Entre o trauma e o alívio: sobreviventes contam como escaparam por segundos da tragédia provocada pelo vendaval no Rio - QTU Questões do Universo

Entre o trauma e o alívio: sobreviventes contam como escaparam por segundos da tragédia provocada pelo vendaval no Rio

Fonte: Bandeira da fonte

O vendaval de mais de 100km/h que atingiu diferentes regiões do Rio na quarta-feira deixou rastros de destruição e perdas irreparáveis.
Para algumas pessoas, a adrenalina de ter visto o perigo de perto ainda estava latente ontem.
Três operários que trabalhavam num prédio de 23 andares na Barra, na Zona Sudoeste, viveram minutos de pânico enquanto pintavam a fachada na altura do sétimo andar num andaime suspenso como um pêndulo no edifício do condomínio Orange Bali.
Com a ventania, a estrutura bateu repetidas vezes na parede com os homens a mais de 25 metros do chão.
Todos usavam equipamento de segurança.
Sem conseguir descer, eles foram resgatados por uma diarista que abriu a janela para ajudá-los a pular para a varanda, no sexto andar, e os puxou.
A mulher, que segundo um deles se chama Isabella, segurou com força a estrutura e os ajudou a pular para a sacada.
— Fomos surpreendidos pela ventania.
As esposas estavam mandando mensagem, falando sobre o vento que já passava por onde a gente mora.
Quando percebemos que estava chegando ali, tentamos descer o quanto antes.
Não deu tempo.
Foi muito pânico, assustador.
Eu só pensava em Deus e na minha família — contou Leonardo Garcia, acrescentando que teve uma crise de choro no ônibus na volta para casa.
— Me lembro que tentava tranquilizar os colegas, para a gente tentar sair em segurança.
Graças a Deus foi o que aconteceu.
Mais tarde, mandei mensagem para eles dizendo para abraçarem suas famílias.
Seis minutos de tensão
Morador da Vila Kennedy, na Zona Oeste, Garcia foi orientado pelos filhos, o bombeiro civil Natã Garcia, de 25 anos, e o estudante Samuel Garcia, de 18, a preservar a esposa das imagens do jaú (o tipo de andaime em que estavam) balançando e batendo na parede do prédio até travar.
Foram minutos que pareciam uma eternidade:
— Toda essa tensão durou cinco ou seis minutos.
Foi desesperador.
Para Wedson Sales, de 24 anos, que também estava no andaime, o sentimento na volta para casa foi um misto de espanto e alívio.
Ao chegar em Urucânia (que fica entre Santa Cruz e Paciência, na Zona Oeste), ele se deparou com o próprio imóvel destruído pelo vendaval.
Telhas voaram e se partiram, e o muro desabou.
— Nessa situação que vivemos, do jaú voando, e a gente correndo risco de vida, passavam várias coisas na cabeça: pensava em morte, achava que não ia ver mais a minha família, que não ia conseguir ser resgatado.
Ainda recebi ligação da minha esposa dizendo que nossa casa foi destruída.
Foi uma extrema tristeza.
A gente lutou para construir, depois para manter — lamentou.
Em outra parte da cidade, em Santa Teresa (região central do Rio), Vinícius Luís Nascimento também viu a morte de perto.
Ele foi uma das três pessoas que passavam pela calçada em que um muro desabou e matou o ex-jogador do Botafogo Tássio Maia e seu amigo Vandrei Cordeiro.
Por pouco, a tragédia não foi maior.
Vinícius e seu filho, Nathan Rodrigues Nascimento, de 11 anos, aparecem em um vídeo que viralizou na internet sendo cobertos por uma nuvem de poeira após a queda da estrutura.
Pouco antes do desabamento, eles e mais dois amigos, que caminhavam em direção a São Januário — onde assistiriam à partida entre Vasco e Independiente Medellín, pela Sul-Americana —, diminuíram o ritmo por causa da intensidade do vento.
— Vinha muita terra no rosto.
Fechamos o olho e até andamos mais devagar.
De repente, o muro caiu e subiu uma poeira mais densa, tipo farelo de cimento.
Na hora, eu virei de costas para proteger meu rosto.
Meu filho também correu para trás para se afastar da poeira e ficou muito espantado — disse.
— Depois, tentamos salvar os rapazes, tirar o muro de cima deles, chegou a reunir uns dez homens.
A gente fazia muita força, mas não conseguia.
Um deles já parecia estar com a coluna quebrada, porque não conseguia mais se mexer, mas estava vivo ainda.
O outro estava deitado de bruços, com parte do muro em cima das costas.
Vidro de janela despencou
No Centro, o assessor de comunicação Gustavo Siqueira, de 21 anos, teve um problema na impressora do trabalho e foi procurar um lugar para imprimir uns documentos.
Quando saía do Terminal Menezes Cortes, o vidro de uma janela perto do edifício caiu.
Por sorte, seu reflexo evitou que os estilhaços atingissem seu rosto.
Apenas o braço direito foi ferido, sem gravidade.
— Corri para baixo de uma marquise.
As bancas dos ambulantes e as calçadas ficaram lotadas de pedações de vidro.
O que estourou na minha frente tinha uns 40 centímetros — contou.
— Eu estava no escritório e, uns dez minutos antes, a mãe de uma colega de trabalho mandou mensagem falando que estava ventando muito no Valqueire (Zona Sudoeste).
Pensamos que era lá naquela região, que não ia chegar aqui.