Estamos ficando mais burros? - QTU Questões do Universo

Estamos ficando mais burros?

Fonte: Bandeira da fonte

A pergunta do título abre um dos capítulos do livro “O algoritmo das famílias”, da jornalista Renata Cafardo.
A obra analisa o impacto de tecnologias digitais em várias dimensões da parentalidade, mas o referido capítulo aborda principalmente os efeitos sobre a aprendizagem.
A resposta é nuançada, mas os indícios de pesquisas recentes mostram que, pelas métricas tradicionais, a provável conclusão é que sim.
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O livro se baseia num volume robusto de evidências.
Em primeiro lugar, é possível concluir — neste caso, sem muita polêmica — que aparatos digitais aumentam a distração.
E uma das consequências disso é a diminuição na capacidade de leitura profunda, necessária para compreensão, aprendizagem e até empatia.
De acordo com a pesquisadora Maryanne Wolf (citada no livro de Cafardo e autora de “O cérebro no mundo digital”), “o problema é que ambientes contemporâneos nos bombardeiam constantemente com novos estímulos sensoriais” e “não vemos ou ouvimos com a mesma qualidade de atenção, porque vemos e ouvimos demais, nos acostumamos e pedimos mais”.
Estudos citados no livro mostram também impactos negativos da exposição prolongada a vídeos curtos na capacidade de pensamento analítico e de atenção.
Sem falar nos efeitos na saúde física e mental, presentes em outros capítulos.
Como sabemos, o problema é global.
Antes mesmo da pandemia, médias de estudantes no Pisa (mesmo em países ricos) estavam em declínio.
Testes realizados em adultos, como o Indicador de Alfabetismo Funcional no Brasil ou o Skills Outllook em países da OCDE, também mostram perdas recentes.
Em todos esses casos, não é possível dizer o quanto é causado especificamente pela massificação de aparatos digitais, mas essa é uma hipótese frequentemente destacada em análises.
Mais recentemente, uma nova camada de preocupação emergiu com a inteligência artificial generativa.
Ainda não há um consenso científico claro, mas vários estudos publicados desde o ano passado — em localidades diversas como China, Turquia, Brasil e Estados Unidos — identificaram impactos negativos na aprendizagem, memória e criatividade.
Em geral, há um padrão comum: o desempenho nas atividades mensuradas aumenta quando feito com apoio de IAs, mas cai assim que essa muleta é retirada, um perigoso indicativo de que estudantes não desenvolveram as habilidades esperadas ao longo do processo.
Aqui é preciso registrar que há também usos promissores.
Em alguns contextos, elas já estão facilitando o trabalho dos professores em tarefas como elaboração e correção de provas, ou mesmo na preparação de aulas.
A capacidade de fornecer de forma ágil feedbacks personalizados, identificando lacunas e sugerindo exercícios e lições customizados, é outro campo potencial.
Há quem advogue ainda que, quando bem utilizadas, essas ferramentas facilitam o desenvolvimento de habilidades mais complexas e sofisticadas nos estudantes.
O grande problema é que a adoção dessas tecnologias na educação vem ocorrendo num ritmo muito maior do que a de produção de conhecimento acadêmico, fundamental para apoiar gestores e professores na curadoria essencial para separar soluções promissoras daquelas que trazem sérios riscos ao desenvolvimento pleno dos estudantes.