Vice-governador do Rio Grande do Sul e candidato do MDB ao governo do estado, Gabriel Souza tenta transformar a experiência acumulada nos últimos anos em uma vantagem eleitoral.
Em uma disputa caracterizada até aqui pelo baixo conhecimento dos candidatos, ele aposta na campanha de televisão para se tornar conhecido e se apresentar como o nome capaz de dar continuidade às obras de reconstrução após as enchentes de 2024.
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Gabriel reconhece que sua candidatura está associada ao governo Eduardo Leite, mas procura se afastar da ideia de que pretende apenas dar sequência à atual administração.
“Não quero fazer uma terceira edição do atual governo.
Quero fazer uma primeira edição de um novo governo”, afirma.
Ao mesmo tempo, diz que uma eventual troca de equipes e projetos pelos adversários poderia provocar atrasos nas obras de reconstrução.
“A minha candidatura é a candidatura segura”, resume.
O candidato também critica os adversários Juliana Brizola (PDT) e Luciano Zucco (PL) pela falta de experiência no Executivo e afirma que, se houvesse uma “prova para candidato a governador”, alguns deles não seriam aprovados.
Na eleição presidencial, declara apoio a Ronaldo Caiado (União), a quem atribui “autoridade moral” para governar o país.
Gabriel também acusa os principais adversários de fazerem um “acordo entre os dois extremos” para tentar impedir sua chegada ao segundo turno.
Afirmação que, segundo ele, encontra respaldo no comportamento das candidaturas nos debates e em análises da imprensa gaúcha.
O senhor disputa uma eleição em que historicamente é difícil para um governador ou seu grupo político eleger um sucessor.
Como pretende quebrar essa tradição?
Na verdade, é a primeira vez que temos essa situação na redemocratização.
Eduardo Leite foi o primeiro governador reeleito no Rio Grande do Sul nesse período e é também a primeira vez que um vice-governador disputa a eleição representando um governo que já foi reeleito e cujo titular não está concorrendo.
Então não há precedente para comparação.
Ao mesmo tempo, todas as pesquisas mostram crescimento da nossa candidatura antes mesmo de começar a televisão.
Na Quaest, crescemos 50%, e na Real Time também tivemos crescimento.
Temos aferições internas que mostram essa tendência.
A televisão começa agora e acredito que vamos potencializar esse crescimento para chegar ao segundo turno e ganhar a eleição.
O senhor atribui essa expectativa principalmente ao fato de ainda ser pouco conhecido?
É uma eleição de desconhecidos.
A Quaest mostra que 72% dos gaúchos ainda não me conhecem.
A candidata mais conhecida é a Juliana Brizola, que tem um sobrenome muito conhecido no Rio Grande do Sul e concorreu à prefeitura de Porto Alegre.
Mesmo assim, um terço dos eleitores diz não conhecê-la.
Tenho uma taxa de conversão muito grande quando o eleitor passa a me conhecer e um mercado eleitoral ainda inexplorado.
Ao mesmo tempo, temos um governo com um grau importante de aprovação.
Metade dos gaúchos, aproximadamente, avalia positivamente a administração.
Então, se o eleitor que aprova o governo ainda não me conhece, existe um espaço muito grande para apresentar a candidatura.
Para chegar ao segundo turno, preciso de algo entre 25% e 30% dos votos.
E historicamente o Rio Grande do Sul já mostrou que o terceiro colocado pode vencer.
Aconteceu com Sartori, Rigotto, Yeda e com o próprio Eduardo Leite, que tinha 6% naquele momento e acabou vencendo.
Por isso acredito que, quando começar a televisão, o jogo vai mudar.
O que o senhor pretende apresentar como marca própria, considerando que é candidato do governo Eduardo Leite?
Eu não quero fazer uma terceira edição do atual governo.
Quero fazer uma primeira edição de um novo governo.
Mas quero manter as conquistas que conseguimos.
Participei desse processo não apenas como vice-governador.
Fui presidente da Assembleia Legislativa e líder do governo no Parlamento.
Acompanhei desde o início a agenda de transformação do estado, de redução do tamanho da máquina e de recuperação do equilíbrio fiscal, que permitiu retomar a capacidade de investimento.
Agora quero fazer coisas novas.
Uma delas é o Profissão na Mão, um grande programa de ensino técnico.
