Entrevista Juliana Brizola:

Entrevista Juliana Brizola: 'O Rio Grande do Sul perdeu protagonismo político em Brasília'

Fonte: Bandeira da fonte

Ex-deputada estadual, Juliana Brizola (PDT) tenta levar o trabalhismo de volta ao Palácio Piratini em uma eleição marcada pela polarização entre direita e esquerda e pela disputa acirrada com Luciano Zucco (PL), com o vice-governador Gabriel Souza (MDB) correndo por fora.
Para chegar ao segundo turno, conta com uma aliança inédita com o PT, que abriu mão da cabeça de chapa e indicou Edegar Pretto para vice, e com o legado de seu avô, o ex-governador Leonel Brizola.
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Juliana critica o modelo econômico adotado pelo estado nos últimos anos, baseado no ajuste fiscal e no Regime de Recuperação Fiscal, e promete usar a renegociação da dívida para ampliar investimentos em educação, saúde e infraestrutura.
Também defende a manutenção por mais dois anos do Fundo do Plano Rio Grande (Funrigs), criado após as enchentes de 2024, e a criação de um Fundo Constitucional do Sul, com inspiração em modelos semelhantes criados no Nordeste.
A candidata afirma ainda que o Rio Grande do Sul perdeu espaço político em Brasília e que pretende recuperar essa articulação independentemente de quem ocupe o Palácio do Planalto.
Na segurança, promete ampliar a integração entre polícias e outras áreas do governo, com foco especialmente na proteção de mulheres e crianças.
Ela também diz esperar o apoio de Eduardo Leite em um eventual segundo turno contra Zucco.
A senhora diz que o Rio Grande do Sul precisa recuperar o protagonismo econômico, mas também afirma que o estado perdeu protagonismo político em Brasília.
O que falta hoje e como pretende recuperar esse espaço?
O Rio Grande do Sul vive há 12 anos submetido a um modelo econômico que não funcionou.
Mesmo com venda de estatais, aumento de impostos e reformas, quem assumir o governo receberá um déficit de R$ 4,8 bilhões.
Para recuperar o estado, precisamos de um plano de início, meio e fim.
Vamos manter o Funrigs por mais dois anos, para ganhar fôlego, e fazer uma grande articulação em Brasília pela criação do Fundo Constitucional do Sul.
Também vamos aderir ao Propag, que permite que os juros da dívida permaneçam no estado para investimentos em educação, saúde e infraestrutura.
O Rio Grande do Sul perdeu protagonismo político em Brasília, e precisamos recuperá-lo.
As enchentes de 2024 ainda são um problema para o estado.
Qual seria sua prioridade se assumisse o governo?
Hoje as pessoas não sabem o que está sendo feito.
Não há clareza nem transparência.
Obras como diques, comportas, casas de bombas e drenagem são demoradas, mas a população precisa saber o que está acontecendo e ter segurança sobre o que fazer diante de uma nova chuva.
Minha primeira medida será estabelecer protocolos claros de alerta e retirada da população.
Depois, fazer um grande mapeamento do estado.
Todas as secretarias teriam uma estrutura dedicada às mudanças climáticas, porque isso afeta escola, hospital, infraestrutura e agricultura.
É preciso também integrar universidades e especialistas às decisões.
O governo está sendo moroso e pouco transparente.
A senhora fala em ampliar investimentos, mas o estado tem dificuldades fiscais.
Como financiar as propostas?
É muito importante dizer de onde virá o dinheiro, porque há candidatos prometendo mundos e fundos sem apresentar previsão orçamentária.
O Propag é uma fonte: os juros que hoje pesam sobre a dívida poderão ficar no estado para investimento.
Na saúde, por exemplo, existe o Pró-Hospitais, projeto que criei e que permite às empresas destinar até 5% do ICMS a hospitais filantrópicos e santas casas.
Isso pode injetar até R$ 1 bilhão no setor.
Também precisamos manter o Funrigs e articular o Fundo Constitucional do Sul.
Dinheiro existe.
O que falta é gestão e articulação política.
Pela primeira vez desde a redemocratização, o PT não terá candidato próprio ao governo do Rio Grande do Sul e estará na sua chapa.
O que o partido ganha abrindo mão da cabeça de chapa?
Ganha a possibilidade de vencer no segundo turno.
O PT historicamente chega bem ao segundo turno, mas acaba perdendo.
Somos oito partidos diferentes e não pensamos igual, mas conseguimos colocar essas diferenças de lado diante de algo maior.
