Entrevista exclusiva com Mãe Glorinha de Azǐri, celebrando 80 anos de iniciação - QTU Questões do Universo

Entrevista exclusiva com Mãe Glorinha de Azǐri, celebrando 80 anos de iniciação

Fonte: Bandeira da fonte

Para importantes e inesquecíveis personalidades que transmitiram e eternizaram ensinamentos e histórias antigas do Candomblé, como o professor Agenor Miranda, Mãe Dila de Ọbalúwáiyé, Ogan José Beniste, Mãe Damiana de Ṣàngó e Mãe Bida de Yemọja, o Àṣẹ Ƙƥodaɠɓá ocupa um lugar singular no Candomblé Fluminense.
Segundo esses grandes nomes, o Ƙƥodaɠɓá foi o primeiro Terreiro da Nação Jeje estabelecido no Estado do Rio de Janeiro e o único cuja origem não passou pela Bahia.
A história começa com Gayaƙú Rosena de Gbèsèn, africana oriunda da cidade de Alladá, no antigo Daɦomé, atual Benin.
De acordo com a tradição preservada pela própria casa, ela chegou ao Rio de Janeiro após 1850, trazendo consigo os fundamentos de seu Vòɗʊ́ɲ Gbèsèn e estabelecendo o Ƙƥodaɠɓá na região do bairro da Saúde, no Centro da cidade do Rio de Janeiro, conhecida como a Pequena África.
Ao longo das décadas, o Terreiro acompanhou as transformações da cidade.
Passou por Cavalcante, depois pela Abolição, foi transferido para Coelho da Rocha, em São João de Meriti, durante o período da ditadura militar e, posteriormente, retornou ao bairro da Abolição, onde permanece até hoje.
Sua trajetória se confunde com a própria história do Candomblé Fluminense.
A linhagem do Àṣẹ
Gayaƙú Rosena iniciou poucas pessoas, entre elas Adelaide de Vòɗʊ́ɲjó, que herdou o comando da casa.
Nascida em 1885, Adelaide tornou-se Mejitó do Ƙƥodaɠɓá e foi responsável pela formação de importantes sacerdotisas, entre elas Mãe Nathalina de Azǐri e Mãe Glorinha de Azǐri.
Também contribuiu para a expansão da tradição Jeje no Estado ao fundar o Kwe Sinfá, em 1953.
O sacerdócio de Mãe Glorinha
Nascida em 16 de dezembro de 1945, Mãe Glorinha de Azǐri foi iniciada ainda bebê.
Recolheu-se aos dois meses de vida e concluiu sua iniciação em 3 de agosto de 1946, em razão de uma necessidade espiritual ligada à sua ancestralidade.
Hoje é reconhecida como uma das Vòdúnsís mais antigas do Brasil, celebrando 80 anos de iniciação.
Após o falecimento de Mejitó Adelaide, herdou a missão de preservar o Ƙƥodaɠɓá ainda muito jovem.
Sua formação foi complementada por Mãe Dila de Ọbalúwáiyé, que lhe transmitiu os ensinamentos deixados por Adelaide, inclusive os ƙùɦáɲ (rezas) e os jǐɦáɲ (cânticos), no idioma fon, assegurando a continuidade da tradição Jeje do Terreiro.
Paralelamente ao sacerdócio, construiu sólida carreira acadêmica.
Formou-se em Artes Visuais e Paisagismo pela UFRJ e dedicou cerca de cinco décadas ao magistério, lecionando Geometria Descritiva e História da Arte.
A sabedoria de oito décadas de iniciação
Para abrilhantar ainda mais este momento de celebração, pedi ao Vòɗʊ́ɲgán Pedro de Soɠɓó, filho de santo de Mãe Glorinha de Azǐri, que realizasse uma entrevista especial com a sacerdotisa para os nossos leitores.
Pedro, que também foi o responsável pela organização das comemorações dos 80 anos de iniciação de Mãe Glorinha, conduziu uma conversa marcada por lembranças, ensinamentos e reflexões sobre a fé, a tradição Jeje e o futuro do Candomblé.
Em um dos trechos mais marcantes da entrevista, Mãe Glorinha resume sua trajetória com uma frase que sintetiza sua forma de viver e compreender a religião:
"O futuro do Candomblé depende da fé, do respeito e da dignidade."
Vòɗʊ́ɲgán: Aos 80 anos de iniciação, o que a senhora espera do futuro do Candomblé?