Com os recursos que virão da renegociação da dívida por meio do Propag, quero abrir cerca de R$ 600 milhões para investir em ensino técnico, comprando vagas no Sistema S e nas universidades comunitárias e ampliando o ensino médio em tempo integral.
Quero chegar a 100 mil matrículas no ensino médio em tempo integral, com dupla formação, para que o jovem saia da escola também com uma profissão.
É uma agenda que representa o novo governo que quero fazer.
Seus principais adversários atacam justamente a experiência do senhor na atual gestão, apontando problemas em saúde, educação, infraestrutura e reconstrução.
Qual foi o maior erro do governo Eduardo Leite?
Eles atacam, atacam, criticam, criticam, mas eu não vejo propostas para fazer diferente.
São candidaturas de pessoas que nunca governaram nada, não conhecem a máquina pública e, portanto, colocam em risco o trabalho que está sendo feito, especialmente na reconstrução.
Hoje temos 240 projetos do Plano Rio Grande.
Se os adversários assumissem, certamente mudariam equipes e projetos.
Haveria projetos cancelados e outros que precisariam começar do zero.
Isso inevitavelmente provocaria atraso no cronograma das obras.
E existe uma contradição: os principais grupos que concorrem conosco participaram do governo.
A vice do Zucco foi secretária, o filho dela foi secretário e o marido também foi secretário.
O PDT da Juliana teve secretários no governo até abril deste ano e mantém pessoas em diversos órgãos.
É como o engenheiro que ajuda a executar uma obra e, no fim, diz que ela está errada.
Mas, objetivamente, o que o senhor considera que precisa ser corrigido?
Na saúde, por exemplo, avançamos muito na redução das filas.
Reduzimos em 60% a fila de ortopedia, 60% a de oftalmologia e 35% a de otorrinolaringologia.
Mas ainda existe muita gente esperando atendimento.
A tabela do SUS federal é um problema grave, porque há procedimentos que são subfinanciados.
Conseguimos um acordo com o Ministério Público para aumentar os recursos estaduais destinados à saúde e criamos o SUS Gaúcho.
No próximo governo, quero acelerar esse processo, com quase R$ 6 bilhões adicionais na saúde ao longo de quatro anos, para chegar aos 12% de aplicação.
O senhor fala em continuidade, mas também enfrenta o desgaste provocado pela demora de algumas obras de reconstrução.
Como convencer quem perdeu a casa ou foi afetado pelas enchentes de que a continuidade é o melhor caminho?
Primeiro é preciso separar as diferentes obras.
O estado já entregou 12 mil casas por meio do Porta de Entrada, em que o governo paga a entrada para que as famílias adquiram suas residências.
Também há obras de infraestrutura e recuperação de estradas, pontes, diques, comportas e casas de bombas que já foram entregues.
Agora, há obras que naturalmente levam tempo.
Uma casa de 80 metros quadrados, em condições normais, pode levar 18 meses para ser construída quando se considera todo o processo.
Estamos fazendo 150 quilômetros de novos diques, com toda a complexidade de engenharia, licenciamento e execução.
É legítimo que a população queira mais agilidade.
Mas existe um tempo necessário para fazer uma obra.
Nova Orleans levou dez anos para construir seu sistema de proteção contra cheias.
A Holanda trabalha há séculos nesse tipo de estrutura.
Não é possível simplesmente apertar um botão.
E como o senhor pretende transformar essa questão da reconstrução em um argumento eleitoral?
A candidatura mais segura é a minha.
Eu conheço os processos, os projetos, as equipes, os cronogramas, os gargalos, os entraves burocráticos e o acompanhamento dos órgãos de controle.
Estou envolvido diretamente nisso.
Se meus adversários assumirem, vão mudar equipes e projetos.
Certamente haverá obras canceladas, projetos modificados e processos que precisarão começar novamente.
Isso vai provocar atraso.
Não se pode colocar em risco o processo de reconstrução do estado.
A minha candidatura é a candidatura segura para manter esse trabalho e transformar o Rio Grande do Sul no estado mais resiliente do Brasil.
O senhor foi coordenador do gabinete de crise durante as enchentes de 2023 e 2024.
Olhando retrospectivamente, o que poderia ter sido feito diferente?
Eu estava na linha de frente.
Em 2023, fui para Encantado e fiquei semanas coordenando os esforços no Vale do Taquari.