O meu avô, Leonel Brizola, e o presidente Lula tiveram várias desavenças, mas nos momentos mais importantes estiveram juntos.
É uma aliança de responsabilidade e maturidade.
O Edegar Pretto é meu amigo, foi meu colega na Assembleia e tinha todo o direito de ser candidato.
Foi uma construção difícil, mas aconteceu.
O argumento para essa aliança é justamente chegar ao segundo turno.
Por que o eleitor deve acreditar que a senhora conseguirá fazer o que o PT não conseguiu nas últimas eleições?
Os números nos mostram que existe esse caminho.
Eu já aparecia nas pesquisas desde o ano passado e o PDT não tinha uma oportunidade como essa há muitos anos.
Mas não quero fazer uma eleição apenas sobre polarização.
Quero discutir os problemas do Rio Grande do Sul.
Sei que o Brasil está dividido e que o estado não é uma ilha, mas quero falar de saúde, educação, economia e reconstrução.
Ao mesmo tempo, tenho clareza de qual é o lado que defendo.
Meu avô foi perseguido e exilado, e meu outro avô, um militar legalista, foi torturado.
Sei de onde venho e sei de que lado estaria na defesa da democracia.
A senhora é a única mulher entre os principais candidatos.
Como isso entra na campanha?
Tem um simbolismo muito grande.
O Rio Grande do Sul é um estado onde muitas mulheres são assassinadas.
A proteção das mulheres será uma prioridade.
Precisamos integrar segurança, assistência social, saúde, emprego e renda.
A violência não começa no feminicídio.
Começa muito antes, e é preciso identificar os sinais, integrar informações e garantir que medidas protetivas e tornozeleiras funcionem.
Quero coordenar pessoalmente esse trabalho por meio do RS Mulher Segura.
A senhora já apoiou Eduardo Leite e agora ele tem um candidato próprio, Gabriel Souza.
Espera receber o apoio do governador num eventual segundo turno contra Zucco?
Tenho uma ótima relação com o governador e respeito o compromisso que ele tem com o vice-governador.
Eduardo Leite está honrando a palavra que deu ao Gabriel.
Temos diferenças ideológicas — ele é mais neoliberal e eu sou trabalhista —, mas convergimos em questões importantes, como a defesa da democracia.
Eu admiro a forma como ele enfrentou a Covid, inclusive sob pressão do bolsonarismo.
Se eu estiver no segundo turno contra o candidato do PL, tenho certeza de que ele vai me apoiar, por uma questão de coerência.
A Quaest mostrou Zucco numericamente à frente da senhora, embora dentro da margem de erro.
Como recebeu o resultado?
Pesquisa é retrato do momento.
Recebi o resultado com alegria e confiança na jornada que estamos construindo.
É um empate técnico e seguimos vencendo nos cenários de segundo turno.
Fiquei muito feliz por estar consolidada na liderança durante mais de um ano.
O Rio Grande cansou de briga e divisão.
Precisamos colocar a política no seu devido lugar, a serviço das pessoas.
Gabriel Souza disse que há um jogo combinado entre a senhora e Zucco para tirá-lo do segundo turno.
Existe algum acordo entre vocês?
Não existe combinação nenhuma.
O Zucco é meu adversário direto, não o Gabriel.
Tenho uma relação republicana com todos os candidatos, inclusive com o Gabriel e com o próprio Zucco, que foram meus colegas na Assembleia.
Mas não estou armando nada.
Vamos para o segundo turno, e será uma eleição muito dura.
A senhora também defende a implantação gradual de escolas de tempo integral inspiradas nos CIEPs de Brizola.
Quantas serão construídas e quanto isso custará?
Não penso em construir novas escolas necessariamente.
Temos mais de 2.500 e muitas foram descaracterizadas.
Primeiro é preciso fazer um mapeamento para saber onde há necessidade de tempo integral e onde a comunidade escolar deseja esse modelo.
Sou autora de uma lei que colocou na Constituição estadual a obrigação de ampliar gradualmente o ensino integral.
Quero cumprir essa lei e valorizar os professores.
O financiamento virá do orçamento existente e dos recursos que poderemos liberar com o Propag.
Esses tecnocratas nunca têm dinheiro para a educação.
Meu avô dizia que caro mesmo é a ignorância.
O governo dele do Rio de Janeiro chegou a destinar 43% do orçamento para educação.
Chamavam ele de louco, diziam que ele era amigo de traficante, mas essa não é a realidade de hoje.
Depois de 22 anos que ele se foi, a realidade é que, da esquerda à direita, todo mundo o respeita como um homem honrado, muito corajoso, que justamente quis dar esse choque educacional no estado.