O surto de Ebola em andamento na República Democrática do Congo (RDC), o segundo maior já registrado e que continua em crescimento, pode ter começado, pelo menos, em janeiro, o que seria quatro meses antes de os casos terem sido detectados oficialmente.
É o que mostra uma investigação de três cientistas internacionais feita no país com financiamento da Organização Mundial da Saúde (OMS).
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À revista científica Science, uma das mais prestigiadas da área, o antropólogo Jules Villa, que trabalha para a OMS e participou do estudo, contou que os indícios apontam que a doença já espalhava medo e causava mortes em Mongbwalu, uma cidade mineradora de ouro na província de Ituri, onde começou a epidemia, no início do ano.
Quando as autoridades de saúde da capital da RDC, Kinshasa, reconheceram as ocorrências como casos de Ebola, uma “epidemia disseminada e generalizada” já estava em andamento, afirma a equipe.
Villa disse que os pesquisadores estão no processo de submissão do artigo à revista The Lancet.
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Os cientistas partiram dos indícios de que os primeiros casos haviam surgido em Mongbwalu, a cerca de 75 quilômetros a noroeste de Bunia, capital da província de Ituri, onde a epidemia explodiu mais tarde.
Eles passaram, então, um mês no local e entrevistaram 97 pessoas, entre enfermeiros e médicos, líderes comunitários, sobreviventes, familiares de vítimas, fabricantes de caixões e responsáveis por cemitérios.
“Não se tratava de uma tentativa de encontrar o ‘paciente zero’, mas de obter uma compreensão maior do surto a partir da perspectiva das comunidades onde ele começou”, afirmou a OMS em um comunicado enviado à Science.
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Os pesquisadores buscaram casos de pelo menos duas mortes numa mesma família em um período de 21 dias e sintomas compatíveis com a doença.
Eles também analisaram fotos, mensagens de WhatsApp, anotações de médicos e até biografias lidas em funerais que mencionavam os sintomas dos mortos.
Tudo apontava para infecções generalizadas pelo Ebola, afirmam.
Uma das cadeias de transmissão começou com uma mulher de 50 anos, identificada apenas como “A”, que morreu em 25 de janeiro após vomitar sangue.
Sua mãe morreu seis dias depois.
Seu marido adoeceu, mas se recuperou.
Em 11 de fevereiro, o sobrinho de “A” morreu, sangrando profusamente por orifícios do rosto, sintomas característicos do Ebola.
Ele foi enterrado no dia seguinte, durante um funeral que contou com a presença de muitas pessoas.
A mulher do sobrinho morreu alguns dias depois, seguida pelo filho do casal.
Várias outras pessoas da família também morreram.
Outras adoeceram, mas se recuperaram.
Ao todo, mais de 500 casos suspeitos entre meados de janeiro e maio, quando a epidemia foi oficialmente decretada, foram identificados pelos pesquisadores.
Entre os casos, 13 de “trabalhadores da linha de frente” que morreram, e outros 42 que adoeceram, mas se recuperaram, disse Villa.
Algumas unidades privadas de saúde da região fecharam, e profissionais de saúde fugiram.
O cemitério de Mongbwalu ficou sobrecarregado, chegando a registrar até 20 enterros em um único dia.
— Se o surto tivesse sido contido em Mongbwalu, teria sido muito mais fácil controlá-lo — afirmou à Science Manuel Albela, epidemiologista do Médicos Sem Fronteiras (MSF) que atualmente trabalha na região.
Surto é o 2º maior já registrado e continua a crescer
No último sábado, a OMS divulgou uma atualização sobre o surto de Ebola na RDC.
Já são 3.605 casos confirmados, incluindo 1.587 mortes, correspondendo a uma taxa de letalidade de 44%.
A infecção se expandiu da província de Ituri para mais outras quatro (Kivu do Norte, Kivu do Sul, Haut-Uélé e Tshopo) e segue em crescimento.
“O aumento contínuo dos casos, a expansão geográfica e a mortalidade persistentemente elevada ressaltam a rápida evolução desta emergência de saúde pública”, disse a OMS.
Apenas na última semana analisada, foram 567 casos e 296 óbitos, os maiores números semanais até agora, “ressaltando o ritmo excepcional de transmissão”.
No meio de maio, a OMS decretou que o cenário configura uma emergência de saúde pública de importância internacional, o estágio mais elevado de alerta da organização.
O total de casos já coloca o surto como o pior notificado na RDC e o segundo pior já registrado na história.
A espécie do Ebola que causa a epidemia atual é chamada de Bundibugyo e tem o agravante de não contar com alternativas de vacinas ou medicamentos aprovados para uso.
Até agora, as estimativas sobre quando a epidemia começou haviam se baseado principalmente em evidências genéticas relacionadas ao vírus, o que apontava para meados de março.
O novo estudo, porém, afirma que o patógeno já estava se disseminando muito antes.