Em 2024, fui para Santa Cruz do Sul, onde coordenei uma macrorregião, e depois voltei a Porto Alegre para coordenar o gabinete da Região Metropolitana.
Quando o Centro Administrativo do Estado foi alagado, participei da montagem de um Centro Administrativo de Contingência.
Também coordenei a criação do Centro Humanitário de Acolhimento.
Depois, no Plano Rio Grande, o governador preside o comitê executivo e eu sou membro.
O conselho que acompanha o plano é presidido pelo vice-governador.
Então eu não estava olhando de fora para depois dizer o que teria feito.
Eu estava fazendo junto com o governador.
É claro que somos falíveis.
Muitas vezes a velocidade da resposta não é aquela que as pessoas precisam.
Mas existe uma diferença entre cobrar agilidade e imaginar que obras complexas podem ser concluídas instantaneamente.
O senhor pretende manter integralmente a política fiscal do governo Eduardo Leite?
Se manter as contas em dia significa manter integralmente essa política, sim.
Para mim, a política fiscal é a política-mãe.
Não adianta aumentar despesas sem ter de onde tirar o dinheiro.
Um estado não tem o mesmo arsenal que a União para administrar a economia.
Eu não posso emitir títulos da dívida pública da mesma forma que o governo federal.
Tenho a política fiscal e a política tributária.
Como não quero aumentar impostos e não vou aumentar, preciso controlar os gastos.
O Rio Grande do Sul já viveu momentos em que o aumento das despesas acima da arrecadação levou ao desequilíbrio financeiro.
O resultado foi um estado sem capacidade de investimento.
Onde o senhor pretende cortar gastos caso seja eleito?
Gasto é como unha ou cabelo: tem que estar sempre cortando.
Não existe uma vez e acabou.
O que precisamos fazer é controlar o crescimento das despesas para que ele não seja maior que o crescimento orgânico da receita.
Meus adversários, por não conhecerem a máquina pública, estão se comprometendo com aumentos de gastos sem explicar de onde virão os recursos.
Eu sei de onde tirar.
O Profissão na Mão, por exemplo, não é um gasto novo.
Vou utilizar recursos que virão da renegociação da dívida com a União, por meio do Propag.
O SUS Gaúcho também foi estruturado a partir de um planejamento financeiro que eu ajudei a construir.
O problema não é simplesmente gastar mais ou menos.
É saber de onde vem o dinheiro e como encaixar a política pública no orçamento sem produzir desequilíbrio.
Na educação, a progressão parcial adotada pelo estado virou alvo frequente dos adversários.
O senhor pretende manter essa política?
Quem critica a progressão parcial, em geral, não conhece o assunto.
São Paulo tem, Paraná tem, Minas Gerais tem, Santa Catarina tem.
É uma política comum também nas escolas privadas e está prevista na Lei de Diretrizes e Bases da Educação desde a década de 1990.
No Rio Grande do Sul, apenas 1% dos mais de 700 mil alunos da rede estadual ficou em progressão parcial.
É uma alternativa à reprovação integral.
O aluno que não atingiu o desempenho necessário em determinadas disciplinas pode recuperar aquele conteúdo no ano seguinte, dentro de critérios objetivos.
Se não recuperar, repete.
O Rio Grande do Sul tinha um dos maiores índices de abandono e evasão escolar do Brasil.
Um dos fatores era justamente a alta taxa de reprovação.
É melhor manter o aluno na escola e oferecer uma recuperação adequada do conteúdo do que fazer com que ele abandone a escola.
Eu até diria que, se houvesse uma prova para candidato a governador, determinados candidatos pegariam progressão parcial porque não conhecem o tema.
Na saúde, as filas continuam sendo uma das principais críticas ao governo.
Qual é hoje o maior gargalo?
A tabela SUS federal é o principal gargalo, sem dúvida.
Ela não é corrigida adequadamente há muitos anos.
Uma consulta com especialista é remunerada em pouco mais de R$ 10.
Uma biópsia que custa, em média, R$ 550 recebe cerca de R$ 27 pela tabela.
Um hemograma recebe R$ 1,80.
É evidente que existe um problema gigantesco de financiamento.
O estado é vítima de um sistema federal em que a União não faz adequadamente sua parte no cofinanciamento.
Aqui, a solução é ampliar o SUS Gaúcho.
