Entrevista: Trump

Entrevista: Trump 'busca influenciar processos democráticos pelo mundo', alerta secretária da Anistia Internacional

Fonte: Bandeira da fonte

A aproximação do bolsonarismo com a gestão de Donald Trump, nos Estados Unidos, preocupa Agnès Callamard, secretária-geral da Anistia Internacional.
Em entrevista ao GLOBO, a ativista francesa critica o que chama de “aliança de líderes autoritários com big techs” e cita supostas restrições de direitos humanos ocorridas na gestão de Jair Bolsonaro no Planalto.
Ela ressalta, por outro lado, que o governo Lula também carrega contradições e “devia ter feito mais” no campo social.

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A senhora avalia que a aliança do bolsonarismo com a gestão de Donald Trump, nos Estados Unidos, trará problemas ao Brasil?
O povo brasileiro precisa se preocupar com qualquer líder autoritário que tente descarrilar o processo democrático e a proteção dos direitos humanos.
Sabemos que, sob Bolsonaro, muitas leis e políticas foram adotadas no Brasil com o objetivo de restringir a liberdade e os direitos humanos.
Portanto, a ideia de que esse "gene” Bolsonaro está renascendo na política deve ser uma preocupação para todos, não pelo sobrenome, mas pelas ideias e propostas sendo apresentadas.

O bolsonarismo está conseguindo essa projeção em uma aliança com uma grande potência como os Estados Unidos.
Isso é extremamente preocupante.
Trump está buscando influenciar processos democráticos ao redor do mundo.
A aliança de líderes autoritários com big techs é um ataque contra os princípios basilares da democracia e a escolha informada que os eleitores devem ser capazes de fazer.

Na última vez que conversamos, no contexto da COP30, a senhora citou contradições existentes no governo Lula.
Há a avaliação de que posições contraditórias do petista terão impacto nesta eleição?
O mundo tem atualmente poucos líderes que atuam em defesa dos direitos humanos.
O presidente Lula, internacionalmente, tem sido um deles.
No contexto brasileiro, houve grande melhora na comparação com a gestão Bolsonaro.
O governo Lula restaurou políticas e estruturas sobre memória, reparação, meio ambiente e proteção de defensores dos direitos humanos.
Mas o trabalho não foi suficiente.
Lula deveria ter feito mais, e as contradições presentes em seu governo minam seu legado.

No ano que sediou a COP30 e defendeu o fim do uso de combustíveis fósseis, o Brasil autorizou perfuração na Bacia da Foz do Amazonas.
Também neste governo, houve uma redução significativa na pobreza pela transferência de renda, mas desigualdades estruturais persistem, e a população vulnerável continua a ser atingida por eventos climáticos extremos.

O terceiro mandato de Lula termina, então, com muitas pendências?
Não estou sugerindo que Lula poderia ter mudado tudo isso em um período tão curto de tempo.
Mas estamos preocupados que ele seja ambicioso o suficiente para abordar questões sistêmicas.
A sociedade civil teme que o presidente não tenha força suficiente para enfrentar a ofensiva antidireitos presente no Congresso Nacional.

A senhora avalia que o governo Lula deveria ser mais firme com pautas que o opõe ao mercado financeiro?
O governo Lula precisa entender que o mercado não é o instrumento sobre o qual deve se basear.
Não é confiando no mercado que as questões sistêmicas serão resolvidas.
Essa ideologia que coloca o mercado, a acumulação de riqueza e os super-ricos no centro da política global é o que está levando o mundo à beira do abismo.
Está aumentando a desigualdade.

Não precisamos que o governo entre em conflito com o mercado.
É necessário, no entanto, que a gestão petista considere o mercado juntamente com outros objetivos cruciais, incluindo a redução da desigualdade, a proteção dos direitos humanos e a garantia de que os super-ricos não capturem o Estado.
Esses devem ser os motores da governança.
Lula está falhando em equilibrar o poder do mercado com os direitos das pessoas.

A violência é atualmente o maior temor da população brasileira.
Como o presidente que será eleito em outubro deve lidar na área de segurança?
Não existe uma solução simples para este problema.
Há uma ideia de que o uso militar extraordinário da força é a solução para a violência endêmica.
Essa tese já foi testada repetidas vezes por governos, seja na gestão anterior no Brasil ou na atual de El Salvador, mas não funciona.
É um slogan fácil lançado para pessoas que estão desesperadas.
O governo deve ter programas e planos sobre como enfrentar o cenário de violência.
Deve olhar dentro de um contexto mais amplo.
Uma resposta apenas militarizada não trará o tipo de segurança que as pessoas procuram.

Como trazer abordagens diferentes nesta área?
Sabemos que a violência criminal resulta do enfraquecimento da capacidade do Estado de proteger e garantir justiça econômica.
Não vou fingir que temos uma solução.
O que sei é que os direitos humanos devem estar no centro de como a gestão aborda a violência.

É preciso cuidar não apenas dos direitos das vítimas e da comunidade afetada, mas também daqueles que estão impulsionando a violência.
Francamente, sabemos que, quanto mais violência é usada para combater a criminalidade, mais o país entra em um espiral muito perigoso.
Essa é uma montanha-russa em que o Brasil está imerso.
Portanto, cabe ao Planalto apresentar ao povo um plano de longo prazo, com metas claras.