Mãe Glorinha: Espero que o Candomblé continue sendo uma religião baseada na fé, no amor ao próximo e, principalmente, no respeito aos Vòɗʊ́ɲ (s), aos Òrìṣà, aos Nkisi e às pessoas.
Somente com respeito e dignidade construiremos um futuro promissor para nossa religião.
Vòɗʊ́ɲgán: A senhora foi iniciada ainda bebê.
Como encara essa condição?
Mãe Glorinha: Sempre encarei isso como uma grande bênção.
Minha iniciação aconteceu por necessidade de saúde e nunca me trouxe qualquer sofrimento.
Pelo contrário, sou profundamente grata aos Vòɗʊ́ɲ (s), pois acredito que foi uma dádiva em minha vida.
Vòɗʊ́ɲgán: Como conciliou vida religiosa, estudos, casamento e profissão?
Mãe Glorinha: Nunca houve conflito entre essas áreas.
Cuidei da minha família, construí minha carreira como professora, cursei duas universidades e sempre consegui cumprir minhas obrigações religiosas.
Tudo caminhou junto durante toda a minha vida.
Vòɗʊ́ɲgán: Sua família também pertence ao Candomblé?
Mãe Glorinha: Sim.
Minha história familiar está profundamente ligada ao Ƙƥodaɠɓá.
Tenho ancestrais iniciados por Gayaƙú Rosena, minha mãe também pertenceu à tradição e meus filhos seguem caminhos ligados à espiritualidade.
Dois deles, inclusive, foram iniciados em Ifá, tradição pela qual tenho grande respeito.
Vòɗʊ́ɲgán: A senhora enfrentou preconceito durante sua carreira profissional?
Mãe Glorinha: Felizmente, não.
Sempre fui respeitada como professora.
Pelo contrário, muitos colegas buscavam conhecer melhor o Candomblé e esclarecer dúvidas.
Acredito que o ambiente acadêmico favorecia esse diálogo e era mais aberto à diversidade do que vemos atualmente.
Vòɗʊ́ɲgán: Alguma vez pensou em abandonar a religião?
Mãe Glorinha: Jamais.
Nunca passou pela minha cabeça abandonar o Candomblé.
Entendo que nossa religião corresponde a um chamado ancestral.
Todos os dias agradeço aos Vòɗʊ́ɲ (s) pela vida e peço proteção para minha família e para toda a humanidade.
Também acredito que devemos respeitar todas as religiões e compreender a história que moldou o Brasil.
Vòɗʊ́ɲgán: Há quem diga que o Ƙƥodaɠɓá está inativo.
O que responde a isso?
Mãe Glorinha: Isso não corresponde à realidade.
O Ƙƥodaɠɓá continua vivo.
Seguimos preservando nossos ritos internos exatamente como aprendi com minha mãe espiritual e com Mãe Dila de Ọbalúwáiyé.
Antigamente os candomblés não realizavam festas continuamente, muito em razão da perseguição policial.
Essa tradição permanece.
Hoje já existe uma sucessora preparada para dar continuidade ao Àṣẹ quando chegar o momento.
Vòɗʊ́ɲgán: Para finalizar, que mensagem a senhora deixa para o povo de Axé?
Mãe Glorinha: Que todos tenham fé, amor e, acima de tudo, dignidade.
Quem age com dignidade está sob o olhar de Mawú e de Ọlọ́run.
Que nunca haja preconceito entre nós e que cada pessoa continue acreditando naquilo que faz, sempre respeitando o próximo.
Guardiã de uma tradição
Celebrar os 80 anos de iniciação de Mãe Glorinha de Azǐri é reverenciar não apenas a trajetória de uma sacerdotisa, mas reconhecer uma das mais importantes guardiãs da tradição Jeje no Brasil.
Sua história se entrelaça com a do Ƙƥodaɠɓá, um patrimônio religioso, histórico e cultural do Rio de Janeiro que atravessou gerações preservando seus fundamentos, sua memória e sua identidade.
Eu, Pai Paulo de Òṣàlá, deixo meu ƙɔ̀loɲsí-ƙɔlofɛ́ a todo o Àṣẹ Ƙƥodaɠɓá e, de coração, digo:
Parabéns, Mãe Glorinha de Azǐri! Que Lissá, Mawú, Aɦòlò Gbèsèn e todos os Vòɗʊ́ɲ (s) continuem lhe abençoando hoje e sempre!
Viva a Nação Jeje!
Àcé Goɲzòɲ!