A Espanha afirmou nesta sexta-feira que conseguiu reverter a entrada em massa de migrantes no enclave espanhol de Ceuta, no norte da África, com a maior parte das mais de 50 mil pessoas que cruzaram a fronteira por terra e mar já retornando voluntariamente ao Marrocos.
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O representante do governo espanhol em Ceuta informou que 57 corpos foram recuperados no lado espanhol da fronteira e que pode haver mais vítimas no lado marroquino.
Segundo ele, parte dos migrantes morreu afogada e parte foi esmagada ao tentar escalar o quebra-mar onde está instalada a cerca da fronteira.
Forças marroquinas dispersaram multidões com cassetetes e gás lacrimogêneo nos acessos a Ceuta, tentando impedir novas invasões ao pequeno território espanhol, localizado em uma península que avança sobre o Mediterrâneo a partir da costa marroquina.
A invasão em massa da fronteira provocou divisões na Europa, onde líderes de outros países da União Europeia pediram que a Espanha controlasse a situação.
Partidos de direita atribuíram o episódio à política migratória relativamente mais flexível do governo espanhol, incluindo a anistia concedida neste ano a centenas de milhares de imigrantes em situação irregular.
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, crítico de longa data do governo socialista espanhol, também comentou a crise em Ceuta.
Segundo a Fox News, ele afirmou: "É isso que acontecerá conosco daqui a três anos se o lado errado vencer", em referência à próxima eleição presidencial americana.
O Ministério do Interior da Espanha informou que cerca de 50 mil pessoas cruzaram a fronteira desde a manhã de quinta-feira e estimou que aproximadamente 37,5 mil já haviam retornado.
Juan Jesús Vivas, chefe do governo local de Ceuta, afirmou que até 60 mil pessoas atravessaram a fronteira nos últimos dias.
Repórteres da Reuters em Ceuta viram policiais marroquinos com equipamentos de choque usando gás lacrimogêneo para dispersar parte da multidão reunida junto às cercas da fronteira.
Caminhões com canhões de água também foram mobilizados, e os restos carbonizados de um ônibus e de sete carros podiam ser vistos após confrontos.
Do lado espanhol, veículos militares foram posicionados ao longo de trechos da fronteira, enquanto dezenas de migrantes observavam do alto de uma colina em território marroquino, sem conseguir atravessar.
Centenas de pessoas foram vistas retornando ao Marrocos por postos de fronteira e por buracos na cerca.
Alguns disseram que não conseguiram encontrar comida nem abrigo em Ceuta.
"Para falar a verdade, nem sei por que vim, e agora estou voltando", disse à Reuters um jovem marroquino que afirmou ser de Tânger.
"Não como desde o almoço de ontem, embora tenha trazido algum dinheiro...
O que estamos fazendo não é bom nem agradável."
Migrantes retornam ao Marrocos vindos do enclave espanhol de Ceuta, sexta-feira, 31 de julho de 2026
AP/Antonio Sempere
Escala sem precedentes
O primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, viajou a Ceuta nesta sexta-feira, onde foi recebido com insultos por manifestantes.
Ele classificou a entrada em massa como "uma violação da soberania territorial da Espanha" e afirmou que as autoridades estão acelerando a repatriação dos imigrantes que entraram ilegalmente, em plena cooperação com o Marrocos.
Ceuta e Melilla, cidades autônomas espanholas localizadas no norte do Marrocos, são as únicas fronteiras terrestres da União Europeia com a África.
As duas registram periodicamente tentativas de travessia por migrantes que buscam chegar à Europa, mas a dimensão da onda de quinta-feira parece não ter precedentes.
Em uma publicação na rede X, a associação de policiais espanhóis AUGC afirmou que havia agentes insuficientes para vigiar a cerca durante a onda migratória de quinta-feira, o que impossibilitou conter as travessias.
O ministro da Política Territorial, Ángel Víctor Torres, afirmou que um dos fatores que podem ter contribuído para o aumento das travessias foi uma decisão do Supremo Tribunal da Espanha, tomada neste mês, segundo a qual migrantes interceptados no mar ao tentar chegar a Ceuta ou Melilla não podem mais ser sumariamente barrados na fronteira.
Especialistas afirmam, porém, que isso não impede sua posterior expulsão.
Do lado marroquino, milhares de migrantes continuaram chegando durante a madrugada à cidade de Fnideq, apesar do reforço da segurança, que frustrou a maior parte das tentativas de travessia.
Mais tarde nesta sexta-feira, alguns começaram a deixar a cidade
Embora a passagem principal parecesse bloqueada, grupos continuavam percorrendo o litoral em busca de rotas alternativas ao redor da cerca.
"Cheguei tarde", disse Brahim, de 32 anos, que preferiu informar apenas o primeiro nome.
Ele contou que veio de Tânger esperando atravessar pelo posto de fronteira, mas encontrou a passagem praticamente fechada.
Entre os que ainda tentavam cruzar havia mulheres e crianças, tanto do Marrocos quanto de países da África Subsaariana.
Pessoas caminham perto da cidade de Fnideq, no norte de Marrocos, enquanto tentam atravessar para o enclave espanhol de Ceuta, na sexta-feira, 31 de julho de 2026
Associated Press
Divisões na Europa se aprofundam
A imigração é um dos temas mais divisivos da política europeia, onde partidos de extrema direita vêm ganhando força e grande parte do centro político passou a defender regras mais rígidas.
O governo da Espanha, uma exceção à tendência observada no restante da Europa de endurecimento das políticas migratórias, afirma manter uma postura firme contra as entradas irregulares, mas sustenta que os imigrantes beneficiam o país e ajudam a fortalecer sua economia, uma das que mais crescem no continente.
Nos últimos meses, Madri promoveu uma ampla anistia que levou centenas de milhares de pessoas a solicitar residência legal.
O ministro do Interior da França, Laurent Nunez, afirmou que já determinou "o reforço imediato dos controles na fronteira com a Espanha".
O ministério não deu detalhes sobre como isso alterará os procedimentos.
Em condições normais, os países da União Europeia não podem realizar controles nas fronteiras internas do Espaço Schengen, embora essas verificações possam ser restabelecidas temporariamente em circunstâncias excepcionais.
A França mantém uma autorização especial, renovada a cada seis meses desde 2015.
A primeira-ministra da Itália, Giorgia Meloni, afirmou que seu país está preparado "para adotar medidas extraordinárias para defender as fronteiras e a segurança dos cidadãos, incluindo a suspensão do regime de livre circulação do Espaço Schengen com a Espanha".
O ministro das Relações Exteriores da Itália, Antonio Tajani, afirmou que a política espanhola de anistia "incentivou o tráfico de pessoas".
Em resposta, a Espanha convocou o embaixador italiano para protestar contra as declarações de Tajani.
