vitórias e, ao mesmo tempo, um dos maiores desafios — afirma ele.
Depois de um mês de férias do Circuito Mundial, com tempo para curtir o bebê e a esposa, a nutricionista cearense Sofia Larocca, de 28 anos, Italo se prepara para voltar à ativa na retomada do campeonato: a etapa do Teahupo’o, no Taiti, no próximo fim de semana.
Vai passar seu primeiro Dia dos Pais sobre as ondas, perseguindo mais um título.
Mas não se engane.
Italo assegura que a chegada do filho alterou completamente sua forma de enxergar a vida.
Durante anos, o Circuito foi o centro absoluto de sua rotina.
Hoje, divide espaço com mamadeiras, noites mal dormidas e chamadas de vídeo feitas do outro lado do mundo.
Martin, Sofia Larocca e Italo Ferreira
Reprodução/Redes Sociais
Enquanto Sofia assume a maior parte da obrigações da rotina familiar, o surfista tenta equilibrar as viagens constantes com a presença na criação de Martin.
No surfe profissional, os atletas passam boa parte do ano viajando entre continentes.
Em uma temporada regular, são mais de dez países visitados e milhares de quilômetros percorridos.
— Você fica distante de tudo.
Longe da família.
Às vezes você precisa encontrar escapes para não pirar — pontua Italo.
As férias do circuito foram um bom desafogo.
Oportunidade perfeita para o bebê se familiarizar com o ambiente de trabalho do pai: Martin tomou seu primeiro banho de mar no início de julho, no Ceará, onde a família mora, e agora bate ponto com os pais na praia.
— Estou longe de ser perfeito.
Mas faço o que está ao meu alcance para estar presente e inspirar essa criança —diz Italo, que é só elogios à mulher: — Não teria mãe melhor para o meu filho.
O jeito como ela cuida, o amor que ela tem, é motivo de muito orgulho.
TRABALHO COM TREINADOR
A paternidade, porém, não é a única mudança que vem tendo influência em seu desempenho na temporada de 2026.
Este ano, pela primeira vez desde que se consolidou na elite mundial, Italo decidiu trabalhar com um treinador em tempo integral: o ex-surfista profissional Leandro “Grilo” Dora.
O processo tem exigido algo mais difícil do que aprender novas manobras: desaprender velhos hábitos.
Italo Ferreira e o treinador Leandro Grilo
IF15/VICTOR ELEUTÉRIO
— Hoje estou mais aberto.
Tenho humildade para reconhecer erros e ser melhor a cada campeonato — assegura o atleta potiguar.
A relação com Dora tem produzido ajustes técnicos graduais.
O treinador, responsável também pela evolução de nomes como Yago Dora (seu filho) e Luana Silva, trabalha mudanças sutis em um surfe que há mais de uma década compete em alto nível.
O resultado aparece nos números.
Assim como em 2024, quando terminou o ano entre os protagonistas do circuito, Italo vem ocupando as primeiras posições do ranking mundial.
Chegou à metade da temporada usando a lycra amarela de líder, mas caiu para a segunda colocação em Saquarema (RJ), última etapa antes da parada do Tour, ultrapassado pelo italiano Leonardo Fioravanti.
O brasileiro, porém, acredita que o crescimento recente vai além das estatísticas:
Italo Ferreira em Saquarema
IF15/VICTOR ELEUTÉRIO
— Estou evoluindo.
Existe um processo por trás e os resultados estão aparecendo.
PIPELINE NO HORIZONTE
O grande objetivo do ano está no Havaí.
Pela primeira vez desde o fim do formato de Finals, o título mundial voltará a ser decidido ao longo do circuito, com a etapa de Pipeline encerrando as disputas, em dezembro.
Foi lá, justamente na última temporada do modelo tradicional, que Italo conquistou seu único título mundial, em 2019.
Agora, vê a chance de repetir a história:
— O último campeão de Pipeline nos pontos corridos fui eu — lembra ele.
O potiguar acredita que a experiência acumulada nos últimos seis anos e meio pode fazer diferença em uma das ondas mais perigosas e respeitadas do planeta.
Mas evita transformar o sonho em uma obsessão:
— Tenho meus objetivos, minhas metas.
Mas sempre entrego para Deus.
Se eu merecer, vai acontecer.