Já estamos reduzindo filas em diversas especialidades e, no próximo quadriênio, teremos R$ 5,7 bilhões adicionais cumulativamente para a saúde.
Quero usar esses recursos para reduzir e, se possível, zerar as filas na maior parte das especialidades.
Também precisamos regionalizar cada vez mais a saúde.
Investimos mais de R$ 1 bilhão em hospitais, equipamentos, leitos e novos serviços, inclusive hemodiálise e oncologia.
Quanto mais próximo da residência do paciente estiver o atendimento, menor será a necessidade de deslocamento dentro do estado.
A rejeição ao governo Eduardo Leite é maior do que a aprovação na pesquisa Quaest.
Como isso interfere na sua campanha? O senhor pretende separar sua imagem da do governador?
Não.
Eduardo aparece desde o meu primeiro programa demonstrando seu apoio.
Sou vice-governador e tenho orgulho do governo que fizemos.
Vou mostrar os avanços e, ao mesmo tempo, apontar os riscos de retrocesso.
O eleitor precisa saber que existe uma diferença entre avaliar criticamente um governo e colocar em risco um processo de reconstrução que já está em andamento.
Não vou esconder de onde venho.
O senhor apoia Ronaldo Caiado para presidente.
Como pretende disputar espaço em uma eleição nacional polarizada entre Lula e Flávio Bolsonaro?
Meu candidato é Ronaldo Caiado.
Não escondo isso.
Todo o meu material de campanha tem o número dele.
Acho que ele é um dos poucos, entre os principais candidatos, que têm autoridade moral para governar o Brasil.
Além disso, tem experiência administrativa, foi reeleito e é bem avaliado em Goiás.
Tenho tranquilidade para defender o nome dele e torço para que chegue ao segundo turno.
Aqui no Rio Grande do Sul, enquanto um quer levar o estado para a esquerda e outro para a direita, eu quero levar o estado para a frente.
O senhor está acusando seus adversários de um “acordo” para tentar impedir sua chegada ao segundo turno.
Qual é a evidência disso?
Não sou eu que estou dizendo apenas.
A imprensa gaúcha tem publicado análises nesse sentido.
Eu vejo também pelo comportamento das candidaturas nos debates.
Os dois extremos, representados aqui por PT/PDT e PL, têm evitado determinados debates conjuntamente.
E, nos debates de que participam, há situações em que não me perguntam, não debatem comigo.
A impressão é de que existe uma estratégia para evitar que eu tenha exposição.
Por quê? Porque eles sabem do nosso potencial de crescimento.
Existe uma candidatura que fala do Rio Grande do Sul, não da polarização nacional, e que pode chegar ao segundo turno.
É justamente a minha.
Então o senhor afirma que existe um acordo entre PT/PDT e PL?
O que estou dizendo é que há um comportamento coordenado que a imprensa gaúcha vem apontando.
Quando um não vai a determinados debates, o outro também não vai.
Quando vão, muitas vezes não estabelecem confronto comigo.
Minha leitura é que existe uma estratégia dos dois extremos para tentar impedir que uma candidatura que não se coloca dentro dessa polarização nacional cresça.
E, para mim, isso demonstra que eles reconhecem a competitividade da nossa candidatura.
O que diferencia Gabriel Souza de Eduardo Leite? Qual será a sua marca pessoal como governador?
Eu quero ser um governador que estuda os assuntos sobre os quais fala, que sabe o que está fazendo e transmite segurança nas decisões.
Sou médico-veterinário.
Na faculdade, minha professora de cirurgia sempre dizia que um dia ela não estaria ali para nos ajudar.
Nós teríamos de saber o que estávamos fazendo, porque a vida do paciente estaria nas nossas mãos.
No governo acontece algo parecido.
São 11 milhões de pessoas que dependem das decisões do governador.
O pior lugar do mundo para aprender a governar é a cadeira de governador do Rio Grande do Sul.
É preciso chegar preparado.
Ninguém sabe tudo, evidentemente, mas é necessário estudar, conhecer os problemas e saber tomar decisões.
Minha grande marca será essa: identificar o problema e encontrar a solução.
Resolver problemas é uma característica da minha personalidade e é isso que quero levar para o governo.
Entrevista Gabriel Souza: ‘O pior lugar do mundo para aprender a governar é a cadeira de governador do Rio Grande do Sul’
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